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Letra e Vídeo

Literatura musical

Tag Archives: Ricardo França

STREET OF DREAMS       

 Já fomos grandes, você se lembra? E ainda sempre podemos ser se você o quiser. Dormentes caminhos neurais se refazem num intervalo sem tempo quando o real sincronismo acontece.

 Quando te conheci não me deste tempo para respirar. Um respiro que era um sopro de vida desatando as presilhas da alma. Mal os abismos de nossos olhos se espelhavam nas nossas lentes percebêramos a impossibilidade de conflito entre nós.

 Passávamos fulgurando pela via radioativa, pilotando o trem da gravidade. Nossa mentora nos confiara tanto. O que fizemos pra merecer tanta consideração dela? Éramos apenas mais dois soldados da mídia para todo o resto. Percebia ela, mesmo que de soslaio, na tua arfante expectativa antes de cumprirmos o prometido, e com esse a promessa de sonhos cumpridos?

 Você se lembra? Poderia se lembrar ainda de mim? Do como passáramos juntos pelo vau acinzentado do ensimesmamento?

 Estávamos então no limiar de tanta coisa importante, não é mesmo? Fatos lançados no trançado do tempo que desembocavam num daqueles nós das eras. Já não tivéramos nossa cota de mergulhos no oceano das possibilidades que nos fizeram voltar gotejantes de fascínio? E, incônscios das consequências, mesmo os nossos mais talentosos colegas não conseguiam perceber aonde os entrechoques levavam ao bilhar dos eventos. Arqueavam os sobrolhos, quando vislumbravam algo das sutis influências disparadas, mas não de forma tão graciosa quanto os teus arcos capilares quando se costumavam emoldurar tua céptica expressão.

 Os momentos de transição. Sempre soube você aproveitá-los tão bem, tão melhor que eu. Só precisávamos galvanizar o interesse de todos estudantes ali reunidos, por acaso os melhores no que faziam. Foi mais fácil para você do que para mim. A moda que lançamos estava mais do que enraizada e agora era a oportunidade de criarmos os caminhos novos. As ondas em interferência construtiva das mentes conectadas mas não subordinadas. Só os mais intrépidos poderiam te acompanhar. Outros preparariam a logística e o envultamento das intenções perante o vulgo.

 Nossa tampinha-chefe não precisava nem ordenar o próximo passo. Sabíamos bem o que fazer. Quando liberamos a visão dos nossos olhos de arco-íris sobre a audiência, ao descerrarmos as pálpebras não mais ocultas pelas convexas e quase-opacas lentes que usávamos, já há muito eles estavam convencidos pelos harmônicos naturais de tua voz. Voz em ondas que lambiam as fronteiras dos cuidados de defesa do ego. As palavras certeiras para os que não viam sentido algum somente numa simples vida autoperpetuante. E ao mesmo tempo, a imortalidade da eterna expansão prometida aos que não viam graça alguma nas tentativas de auto-superação ou nas agridoces frustrações que as amarras coletivas nos proporcionavam desde a vida unicelular.

 Porque você não ficou aqui – conosco – na missão de reconstrução dos cacos dos vasos partidos, das vidas separadas e não unidas, do refazer dos caminhos traçados nos domínios dos sonhos que se sonham juntos? Porque teve você que se dar o luxo do último mergulho na incerteza?

 A dissolução da personalidade não deixaria nunca mais as curvas de teu corpo se enrijecerem atrás do vítreo esquife em que teu veículo corpóreo foi depositado. Mas quando você voltaria a afagar os nós de meus dedos de novo com a tepidez única de teu toque? Quando você nos comunicaria, com teu humor sempre borbulhante o que percebera no emaranhamento com as consciências ancoradas em mares não aquosos sob céus de matizes não figurados?

 Volte para a vida isolada, eu te peço. Volte para a vida das impossibilidades da separação. Volte para mim, e para “o mim mesmo”, mesmo que este seja agora tenha passado a ser para você só um hábito esquecido de auto-limitação…Eu sinto nas minhas circunvoluções que ainda podemos voltar a ser dois em um e não apenas o sonho de um em muitos.

 E, então, vamos explorar o que as nossas limitações têm a oferecer.

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Ele me recebeu com o desdém dos que sabem que não precisam ouvir aqueles que nem deveriam estar vivos. Eu me pergunto se deveria ter vindo. As chances de conseguir qualquer coisa… um farrapo de informação ou fragmentos de ossinhos que fariam a felicidade de qualquer arqueólogo, são mínimas.
 
A expedição para as terras do círculo de chamas estava para partir e eu queria uma vaga, precisava de uma vaga. Minha aparente obssessão era tolerada como qualquer interesse acadêmico parecia ser pelo nosso déspota esclarecido. Tinha mesmo que investir nessa impressão, mesmo que os reais motivos tivessem que ficar recobertos sob as camadas de salamaleques sutis, os quais me franqueariam os dados que me faltavam.
 
– Meu caro Vorparashu, eu não entendo porque você precisa arriscar sua vida. Monte e alugue uma trupe. Quando a infraestrutura estiver arrumada aí você pode comandar as operações.
 
Meu colega de sala já me aturava há dois ciclos acadêmicos completos e só as tempestades de poeira que agora sobrenadavam as fímbrias de nossa pequena comunidade de pesquisa o impediam sair pela cortina afora e me deixar falando sozinho quando eu entrava nos “modos do delírio”. Eu sabia que ele nunca entenderia, mas acho que ele intimamente percebia que eu levava mortalmente a sério uma posição que muitos só usavam como mero trampolim para ter acesso os círculos das benesses. Ele se ocupava por vezes de favores que eu lhe pedia, pois suas atribuições não requeriam sua constante presença e supervisão. Uma sondagem aqui, uma compra acolá, e eu ia montando meu quebra-cabeça de forma imperceptível a todos inclusive a meu amigo. Por sua vez ele tinha acesso livre às minhas contas de paralelismo encéfalo-concatenantes o que fazia para me sentir equilibrado em amizade e respeito. Ele usou até parcamente os direitos que lhe fraqueei, mas também teve seu quinhão de vantagens. Foi uma boa simbiose.
 
Um dia eu mostrara a ele um estranho artefato que por vezes, ao ser colocado no sol acendia umas pintas azuis e laranjas, emitindo um fraco zumbido de inseto-melífero, para pouco depois entrar em hibernação. Algo assim ter sido desencavado dos fundamentos de um antigo templo à divindade oscilante era um tipo de configuração que não batia com as expectativas das publicações oficiais.
 
– Ei, Shikander, você se incomoda de gravar esta imagem para mim?_ Ele estava dando mais uma volta em seu laçarote de bandagens em preparação para encontrar sua parceira da semana. Provavelmente eu estava para ouvir um sonoro palavrão quando, ao se aproximar ele mesmo já carregando a manopla de reprodução, estacou em meio ao habitual chute que iria desferir sobre meu traseiro e, boquiaberto, rapidamente deduziu o que parecia ser o primeiro conjunto de dados imagéticos da sonda recém-posicionada nas brenhas mais fundas da vasta depressão salgada de Kiys.
 
– Vor, isto não é o que eu estou pensando que é?
 
– A lendária estátua perdida de Varthor? Os ícones não deixam dúvidas. Os textos não dizem que o complexo de cidades-moradias do Ser-Deus Keyin era encimado pela estátua da primeira exploradora? Pois lá estão as cidades. Tenho que me infiltrar no grupo de prováveis escolhidos pelo sumo-déspota.
 
– Você não acha que vai ter que oferecer uma motivação melhor do que um “eu quero muito”? Os acólitos sempre têm seus preferidos…
 
E foi assim que eu decidi descer do pedestal do orgulho e solicitar uma audiência. Fiz a mias seca alocução gravada nos formantes de acesso do secretariado. Já me preparava para um longo ordálio de esperas, negociações e trocas prospectivas de favores quando recebi a confirmação menos de um dia após meu pedido. Tinha que aproveitar a oportunidade de celeridade única e cravar uma cunha de determinação entre as decisões e as procrastinações dos decisores do palácio. Após colocar o traje respeitoso minimamente necessário enfrentei a tempestade da tarde e consegui chegar na hora do ante-repasto palaciano.
 
A expressão constantemente desdenhosa do sumo-déspota se desvaneceu num largo meio sorriso quando ele me viu e, para espanto meu, dispensou o acólito ouvinte que ditava um de seus barrocos discursos e se aproximou de minha empoeirada figura, em passos de dançarino
 
– E quem vem trazido dos ciclos? Hohoho! _ Um tapinha amigável com os nós dos dedos quase me atira de volta para a eclusa de decantação de pó. A força do líder era bem conhecida, mas ele parecia sempre saber quando parar e, antes que me desse conta, guiou minha desconjuntada figura ao hall dos contempladores na sacada secundária do pátio.
 
– Você me parece ter bons motivos para ser tão direto, hem? Hohoho! Não fique com essa cara de quem não sabe o que dizer a seguir. Eu gosto de vez em quando de me livrar destas mascaradas e cerimoniais. E como você foi refrescantemente direto em seus formantes (que, por incrível que pareça, foram lidos por mim antes que pelos meus acólitos filtradores) eu também o vou ser: Nós estamos em comunhão de interesses, meu caro pesquisador. Não, eu não sou arqueólogo amador nem estou querendo mais uma validação dinástica. Eu quero a mesma resposta que você!
 
Enquanto eu dava tratos à bola para decidir se devia dar suporte ao monólogo com alguma anuência ou muxoxo ele, percebendo minhas hesitações, ligou um canal imagético particular. Qual não foi a minha surpresa quando vi uma planta completa do complexo de cidade de Keyin no abstrator. E mais uma imagem me deixou alarmado: Minhas suspeitas tornadas reais. Uma imagem celeste com linhas brilhantes ligando nosso orbe a uns poucos e esses a outros tantos poucos, com os ícones sagrados disseminados pelos localizações das diferentes girândolas de fogo do céu.
 
– É meu caro… – Me dizia o agora quase-íntimo déspota. Se tuas pesquisas estão certas amanhã de manhã mesmo estaremos respirando ares menos empoeirados. Hohohoho!

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