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Letra e Vídeo

Literatura musical

Tag Archives: Blackmore’s Night

STREET OF DREAMS       

 Já fomos grandes, você se lembra? E ainda sempre podemos ser se você o quiser. Dormentes caminhos neurais se refazem num intervalo sem tempo quando o real sincronismo acontece.

 Quando te conheci não me deste tempo para respirar. Um respiro que era um sopro de vida desatando as presilhas da alma. Mal os abismos de nossos olhos se espelhavam nas nossas lentes percebêramos a impossibilidade de conflito entre nós.

 Passávamos fulgurando pela via radioativa, pilotando o trem da gravidade. Nossa mentora nos confiara tanto. O que fizemos pra merecer tanta consideração dela? Éramos apenas mais dois soldados da mídia para todo o resto. Percebia ela, mesmo que de soslaio, na tua arfante expectativa antes de cumprirmos o prometido, e com esse a promessa de sonhos cumpridos?

 Você se lembra? Poderia se lembrar ainda de mim? Do como passáramos juntos pelo vau acinzentado do ensimesmamento?

 Estávamos então no limiar de tanta coisa importante, não é mesmo? Fatos lançados no trançado do tempo que desembocavam num daqueles nós das eras. Já não tivéramos nossa cota de mergulhos no oceano das possibilidades que nos fizeram voltar gotejantes de fascínio? E, incônscios das consequências, mesmo os nossos mais talentosos colegas não conseguiam perceber aonde os entrechoques levavam ao bilhar dos eventos. Arqueavam os sobrolhos, quando vislumbravam algo das sutis influências disparadas, mas não de forma tão graciosa quanto os teus arcos capilares quando se costumavam emoldurar tua céptica expressão.

 Os momentos de transição. Sempre soube você aproveitá-los tão bem, tão melhor que eu. Só precisávamos galvanizar o interesse de todos estudantes ali reunidos, por acaso os melhores no que faziam. Foi mais fácil para você do que para mim. A moda que lançamos estava mais do que enraizada e agora era a oportunidade de criarmos os caminhos novos. As ondas em interferência construtiva das mentes conectadas mas não subordinadas. Só os mais intrépidos poderiam te acompanhar. Outros preparariam a logística e o envultamento das intenções perante o vulgo.

 Nossa tampinha-chefe não precisava nem ordenar o próximo passo. Sabíamos bem o que fazer. Quando liberamos a visão dos nossos olhos de arco-íris sobre a audiência, ao descerrarmos as pálpebras não mais ocultas pelas convexas e quase-opacas lentes que usávamos, já há muito eles estavam convencidos pelos harmônicos naturais de tua voz. Voz em ondas que lambiam as fronteiras dos cuidados de defesa do ego. As palavras certeiras para os que não viam sentido algum somente numa simples vida autoperpetuante. E ao mesmo tempo, a imortalidade da eterna expansão prometida aos que não viam graça alguma nas tentativas de auto-superação ou nas agridoces frustrações que as amarras coletivas nos proporcionavam desde a vida unicelular.

 Porque você não ficou aqui – conosco – na missão de reconstrução dos cacos dos vasos partidos, das vidas separadas e não unidas, do refazer dos caminhos traçados nos domínios dos sonhos que se sonham juntos? Porque teve você que se dar o luxo do último mergulho na incerteza?

 A dissolução da personalidade não deixaria nunca mais as curvas de teu corpo se enrijecerem atrás do vítreo esquife em que teu veículo corpóreo foi depositado. Mas quando você voltaria a afagar os nós de meus dedos de novo com a tepidez única de teu toque? Quando você nos comunicaria, com teu humor sempre borbulhante o que percebera no emaranhamento com as consciências ancoradas em mares não aquosos sob céus de matizes não figurados?

 Volte para a vida isolada, eu te peço. Volte para a vida das impossibilidades da separação. Volte para mim, e para “o mim mesmo”, mesmo que este seja agora tenha passado a ser para você só um hábito esquecido de auto-limitação…Eu sinto nas minhas circunvoluções que ainda podemos voltar a ser dois em um e não apenas o sonho de um em muitos.

 E, então, vamos explorar o que as nossas limitações têm a oferecer.

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