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Letra e Vídeo

Literatura musical

Tag Archives: Desafio I

A vencedora da primeira edição do Desafio Letra & Vídeo foi a Ludimila Hashimoto, com seu ‘WeWillRockYou’ falando de prostitutas gladiadoras. Ludi, seu prêmio será decidido em breve.

A relação dos autores:

Desafio I.1 – Tibor Moricz

Desafio I.2 – Mariana Gouvin

Desafio I.3 – Carolina Vigna-Marú

Desafio !.4 – Ludimila Hashimoto

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            – Não, o sr. Iglesia é um administrador impecável! Nem parece dono de bordel. Não perdoaria a gente por provocar um fim de carreira tão humilhante.

            – Detesto quando você chama o circo de bordel. Você sabe que detesto.

            – Não importa a produção, a pompa, a forma de pagamento. O que as pessoas fazem aqui é…

            – Sexo.

            – E fazem em troca de…

            – Dinheiro.

            Enquanto tramavam o plano, Tib e Nib estavam louras, bem maquiadas e vestidas de empregada doméstica. Quando conversavam assim, não importava quem dizia o quê. Não eram inconfundíveis nem para si mesmas.

            Isso porque era sexta. Às quartas, usavam chapéu de cowboy, botas e só. Às quintas, a fantasia de gueixa se resumia na maquiagem branca com boquinha vermelha. Aos sábados, abriam a caixa de sugestões dos clientes.

            – O tiro dele vai sair pela culatra – resumiu Nib. Ou Tib.

            – Você vai causar tudo isso – respondeu a outra.

            – O que você queria? Cansei dessa vida.

           

            Uma das duas tinha razão de estar cansada de dar muito e receber muito pouco. De fato, tudo começou quando uma das 14 garotas do sr. Iglesia convenceu duas colegas a pregar uma peça em milhares de clientes, de uma só vez.

            Quando era num quarto luxuosamente gótico numa mansão neo-vitoriana, tudo bem. Quando o filho chapado de Iglesia teve a idéia mefistofélica de colocar esse mesmo quarto, sem as paredes, na arena do anfiteatro, tudo não tão bem.

            Um mês de prostituição coletiva, de intimidades escancaradas a milhares de voyeurs e voyeuses gritando para alguém puxar o lençol, que não pagaram para ver a mesma posição da semana passada, o trabalho das garotas ficou insalubre.

            – Qual a fantasia de hoje?! – perguntou Iglesias nos bastidores.

            – Gladiadoras lolitas.

            – Vai rolar porrada? – ele riu.

            – Só se for na tua cara, com todo respeito, senhor – respondeu Tib, segurando o bastão tridentado que deu apoio a seu comentário precipitado.

            Iglesia foi para o camarote. Ansioso, não suspeitava que o fim das atividades lucrativas aconteceria em rede nacional ao vivo e, em tempo real, na Internet.

            Em vez de executarem o prometido no ingresso, o espetáculo com o vencedor da promoção “No boudoir da garota do mês, ela é sua”, as três gladiadoras douradas, Nib, Tib e Rosalina, apresentaram apenas uma dancinha patética, uma presepada para humilhar o patrão e revoltar a platéia irascível.

            As vaias ecoaram como um trovão entre as estruturas de concreto. Um grupo de nerds desvairados invadiu a arena correndo, reclamando aos berros da falta de veracidade das fantasias. A polícia feminina tomou as dores das putas rebeldes e colocou ordem no tumulto, dando voadoras no peito dos invasores, xingando a platéia e atirando bombas de gás em quem fizesse cara de bobo.

            Em defesa da sua honra profissional, o sr. Iglesia desceu para tentar separar algum dos focos da briga. Ofegante, Iglesia sentiu um tapa na nuca e rolou pelo chão de terra, atracando-se com o estudante de história antiga.

           

            – Não valeu a pena? – disse Tib no banco da delegacia.

            – É. Graças ao representante da torcida organizada, Abutres de Baco. – concordou Nib, cobrindo com um lençol o que não sobrara da fantasia. – Se ele não tivesse registrado queixa, nunca que a gente conseguia largar essa vida.

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A loucura deve ser assim. Parecida, mas sem a dor de cabeça. Nunca mais vou beber. Mentira. Nunca mais vou beber tequila. É, essa acho que consigo cumprir. O mundo todo gira. Cada pulsação do meu coração chega ao cérebro como hooligans enfurecidos. Fecho o olho e posso até ver o coliseu lotado e o meu fígado sendo jogado aos leões. Não, fechar o olho foi um erro. Sinto o gosto da areia na boca, da terra pisada, ensangüentada e mijada por muneras e leões. Era um bom hábito, esse. Sou a favor de jogarmos todos os nossos pitboys aos leões. Assim como todos que agora gritam we will we will rock you no meu estômago, eu torceria pelo leão. Acho que consegui um local estável. Se eu não precisar vomitar, estarei bem. Preciso de glicose. Um refrigerante serve. Qualquer coisa para alimentar a bile que insiste em se fazer presente. Acho que tem uma Pepsi na geladeira. Difícil vai ser chegar até lá com todos estes fariseus berrando no meu ouvido. Tum tum tum parece um show de rock. Não é, é só o meu sangue se esforçando para oxigenar o cérebro. Tequila é uma invenção do demônio, tenho certeza. Não, eu não vou parar com a tequila por causa da ressaca. É da Britney Spears resmungando no meu ouvido de que tenho medo.

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Bateu mais uma vez.

Não era uma ação mecânica simples. Nem era uma atitude fácil. Mas envolvia decisões consolidadas. Uma questão de princípios. Todos sabem que “princípio” é algo extremamente volátil; ao sabor de culturas, histórias ou geografias. Às vezes de acordo com vontades. Todas elas inerentes aos mandatários. Ou mais acima, aos decisórios, se preferirem.

Bateu mais uma vez.

Por definição um executor. Porque era ele que executava. Embora não demandasse mais que ação mecânica, requeria vigor, força e destreza. E uma boa dose de precisão. Erguer e abaixar, erguer e abaixar. Tantas vezes quantas necessárias até que o objeto da agressão se curvasse ao dominador. Ética ou moral não eram assuntos para serem discutidos. Mesmo porque ondulam não muito graciosamente à vontade das leis. Tirânicas? Nada disso. Antes, necessárias.

Bateu mais uma vez.

Tortura era uma palavra forte demais. Antes, correção. Ato de corrigir, consertar as coisas. Procurar um meio de reparar ações anteriores. Claro que o que está feito não tem reparação. Mas e a consciência de milhares de súditos? E aqueles que lotaram a arena e entre apupos escolheram um herói? A consciência de milhares na consciência de um só. Porque o Imperador, o Cesar, Ele, o Magnânimo, Senhor Absoluto, Deus, representava a todos.

Bateu de novo. E bateria mil vezes se necessário.

O indigno era um bandido. Maldito. Filho de um cão que desonrou a arena.

Quem se julgava ao desrespeitar a vontade da platéia? Onde pensava estar? No chiqueiro, lidando com porcos? Aprenderia a lição custasse o que custasse. Aprenderia após tantas batidas quantas necessárias. Até prostrá-lo ao chão. Até fazê-lo ver que não poderia, em nenhuma hipótese, matar um eleito pelo povo. Pois que o herói escolhido era o outro. O grande gladiador núbio.

E o senhor dos porcos ousara desrespeitar a escolha do povo, fincando no nigérrimo gladiador a espada. Fizera jorrar não o sangue de um só, mas o sangue de todos na areia escaldante. Vaias irromperam. Protestos abafaram a voz do Imperador que, impulsionado pela comoção pública, condenou o vencedor a mais uma luta. E com o pior de todos. Com o gladiador mais fraco, mais obtuso que existia. E perderia. Seria vencido, humilhado e morto diante de espectadores vingados.

Mas, antes, as pauladas que o enfraqueceriam a ponto de não conseguir mover as próprias pernas. Bateu novamente. Bateu e bateu. E bateu muito até que o homem tombou trêmulo e sacudido por espasmos. Com dois outros soldados o carregou para fora. Arrastaram-no para o meio da arena. Milhares aplaudiram. O abobado, o tolo, o fraco e macilento oponente, tão subnutrido, tão esquálido que não tinha forças para erguer a própria espada… Mas a ergueu.

E com ela esfacelou o crânio do ímpio.

E ganhou status de gladiador eleito.

Até a próxima contenda… Quando foi honrosamente decapitado.

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O suor escorria salgado pela minha testa fazendo com que meus olhos ardessem. Três dias. Esse foi o tempo que estive aqui amarrada, em pé, pendurada pelos pulsos já machucados e cheios de moscas comedoras de carne. Minhas pernas estão doloridas e sujas dos meus próprios excrementos, acho que no final não passamos disso, merda fedida e grudenta.

Ouvi gritos essa manhã, gritos de alegria, festejam algo que eu desconheço. De seus rostos só tenho um vislumbre, um fragmento de visão quando passam por aquele raio de luz, bem ali a esquerda da entrada para minha cela, bem antes de se aproveitarem do meu corpo, bem antes de colocarem em mim o que nem as mulheres de seu povo desejam.

Bastardos! São todos uns bárbaros, isso sim. E ainda ousam me chamar de tal! Espero que na manhã seguinte a minha morte seus olhos se grudem e suas bocas se calem para sempre.

O dia em que meu povo sacudirá este reino chegará, e quando eu estiver do alto, vendo seu sangue maldito ser derramado, tudo fará sentido.

Eles entram hoje, provavelmente para saciar sua fome de carne, eu já não tenho muita coisa para oferecer. Meu corpo está magro e disforme, minhas entranhas estão largas e machucadas depois de tantos homens diferentes, daqui eles tirarão pouco prazer. Um deles chega bem perto de mim, não me finjo de morta, não admito covardia, levanto a cabeça o máximo que posso e tento calcular a distância de nossos rostos, talvez com uma mordida eu consiga arrancar seu nariz.

Ele segura meu rosto com as mãos e chega seu sexo próximo a minha boca (só uma mordida) ao mesmo tempo que faz que “não” com as mãos. Parece que eles têm outros planos para mim hoje.

Retiram meus pulsos das correntes e com gargalhadas acompanham minha queda ao chão, cara na merda, merda na cara. Bastardos!

Dois deles me levantam e me levam para um outro local com muita luz, luz essa que queima meus olhos, fere a fogo minha cabeça e faz com que eu me encolha de dor, gritos meus só de raiva. Nenhum deles têm pena, sou arrastada e jogada num tonel de água gelada que me lava e me congela, retira as impurezas do meu corpo e me coloca em estado letárgico. Me pergunto para que um banho, para que essa limpeza se eles mesmos nunca se preocuparam com isso antes, me deixando cair em excrementos enquanto gargalhavam.

Retirada com a mesma rudeza com que fui colocada, logo sou besuntada num óleo que realça as poucas formas que ainda tenho e vestida com roupas de guerra, pequenas e inúteis na defesa de qualquer ataque.

Então querem que eu lute? Querem que eu coloque minha espada em defesa de quem? Deles próprios? Logo eu, uma mulher indigna para luta segundo todos eles. Seguro minhas armas mecanicamente e traço meu plano de matar todos os meus compatriotas de batalha. Ajudarei o inimigo, seja ele quem for, ajudarei o inimigo e me banharei no sangue destes malditos!

Ouço gritos, muitos gritos, através de um túnel poeirento e escuro entreouço uma multidão, me largam próximo a um portão, vejo luz, vejo pessoas e vejo ele, sentado, fingindo majestade com suas roupas opulentas. Bato meus pés no chão, mexo meus braços com força, preciso que o sangue circule, preciso de força para matar.

O portão se abre e quando saio de cabeça erguida percebo o que está acontecendo. Eles não querem que eu lute ao seu lado, eles querem que eu lute para sua diversão. Então é essa a sensação de encontrar-se dentro do grande coliseu? Ando de cabeça erguida e vejo mais duas mulheres vindo em direção ao centro. Uma loira como eu, só que mais jovem e outra negra, de cabelos compridos e um tridente na mão, arma que me é muito familiar. Eu as conheço, ficamos juntas durante muitos dias em carroças cheias de gente capturada. Passamos muitas noites conversando sobre nossas batalhas e cantando nossa guerra, uma guerra forte, justa e que um dia colocará por terra todos eles.

Ando até o centro da arena e as encontro. Tenho vontade de gritar com todo ódio, de faze-los escutar, de faze-los sentir toda minha raiva e indignação. Não sou um divertimento e não o sendo nunca me prestarei a esse papel. As mulheres que me cercam parecem compartilhar o mesmo pensamento e quase ao mesmo tempo jogamos nossas armas ao chão.

Todos eles gritam indignados como se fossemos pagos para estar ali, como se tivéssemos a obrigação de os divertir. Batem palmas ritmadas que me lembram tambores de guerra rufando antes da batalha, nos animando, nos encorajando. Olhamos ao redor, ainda continuam a bater palmas e pés, nos embalando para a batalha que tanto querem ver. Fico indignada e me lembro da nossa canção, daquela canção que todos que lutam contra o opressor romano conhecem, levanto meus braços e com toda a força grito o verso base dela:

 

_ Nós os sacudiremos!

 

As palmas servem de fundo e as mulheres que me cercam logo entendem o que quero fazer, entendem que temos que cantar nossas batalhas e morrermos com a nossa honra. Elas dançam e batem palmas, nós sabemos o que fazemos.

 

_ Nós os sacudiremos!

 

A mais jovem toma para si o primeiro verso de nossa batalha:

 

_ Companheiro, você é um garoto que faz um barulhão

Tocando na rua, vai ser um grande homem algum dia.

Você tem lama no seu rosto,

Sua grande desgraça.

Chutando sua lata por todo lugar,

Cantando:

Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

 

A voz dela não é muito boa, tão pouco tem a força de uma batalha, mesmo assim o transe da batalha cai sobre nós. Cantando alto o verso principal, com os punhos levantados, os olhos cheios do ardor do fogo, nossa vida inteira diante de nós, nossa vida inteira diante deles, que sem entender ao menos o significado de tudo aquilo continua com as palmas, como se em transe também.

A negra assume a vez, ela que era um sacerdotisa no seu povo dá a nossa batalha um tom ritual, um tom de culto:

 

_ Companheiro, você é cara jovem, cara difícil

Gritando na rua, vai enfrentar o mundo algum dia.

Você tem sangue no seu rosto,

Sua grande desgraça.

Agitando sua bandeira por todo lugar,

Nós os sacudiremos!

Cante!

Nós os sacudiremos!

 

Sinto-me invadida por um sentimento antigo, elementar e hipnótico. Nós os sacudiremos, por cima de suas ruínas caminharemos e em sua desgraça triunfaremos! É isso! Mesmo aqui, prestes a morrer, está será a última coisa que ouvirão de mim, será a minha profecia. Canto com toda minha alma, minha voz rouca de guerreira ecoando em cada palma, em cada rosto, em cada parede, penetrando e levando minhas palavras como uma maldição para todos eles:

 

_ Companheiro, você é um homem velho, homem pobre

Suplicando com seus olhos vai causar

Alguma paz algum dia.

Você tem lama no seu rosto,

Grande desgraça.

É melhor alguém te colocar de volta no seu lugar.

Nós os sacudiremos!

Cante!

Nós os sacudiremos!

 

Gritei com meu espírito e caminhei até o centro onde nossas armas se encontravam. O povo animado com minha caminhada continuou com as palmas achando que eu estava pronta para lutar. Ainda entoando aqueles versos que prediziam o futuro deste império agora amaldiçoado peguei o tridente, arma que se assemelhava com as minhas tão amadas lanças. Me virei em meio à cantoria e enxerguei somente um homem, somente um alvo: Ele! Minha cabeça me levou até ele e meus deuses me disseram o que fazer, atravessa-lo. Atravessa-lo com nosso poder, mostrar àqueles mortais estúpidos que nossos deuses eram  eternos e enche-los da certeza da ruína.

Corri e enquanto os últimos versos ainda ecoavam, lancei meu tridente na direção de seu peito, ó César, sorria agora! Onde está seu júbilo em meio à tanto sangue? Onde está sua vitória em meio à tanta dor? Será que enxerga meu sorriso agora que desfalece? Será que sente minha vitória em meio ao peso do meu tridente?

 

_Todos!

Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

 

O povo se cala. Emudece. São tomados de um terror único e demoram algum tempo para entender a morte de seu precioso César. Eu me junto às mulheres no centro e deito-me no chão, fecho meus olhos e sei que no futuro esta construção estará em ruínas. Onde meu tridente atingiu não existirá nem parede nem pedra, somente pó rachando pela metade este circo vil.

Ouço gritos, choro e um rugir faminto. O leão está na arena, mas agora ninguém mais se importa com o divertimento da luta. Ainda de olhos fechados cantarolo meus versos da vitória. E com o rosto banhado de lágrimas espero que o leão me devore, pois minha missão está comprida.

 

_ Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

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