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Letra e Vídeo

Literatura musical

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And when nobody is nigh, you cry,

You cry, you cry.” ( Sophisticated Lady )

 
 

 
 

Quando Billie ficava absurdamente triste se agarrava aos baseados.

Nós todos fumamos, em épocas diferentes, junto com os dry martinis  de Marina, ou  as cervejas de Mimi. Eu me embebedava de vinho barato e me via, a música soluçando de beleza.

Billie preferia o uísque paraguaio.  E quando estava absurdamente triste se apegava aos baseados e tocava Sophisticated Lady para Marina.

Ela não entendia a homenagem. Nunca considerou a hipótese de  dar a ele um pequeno pedaço de seu corpo alvo. Marina estava nos Cigarette Blues  até surgir o empresário que iria tira-la do anonimato das nossas estradas rotas.

Com seus cabelos dourados e olhos azuis, fazia uivar os rudes caminhoneiros, mas nunca percebeu sua presença. Era como uma estrela, distante, abstrata, intocada por toda aquela sordidez.

Billie percebia isto e às vezes ficava absurdamente triste e fumava mais baseados do que o normal.

Uma noite, em São Tomé da Serra, depois de um  espetáculo lancinante de guitarra –  Sophisticated Lady para Marina –  antes dos banheiros e do café, encontrei Billie no camarim, rosto vermelho, olhar brilhante, vago. Tive certeza

– Você anda cheirando?

Ele me olhou irritado, não respondeu.

– Vi o Mejicano com você, no intervalo…

–  Deixa de ser babaca, falou? Cuida da droga da sua vida!…

Eu fiquei calada. Porra, não era da minha conta, era? Que se danassem, ele, Marina, Mimi e toda a população desta merda de Terra redonda.

Nunca mais toquei no assunto.

Éramos cometas em cada uma daquelas cidades escondidas, retornando um pouco mais velhos, mais gastos, mais amargos, derramando nosso sangue blues pelos tristes bares das periferias decadentes. Como as cortinas gastas e os falsos cristais do lustre – um cenário ultrapassado.

A polícia pegou Billie numa batida idiota – Colette, o travesti velho, deu uma navalhada em Luigi,  seu amante jovem. O sangue e a gritaria histérica atraíram a atenção dos Homens. Eles deram uma vistoria nos camarins e acharam o pó.

Fui visitar Billie na cadeia.

Abatido, os cabelos despenteados, cheiro de urina e um sabor de coração sujo.

Tivemos que improvisar um show sem guitarra, num barzinho em frente á funerária.  Só com o piano de Marina que se acompanhava todas as noites cantando Sophisticated Lady. Sabe-se lá porque. Marina era estranha. Mas tinha uma voz linda, um  timbre aveludado ,às vezes rouco, uma alma de blueseira.

Os participantes dos velórios gostavam dos blues lancinantes, da beleza de Marina ou da bunda de Mimi. O fato é que tínhamos casa cheia todas as noites.

Enquanto Billie aguardava julgamento, cantamos para acompanhantes de defuntos, nós, mais mortos do que eles,  em nossos caixões de luzes azuis.

Um dia não agüentei, fui ao delegado e abri meu coração. Falei da estrada empoeirada, dos sanduíches frios, dos clientes sem paciência e sem educação, dos ouvidos duros, dos assentos  nos ônibus arrebentados, das noites mal-dormidas, de toda a humilhação… um blues interminável e dolorido. 

O Homem entendeu, talvez, não sei. Soltou Billie na sexta-feira, de surpresa.

Ele apareceu no meio da noite. Marina cantava Sophisticated Lady.

Ficou ali, parado, ouvindo – nós no backing vocal, meu coração na boca, morrendo. E a música quase doentia de Marina, linda, longínqua.

Billie apanhou a guitarra e acompanhou. O blues subia pelos seios dela ,tocava os cabelos, dava para sentir o cheiro da paixão. Um gemido de cão abandonado, dolorido, sinuoso. A voz dela acompanhava rouca, estranha, apartada, indecifrável.

Eu olhava para Billie ali, envelhecido, ouvia o lamento da guitarra, a voz dela ecoando e então eu soube que era amor o que sentia.

Esfrangalhado, encardido, esgarçado, roto, amarfanhado, mas amor.

Me suicidei nesta noite com dez tequilas, três dry martinis e cerveja.

Fui enterrada em mim sem choro ou velas. 

 
 

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Dia 30 de maio será a ressurreição do Letra & Vídeo. Esperem por grandes novidades.;)

Anunciem, divulguem, mandem seus textos.

Sugestões serão benvindas, textos muito mais. Para saber como participar, veja aqui

fabrica_dos_sonhos

O L&V é uma iniciativa apoiada pela Fábrica dos Sonhos

A internet é cheia de ‘memes’, coisas que passam e você participa e repassa e outra pessoa participa e re-repassa e… bem, deu pra entender.:)

O Jacques, meu co-editor e parceiro do Fábio no Pos-Weird Thoughts, me passou esse meme. E como foi o próprio Fábio, nosso co-editor, que lhe passou o encargo, sobrou pra mim!

Pegue o livro mais próximo, abra na página 123 e copie a 5a linha.

E como acabei The Scar do China Mieville por esses dias, foi ele o escolhido do destino:

“Even when I’m uptown, you know?”

Proooooooonto. E continuando, vamos mandar pra uma colaboradora do blog, a Ludimila e sua Argamassa Gorda

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UM POUCO DE TUDO 

Tudo poderia ser mais simples, mas nem tudo na vida é como planejamos.  

Tudo o que ela queria ser era uma garota normal. Mas ela tinha a capacidade. Ela tinha a oportunidade. E por isso mesmo, não poderia fugir dela. Pílulas. Ela tinha que tomar suplementos vitamínicos. Ter uma dieta balanceada. Uma pele só músculo. Alcançar a energia que flui no interior de todos os seres humanos, mas que permanece adormecida pela rotina do dia a dia, pela comodidade, pela preguiça.  

Tudo o que ela sabia que teria que contar com técnicas especiais de combate. Sangrou sua alma para poder atingir os níveis de força necessário. Chakra. Ki. Essência. Não pergunte, porque não faz diferença. A energia existe em todos, mas só seus mestres poderiam atingi-la em seu potencial. O mestre Chop Suey era capaz de dar um soco em pleno ar cuja vibração parecia distorcer a visão que temos ao redor, da mesma forma que um asfalto quente demais por causa do sol pode deformar a imagem, trêmula. E de repente, com esses socos, o oponente poderia ser atingido à distância. O fluxo de energia. Tempo e espaço são um só. Ela tinha quatorze anos. Não podia entender.  

Tudo o que ela queria era ser uma… não, ela não poderia repetir isso para si mesma novamente. Não naquele momento. Sabia porque os mestres não abandonavam os seus templos para desafiar os invasores, mesmo que a própria humanidade estivesse em risco. Eles se enclausuravam a partir de certo momento de sua evolução para poder atingir esses níveis mais altos de técnica. Sabiam o que a humanidade faria com esse conhecimento sacro em mãos. Não. Escolheram uma eleita fora das regras e que jamais deveria repassá-las em vida. A treinaram sem jamais torná-la um deles. Seu conhecimento poderia destruí-la. Era necessário, desde a chegada dos robôs. Os monges escolheram uma menina normal para essa nova missão e ambos os lados teriam que pagar o preço.  

Tudo o que ela vivia era culpa deles. Robôs. O que eram os robôs que ela teria que enfrentar? Aliens que por viverem prolongadamente no espaço, perderam massa e sua própria evolução os tornou dependente da tecnologia que eles próprios manipulavam. Ela não entendia. O que faz um ser inteligente? Proporção entre massa cerebral e massa física, um órgão manipulativo para que eles possam moldar o mundo com sua inteligência… o que fazer quando a evolução os tornou um eremita-paguro do espaço, precisando trocar de corpos, comandando máquinas com suas mentes? Por que eles precisavam da Terra? E por que a sobrevivência se tornou um espetáculo? 

Tudo o que ela fazia era vigiado. Olhos por todos os lados. Câmeras. Repórteres. Curiosos. “A última esperança da Terra”, como dizia a mídia. Um torneio aonde ela teria que desafiar os aliens e a derrota significaria a dominação. Desapegados da carne, uma massa nervosa que à medida em que crescia trocava de armadura para se tornar uma armadura mais forte e mais poderosa. E foram crescendo mais e mais. Quanto mais fortes suas mentes se tornavam, mais poderosos eram os corpos que eles arranjavam para si. Chamem de telepatia. Chamem do que quiser. Interface mente e máquina em estado puro. As armaduras eram o seu corpo. Isso era o sufuciente.  

Tudo o que ela pôde aprender estava em suas mãos. Ela estava preparada. Uma arena cujo ingresso era astronomicamente caro. Milionários desprovidos de sua compostura eram a seleta platéia do show que se desenharia à sua frente. Urravam, saltavam e gritavam com intensidade. Hooligans de luxo, querendo ver a destruição à sua frente.  

Tudo o que ela sentia pela humanidade era desprezo e raiva.  

Tudo seria mais simples se ela os deixasse morrer.  

Tudo o que ela tinha que fazer para reconquistar a humanidade era simples: mandar os malditos robôs a sua frente para o inferno. Ela sabia que estava lá para matá-los da mesma forma que eles estavam lá para matá-la. Que fosse. Era um preço pequeno para voltar a ser uma garota normal. Ela tinha a capacidade. Ela tinha a oportunidade. E por isso mesmo, não poderia fugir dela. Quinze minutos de fama mundial. E depois, ela voltaria a comer besteiras. Arranjaria um namorado. E as câmeras se voltariam novamente para a cantora loura que faz escândalos na televisão ou para o atleta que foi pego em doping. É assim que o mundo funciona.  

Tudo começará em um minuto. Ela mal pode esperar para vencer e se livrar de uma vez de todos os olhos que vigiam sua vida. A energia dentro dela parecia queimar com essa expectativa.  

Tudo na vida é simples quando pode ser resolvido na base da porrada.