Skip to content

Letra e Vídeo

Literatura musical

Tag Archives: Moonspell

 

Tríade

 

 

Na Ara da Vida jaz uma morte
A ti te lanço a minha sorte
Ataegina tríade fatal
Pálida Deusa, doce é teu mal

 

Moonspell – Ataegin

 

Roma 410 AD

 

Roma fora rainha do mundo por tanto tempo. Agora sucumbia ante a horda de guerreiros vindos das florestas da Germânia. Barbaroi que sequer sabiam latim. Sequer falavam a mesma língua. No capitólio, Julia Augusta, filha do imperador, ouvia entristecida os sons distantes dos invasores derrubando as defesas romanas. Sabia que não teria muito tempo até chegarem ao palácio.

 

Ajoelhou-se aos pés de uma estátua de mármore branco, rosada pelos raios do sol. Representava uma mulher, vestida com panos simples e de expressão tranqüila. Ergueu a voz em um pedido.

 

– Virgem Mãe, ajuda-me! Faça com que eles não cheguem aqui!

 

Suas preces não foram atendidas. O mundo ainda era iluminado pelo carro de Apolo quando o palácio capitolino foi alcançado pelas hostes de Alarico, chefe das tribos godas. O saque foi tão terrível quando no resto da urbes. Tudo que os bárbaros achassem ter valor, era arrancado de seu lugar e amontoado. O resto era destruído. Assim anunciavam o cair da águia romana.

 

Não demorou para encontrarem o aposento escondido de Julia, guiados pelo próprio rex. O rosto guerreiro parecia uma máscara de ódio ao olhar a jovem romana ajoelhada. Em um latim rude, gritou.

 

– É verdade, até os chefes adoram a virgem que pariu o deus morto! A mulher é minha…meu filho vai ser neto do imperator!

 

Riram roucamente, e começaram a destruir o aposento, procurando tesouros escondidos nas paredes. Alarico arrancou a toga que cobria Julia com apenas um movimento. Ao tentar penetra-la, deu mais uma gargalhada.

 

– Não só adoram, como imitam…

 

E forçou-a, com violência. Entre a dor e a humilhação, contendo as lágrimas, a jovem gritou.

 

– Mãe, ajuda-me!

 

O germano deu-lhe um soco na boca.

 

– Cala-te, vadia! Como uma virgem morta pode ajudar?

 

Nesse mesmo instante, os outros guerreiros tiravam a pesada estátua de mármore do seu nicho. A descoberta paralisou-os.

 

– Por Odin, é Hécate, a Mãe da Lua Negra!

 

Uma estátua ricamente trabalhada de ônix negro representava uma mulher de idade, pisando em cobras, vestida com um manto dourado, o olhar maligno. Ao seu lado, oculta nas sombras, uma estátua pequena de quartzo rosa de uma grávida, o ventre cheio, expressão de plenitude.

 

– São as três. Ela é uma bruxa!

 

Apavorados, saíram aos tropeções. Só Alarico permaneceu paralisado, como que sob o efeito de um feitiço.

 

– Toda mulher tem um lado oculto. A Virgem pode ser a Mãe pode ser a Velha. Saia daqui, Alarico, e volte para as florestas. Ainda não chegou a hora da Cidade Eterna cair.

 

Dos que invadiram o palácio, apenas o rex saiu vivo do castelo. Os demais caíram fulminados ao deixarem o capitólio. O triunfo de Alarico foi curto, a ordem foi restaurada em Roma. Mesmo tendo sido esquecida pelos homens em detrimento da Virgem, a Velha manteve sua cidade enquanto pode.

Anúncios

Tags:, ,

“O branco é a cor do fim do mundo”

Era, ao menos, o que passava pela mente do jovem navegador lusitano, cercado de uma névoa densa, espessa ao ponto de quase tornar-se sólida. O amanhecer já deveria ter chegado, porém não havia sequer indício de sol ali, no meio daquela alva matéria. Gaspar Corte Real tremeu, sentindo-se subitamente perdido em busca de algo ilusório. O astrolábio, da última vez que o consultara, indicara que estavam na direção certa.
Isso fora três dias antes, quando ainda havia estrelas no céu. Naquele ponto onde a nau balançava lentamente nada parecia existir. Não encontrava indicações para saber a sua posição ou mesmo marcar um destino. O vento não soprava e o mar estava quase parado.

Talvez tivessem finalmente alcançado o Finisterra.

Um misto de pavor e euforia invadiu o coração do aventureiro. Em um mundo no qual até mesmo as terras místicas eram conhecidas e visitadas com regularidade, alcançar o único ponto não cartografado ou descrito era algo na fronteira entre o temerário e o audaz.

Mas afinal, navegar era preciso, mesmo que o mar ficasse salgado com as lágrimas dos deixados em terra.

Escutou passos atrás de si e virou-se para receber o seu irmão.

– Miguel, chegamos. Só pode ser cá.

O irmão olhou ao redor, indagativo.

– Tem certeza? Pensei que fosse… mais… Direi a verdade, Gaspar, achei que fossemos encontrar algo, que aqui houvesse um marco, uma ilha, qualquer coisa, não apenas uma vastidão branca!

Gaspar parecia mais firme no que pensava.

– É uma questão de sabermos ao certo o que fazer. Chame o mago para que ele analise todo o lugar e encontre uma resposta.

O herdeiro da longa linhagem de navegadores e soldados ficou a sós no leme, olhando para o horizontes que não via. Pensava no que os aguardava quando conseguissem quebrar aquele véu e finalmente chegassem ao último lugar do mundo.

Finisterra.

Não voltava seus olhos para a água que, espelho do céu, apresentava uma cor esbranquiçada com tons de cinza quando as ondas lentas batiam. Por isso, não percebeu uma mancha negra que crescia na direção de sua nau. Só quando o cheiro nauseabundo da criatura chegou ao seu nariz é que notou algo estranho acontecendo.

Fora tarde demais. De repente, o fim do mundo tornou-se vermelho para Gaspar Corte Real, que rezou em silêncio, nos seus últimos momentos de consciência. Pediu ao Nazareno que socorresse seu irmão, para que sua linhagem não se extinguisse.

“Os jutos são um povo rude, de poucos modos e pensamentos pequenos. Temem apenas seus deuses, tão descorteses e primitivos como eles. Por tal especificidade, estão entre os dois únicos povos de todas as raças que habitam os mundos conhecidos que se aproximam com constância do marco que limita o Oceano.”
Etimologias, vol III: Das gentes
Isidro de Hispalis

 

Lars era letrado. Pelo menos, o era para os padrões do seu povo. Não possuía uma vasta erudição, como os letrados das terras mais ao sul, porém sabia reconhecer os símbolos da escrita e também conseguia dizer o que significavam em três dos idiomas dos povos navegadores. Tal era a sua importância dentro do seu clã que o nomearam líder da principal liga pesqueira, que se aventurava por mares profundos durante meses a fio.

Não era um encargo que deixasse Lars satisfeito. Talvez por ter esse rudimento do saber de outros povos do continente, fosse mais sensível às suas superstições. Não gostava de se aproximar do local do Grande Marco, a imensa pedra que marcava o limite do mar permitido para o seu povo. Além dele, estavam as pontas dos galhos de Ygdrasil, a imensa árvore que sustentava tudo o que existia no mundo dos homens, o separando do Além. Lars também conhecia o nome que os que viviam ao Sul davam a esse lugar, Finisterra. Ouvira histórias sobre criaturas, monstros e perigos que lá habitavam.
Porém, demonstrar esse receio seria uma fraqueza e isso ele não poderia deixar acontecer. Portanto, Lars guardava seus temores para si.

O mar estava estranhamente calmo quando finalmente escolheram um lugar para ancorar e jogar as redes. O Grande Marco estava próximo, decorado com alguns fórmulas antigas que prendiam o que quer que habitasse as águas escuras que se estendiam por detrás dele.

Um de seus comandados apareceu, com uma expressão intrigada.

– Chefe, o Marco está diferente.

– O que aconteceu?

– Surgiram novas marcas… estranhas.

Lars foi para o lado do navio onde poderia ver melhor o Marco. O feiticeiro que os acompanhava tinha se adiantado e observava os símbolos. Endireitou-se quando Lars chegou perto.

– Chefe, não danificaram os símbolos. Apenas colocaram algo por cima.

– É mágico?

– Não, senhor. Não está em nossa escrita. Não posso decifrar, mas não há aura de magia recente.

Prestou atenção nos símbolos. Logo na primeira palavra, descobriu que se tratava da língua dos lusitanos, uma mistura sonora da língua dos latinos com muitas outras. Teve alguma dificuldade para seguir a mensagem que ali estava e quando terminou seu rosto estava pálido e sua expressão distante.

O feiticeiro estranhou.

– Aconteceu algo, chefe?

– Sim, e é grave. Vamos, recolham as redes e as ancôras. Temos que ir em direção à Olissipona. O Imperador lusitano deve ser avisado. Depois, voltaremos para o nosso próprio porto, temos que avisar nosso könig. As criaturas do lado de lá estão vindo… Só me pergunto onde o luso encontrou tinta para escrever aquilo…

– Não é tinta, senhor. É sangue.

Tags:, ,

Como nos tornamos Fogo?

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Como foi que me perdi do caminho escolhido, por ver em tua boca a promessa de algo mais?

Em que momento tua presença tornou-se mais importante do que qualquer coisa?

Em que encruzilhada do destino eu vi os teus cabelos ruivos?

Disseste ser salamandra, dona do Fogo e dos seus domínios. E amei-te mesmo assim. No meu estúdio alquímico, conjurava demônios, e atravessei os limites do Plano flamejante onde moravas.

De início, fez-me promessas e aumentou meu conhecimento. Eras espectro de chamas nas sombras do meu feitiço de invocação.

Encantaste-me. Com teus olhos de fogo, teus cabelos como o cobre, a voz que queimava minh’alma. Tua visão brilhava em meus sonhos, perseguia-me enquanto estava acordado. Sequer tentei resistir, forçar-me a desvanecer tua figura. Joguei meu espírito em tuas chamas.

Queria mais, desejava possuir teu corpo que não existia. Incorporal, etérea, eras Salamandra, rainha e espírito do Fogo.

Dediquei meus estudos, meu tempo, minha riqueza a meu único objetivo. Abraçar teu corpo e consumir meu desejo em tua carne quente. Deveria criá-la, fazer tua essência imaterial passar dos planos elementais e tornar-se matéria.

Dias, meses, anos. Consumi minha vida na vontade insana de saciar minha vontade de ti.

Não foi em vão.

Uma noite de chuva opressora, calor sufocante. Moldei as formas no barro, fiz os encantamentos devidos. Convoquei-te e fiz a proposta. Teu sorriso faiscou a tua resposta. Porém, antes de me deixar começar, fizeste uma advertência. Tua estada no meu plano seria curta. Em seis meses, deixarias de ser barro e tornarias ao fogo, que era tua casa.

Vivi esses dias imerso no queimar da matéria que fiz para ti. O desejo ardia nos dois, tornando-nos escravos e senhores um do outro.

Hoje, o prazo findou-se. Teu último beijo ainda estava quente nos meus lábios, meus braços guardavam a sensação do teu calor. Vi a frágil existência que eu criara sendo consumida pelas chamas que te reclamavam.

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Por que saí do caminho escolhido, ao ver em tua boca a promessa de algo mais?

Quando senti tua presença mais importante do que minha vida?

Em que encruzilhada do destino eu segui os teus cabelos ruivos?

No meio do meu estúdio, o fogo era glorioso. Tua face refletida nele. Dei os passos necessários, e novamente nos abraçamos.

Mas já não era a essência do fogo que se fazia carne. Era meu corpo que se entregava às chamas.

Foi assim que nos tornamos Fogo.

Tags:, ,