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Letra e Vídeo

Literatura musical

Tag Archives: Finisterra

“O branco é a cor do fim do mundo”

Era, ao menos, o que passava pela mente do jovem navegador lusitano, cercado de uma névoa densa, espessa ao ponto de quase tornar-se sólida. O amanhecer já deveria ter chegado, porém não havia sequer indício de sol ali, no meio daquela alva matéria. Gaspar Corte Real tremeu, sentindo-se subitamente perdido em busca de algo ilusório. O astrolábio, da última vez que o consultara, indicara que estavam na direção certa.
Isso fora três dias antes, quando ainda havia estrelas no céu. Naquele ponto onde a nau balançava lentamente nada parecia existir. Não encontrava indicações para saber a sua posição ou mesmo marcar um destino. O vento não soprava e o mar estava quase parado.

Talvez tivessem finalmente alcançado o Finisterra.

Um misto de pavor e euforia invadiu o coração do aventureiro. Em um mundo no qual até mesmo as terras místicas eram conhecidas e visitadas com regularidade, alcançar o único ponto não cartografado ou descrito era algo na fronteira entre o temerário e o audaz.

Mas afinal, navegar era preciso, mesmo que o mar ficasse salgado com as lágrimas dos deixados em terra.

Escutou passos atrás de si e virou-se para receber o seu irmão.

– Miguel, chegamos. Só pode ser cá.

O irmão olhou ao redor, indagativo.

– Tem certeza? Pensei que fosse… mais… Direi a verdade, Gaspar, achei que fossemos encontrar algo, que aqui houvesse um marco, uma ilha, qualquer coisa, não apenas uma vastidão branca!

Gaspar parecia mais firme no que pensava.

– É uma questão de sabermos ao certo o que fazer. Chame o mago para que ele analise todo o lugar e encontre uma resposta.

O herdeiro da longa linhagem de navegadores e soldados ficou a sós no leme, olhando para o horizontes que não via. Pensava no que os aguardava quando conseguissem quebrar aquele véu e finalmente chegassem ao último lugar do mundo.

Finisterra.

Não voltava seus olhos para a água que, espelho do céu, apresentava uma cor esbranquiçada com tons de cinza quando as ondas lentas batiam. Por isso, não percebeu uma mancha negra que crescia na direção de sua nau. Só quando o cheiro nauseabundo da criatura chegou ao seu nariz é que notou algo estranho acontecendo.

Fora tarde demais. De repente, o fim do mundo tornou-se vermelho para Gaspar Corte Real, que rezou em silêncio, nos seus últimos momentos de consciência. Pediu ao Nazareno que socorresse seu irmão, para que sua linhagem não se extinguisse.

“Os jutos são um povo rude, de poucos modos e pensamentos pequenos. Temem apenas seus deuses, tão descorteses e primitivos como eles. Por tal especificidade, estão entre os dois únicos povos de todas as raças que habitam os mundos conhecidos que se aproximam com constância do marco que limita o Oceano.”
Etimologias, vol III: Das gentes
Isidro de Hispalis

 

Lars era letrado. Pelo menos, o era para os padrões do seu povo. Não possuía uma vasta erudição, como os letrados das terras mais ao sul, porém sabia reconhecer os símbolos da escrita e também conseguia dizer o que significavam em três dos idiomas dos povos navegadores. Tal era a sua importância dentro do seu clã que o nomearam líder da principal liga pesqueira, que se aventurava por mares profundos durante meses a fio.

Não era um encargo que deixasse Lars satisfeito. Talvez por ter esse rudimento do saber de outros povos do continente, fosse mais sensível às suas superstições. Não gostava de se aproximar do local do Grande Marco, a imensa pedra que marcava o limite do mar permitido para o seu povo. Além dele, estavam as pontas dos galhos de Ygdrasil, a imensa árvore que sustentava tudo o que existia no mundo dos homens, o separando do Além. Lars também conhecia o nome que os que viviam ao Sul davam a esse lugar, Finisterra. Ouvira histórias sobre criaturas, monstros e perigos que lá habitavam.
Porém, demonstrar esse receio seria uma fraqueza e isso ele não poderia deixar acontecer. Portanto, Lars guardava seus temores para si.

O mar estava estranhamente calmo quando finalmente escolheram um lugar para ancorar e jogar as redes. O Grande Marco estava próximo, decorado com alguns fórmulas antigas que prendiam o que quer que habitasse as águas escuras que se estendiam por detrás dele.

Um de seus comandados apareceu, com uma expressão intrigada.

– Chefe, o Marco está diferente.

– O que aconteceu?

– Surgiram novas marcas… estranhas.

Lars foi para o lado do navio onde poderia ver melhor o Marco. O feiticeiro que os acompanhava tinha se adiantado e observava os símbolos. Endireitou-se quando Lars chegou perto.

– Chefe, não danificaram os símbolos. Apenas colocaram algo por cima.

– É mágico?

– Não, senhor. Não está em nossa escrita. Não posso decifrar, mas não há aura de magia recente.

Prestou atenção nos símbolos. Logo na primeira palavra, descobriu que se tratava da língua dos lusitanos, uma mistura sonora da língua dos latinos com muitas outras. Teve alguma dificuldade para seguir a mensagem que ali estava e quando terminou seu rosto estava pálido e sua expressão distante.

O feiticeiro estranhou.

– Aconteceu algo, chefe?

– Sim, e é grave. Vamos, recolham as redes e as ancôras. Temos que ir em direção à Olissipona. O Imperador lusitano deve ser avisado. Depois, voltaremos para o nosso próprio porto, temos que avisar nosso könig. As criaturas do lado de lá estão vindo… Só me pergunto onde o luso encontrou tinta para escrever aquilo…

– Não é tinta, senhor. É sangue.

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