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Letra e Vídeo

Literatura musical

Category Archives: Conto

:::Canções e uivos:::

Nas terras desertas ao norte de Aldrã, chovia torrencialmente há dias. Drielle estava encharcada, roupas, cabelos, até a sua alma parecia estar grudada sobre a pele. De nada adiantou o grosso tecido de sua capa, ou uma magia simples, invocando um escudo contra as grossas gotas que desabavam do céu.

O pequeno abrigo de viajantes surgiu e uma metáfora um tanto inadequada apareceu na mente da meio-elfa. “Como um oásis no meio de um deserto”. Riu de sua própria comparação e passou o quarto de hora seguinte convencendo o cavalo a tomar a direção certa.

Exausta, ensopada e dolorida, deixou o animal na pequena construção adequada para isso. Outros já estavam ali, parecendo igualmente cansados. Sinal de que havia outros viandantes no abrigo. Mais dois, para ser exata. Apesar de todos os seus poderes, treinamento e da aura de respeito que a herança élfica impunha, não gostou. Uma mulher sozinha, mesmo uma mercenária, hábil com adagas e encantamentos, ainda era vulnerável aos desejos de homens inescrupulosos. A chuva não lhe dava alternativa. Resignou-se e entrou no abrigo.

O calor do fogo misturava-se ao cheiro da madeira queimando, dando uma sensação de conforto. Drielle suspirou, com alívio, por sentir-se finalmente fora do manto de umidade que havia virado o mundo. Parou e observou o interior.

Era um abrigo de estrada como outro qualquer. Um espaço amplo, sem divisões, uma lareira grande o suficiente para aquecer toda a área, alguns cobertores, lenha empilhada em um canto e uma bacia com água forneciam o mínimo de conforto a quem procurasse refúgio na rota entre Aldrã e os reinos do Norte. Caminho que Drielle pouco percorria, a não ser em ocasiões especiais. Como esta, para participar de uma reunião de menestreis em Satúrnia, um concurso amistoso que servia mais para compartilhar as histórias e canções do que realmente para competir.

Observou seus companheiros. Sentado em um canto, olhos semi-cerrados, um homem bem vestido parecia refletir sobre algo. Não demonstrou ter percebido a entrada de Drielle no recinto. Mesmo assim, a meio-elfa ficou cismada com ele.

O outro ocupante do abrigo era um jovem, muito mal vestido. Virou-se para ela com olhos ansiosos, debaixo de sobrancelhas grossas. A barba cerrada e uma ferida no braço esquerdo davam ao jovem uma aparência de maltrapilho, que, paradoxalmente, não incomodava Drielle tanto quanto a riqueza exibida do outro. Sorriu, sendo respondida de forma igual.

Em silêncio, pois esta é a lei não escrita dos abrigos de viajantes, encaminhou-se para um dos cantos, o mais na sombra possível. Lá, estendeu uma coberta que a separou do resto do ambiente. Não poderia ficar com aquela roupa encharcada no corpo, porém não confiava o suficiente no respeito às normas de comportamento que obrigavam todos os viajantes a se irmanarem quando dentro desses refúgios antigos.

Lentamente, procurando fazer o menos barulho possível, despiu as peças encharcadas e trocou-as por uma túnica e uma saia, algo rústicas. Normalmente, não usaria trajes tão simples na presença de estranhos. A alternativa era usar as ricas vestimentas que mandara fazer para a reunião, por isso deixara a vaidade de lado. Colocou as roupas para secar perto do fogo, e começou a preparar, com as suas provisões, uma sopa improvisada. Ofereceu aos seus companheiros. O homem mais velho sequer respondeu, enquanto o jovem aceitou, com um assentimento de cabeça.

Comeram sem dizer palavra. Os olhos negros continuavam a fitar a meio-elfa com ansiedade. Drielle estava curiosa, mas não se sentia a vontade para perguntar qualquer coisa. No fim da refeição, guardou tudo e deitou-se. Se a chuva diminuísse, iria seguir seu caminho imediatamente. Algo naquele abrigo deixava-a desconfortável.

O frio de uma lâmina em sua pele acordou-a. O homem mais velho encostava uma faca em seu peito, começando a rasgar a túnica coma lâmina. Ela tinha que pensar rápido, suas adagas estavam embaixo de sua manta, mas um movimento brusco poderia ser o fim.

Não teve tempo para pensar. Um rosnado, primeiro baixo, mas que aumentou aos poucos. Sem entender nada, o atacante olhou ao seu redor. Uma bola de pêlos e fúria arremeteu contra a sua garganta. Enquanto o animal engalfinhava-se com o agressor, Drielle pegou as adagas.

Em pé, contemplou a cena a sua frente. Era uma espécie de lobo, preto, muito maior que qualquer um que ela já tivesse visto. Ergueu as duas lâminas gêmeas e ficou parada, aguardando o resultado.

Qualquer um que ganhasse, ela teria que ficar atenta. Não sabia exatamente de que lado o animal estava. Podia não ser o dela. Não durou muito. O bandido lutara bem, entretanto era seu o sangue que estava espalhado no chão. O lobo ofegava, ferido em diversos pontos. Mas ainda era muito maior do que Drielle. Ela preparou-se, adagas empunhadas, um ricto de concentração nos lábios.

Com um gemido triste, o lobo aproximou-se dela. Passo a passo, como se custasse muito. E desabou aos seus pés. Uma ferida na pata dianteira esquerda esclareceu tudo. O seu salvador era um licantropo, o rapaz maltrapilho com quem dividira a sopa era do antigo povo esquecido, que dominava a arte da transmutação.

Perante os olhos admirados de Drielle, o pêlo sumiu, patas viraram pernas e braços, garras tornaram-se unhas. Os ferimentos permaneceram sangrando profusamente. Depois de tirar o corpo do bandido do meio do refúgio, jogando-o em um canto, passou a cuidar de seu ‘salvador’. Parte de si reclamava. Não havia pedido ajuda, podia ter se defendido sozinha.

Mas sabia que o rapaz havia feito o que julgara ser necessário. Passou os três dias seguintes ouvindo os ruídos da tempestade que não amainava e tratando do desconhecido. Era bonito, a seu modo. Não era beleza elfica, de traços finos e delicados, e nem mesmo parecia com os humanos de Aldrã. Uma face marcante, nariz bem construído, boca delineada e sobrancelhas grossas, os traços levemente arredondados. Uma barba rala cobria a parte inferior do maxilar, sendo mais espessa no queixo. Drielle olhava-o absorta, perguntando-se quem seria, de onde viria e qual era o seu destino.

Na manhã do quarto dia, ele despertou sobressaltado. Drielle estava adormecida, ao lado da cama improvisada. Os dias de vigília finalmente cobraram seu preço, e a meio-elfa, encolhida debaixo de sua manta, ressonava levemente. Observou-a por algum tempo, acompanhando com os olhos os traços finos da meio-elfa, as orelhas levemente pontudas, e o cabelo fino, de um rosa muito pálido. Como se sentisse o peso daquele olhar, ela acordou.

– Você salvou minha vida, moça.

– Mas você tentou salvar a minha antes. Meu nome é Drielle. O seu?

Ele hesitou antes de responder.

– Você pode me chamar de…Mark. Você é…a Drielle de Aldrã?

– Sim, sou eu.

O olhar dele alterou-se. Da quase ternura de antes, passou a ser de reverência. A meio-elfa olhou para cima e suspirou. Por todos os caminhos, as suas desventuras espalhavam-se como atos heróicos e de bravura. Nada disso era verdade. Em grande parte das vezes, o Destino fora favorável. Pouco ela tinha de coragem ou heroísmo. Sempre fora uma trovadora mercenária, isso não mudara, e jamais iria mudar.

– Estou indo à cidade de Satúria. Vai ter uma…

– Reunião de menestréis. Eu sei. De certa forma, eu também sou um trovador… O meu povo expulsou-me de nossas terras, até que eu aprenda o real significado de ser aquele que canta nossas vidas. Por isso, eu também estou indo para lá.

Ficou implícito que iriam juntos. A tempestade passou em mais um dia, e puderam colocar-se a caminho. A viagem até a velha cidade foi tranqüila. A meio elfa aprendeu algo sobre seu companheiro e sua gente. Os licantropos haviam vivido entre as demais raças por muitos anos. Porém, quando o Mal surgiu no mundo, muitas gerações atrás, eles preferiram afastar-se e não entrar na Grande Guerra. Quando tudo finalmente acabou, todos os que cerraram fileiras contra o Senhor do Caos decidiram banir os lupinos de sua convivência. Desde então, passaram a viver escondidos, sem contato com os humanos. Quando por algum motivo precisavam entrar em contato com os demais, faziam disfarçados em sua forma humana. Como Mark estava fazendo até ter interferido no ataque que Drielle sofrera. Ela escutou atentamente enquanto ele descrevia a vida na aldeia de onde viera. Um lugar como outro qualquer nas imensas áreas rurais de Aldrã e cercanias, exceto por serem lobos que assumiam forma humana.

O companheirismo cresceu entre os dois. Planejaram continuar juntos, após o festival, até que Mark encontrasse a resposta que precisava. Olhavam as estrelas a noite, Drielle lhe dizia o nome de cada uma e a história por trás desse nome. Uma noite, ele pediu que ela cantasse uma história sobre suas aventuras. Drielle recusou.

– O bardo é o narrador dos outros. Nós não somos importantes, nossas canções que são.

– Mas você…

– Também sou mercenária, e é sobre isso que as canções foram feitas por outros. Eu, porém, não devo jamais contar a minha própria história.

Mark não aceitou.

– Se você viveu tantas coisas maravilhosas, deveria ter orgulho de contá-las por aí…

Sorrindo, ela simplesmente respondeu.

– Um dia você verá, lobinho. Agora, vamos dormir que amanhã chegaremos em Satúria.

Satúria fervilhava. Drielle conhecia a cidade, governada pelo pai de um grande amigo e ex-amante. Jaelle, sua filha com Diron, era criada no castelo, para que pudesse um dia suceder no trono saturiano. Contou por alto para Mark a história de sua amizade com o príncipe, e de algumas aventuras que tiveram juntos. O licantropo ouvia, fascinado com a vida da jovem mercenária.

O encontro dos trovadores seria no dia seguinte. Drielle tinha planejado chegar com alguma antecedência para poder visitar sua filha. Teria de deixar para depois. Hospedaram-se em uma taberna, onde encontraram mais alguns cantores já hospedados. Entre eles…

– Gilmour, seu cantor de quadrinhas infantis! Eu achei que este fosse uma reunião de menestréis sérios. Já vi que deixam qualquer um entrar…

– Olha quem fala, a rainha das rimas pobres e da falta de métrica. E com essa voz de pavão, ainda tem coragem de se intitular ‘Moonvoice’. Muita falta de autocrítica!

Mark olhava espantado de um para outro, tentando entender a troca de ofensas. Quando ele esperava que os dois começassem a brigar sério, ouviu risadas divertidas.

– Achei que você fosse ficar em Aldrã, seu farsante.

– E perder a festa? Nunca. Deixei Gilles cuidando de tudo, e vim para cá. Cheguei faz alguns dias. Inclusive visitei a sua menina, que está linda. Nem parece sua filha…

Drielle deu de ombros.

– Tentei chegar antes, mas a chuva não deixou. Este é Mark, um amigo que encontrei no caminho.

Gilmour esquadrinhou o rapaz, sorrindo.

– Huuuuuuum. Belo amigo, orelhuda. Será que ele quer ser meu amigo, também?

Drielle deu um empurrão no bardo.

– Sem gracinhas, Gilmour. Deixe-o em paz. Tenho que procurar quartos para nós…

Deixou Gilmour e Mark sentados a uma mesa, bebendo e comendo. Foi providenciar alojamentos e provisões, para que pudessem passar a semana tranqüilos. Demorou um pouco, negociando preços. Mas tudo foi finalmente resolvido. Quando voltou para a taberna, um anão estava sentado com os seus dois amigos. Parecia mostrar algo, embrulhado em um pano sujo.

A meio-elfa aproximou-se.

– O que está acontecendo aqui?

– Minha querida, deixe de ser tão nervosa. Este vendedor está apenas nos mostrando um produto inimaginável. Não é, Mark? Um instrumento musical encantado, que revela a verdadeira missão daquele que o tocar.

– Gilmour, o menino acreditar nisso, tudo bem. Porém, você sabe que esse cara é um charlatão. Não existe tal magia. Vamos, está tarde e amanhã começa.

O anão mostrou-se indignado com a acusação de Drielle.

– Senhora, eu não sou um enganador, minhas mercadorias são mágicas, construídas pelos arcanos superiores da Escola de Artes Arcanas e Línguas Místicas de Asgardiel.  Somente alguém de sangue ruim, de origem elfica, poderia acusar um anão de ser mentiroso.

Sem paciência para as lamentação do pequeno ser, Drielle sacou uma de suas adagas e encostou-a no pescoço do anão.

– Escuta aqui, infame, eu não tenho motivo para escutar seus resmungos. Tenho vários para cortar sua garganta fora. Portanto, não provoque.

Sem responder mais nada, o vendedor ultrajado recolheu tudo e afastou-se da mesa. Drielle imediatamente o esqueceu, passando a conversar com Gilmour sobre a programação do dia seguinte, quando um grande festival iria dar início à reunião. Não reparou que seu outro companheiro de mesa seguira com os olhos o mercador, tampouco percebeu quando o anão desonesto indicou ao licantropo onde estaria durante a noite.

Gilmour bateu desesperado na porta dela, gritando.

– Dri, abre isso, anda! Acorda! Ele sumiu.

Sonolenta, mesmo assim ela conseguiu levantar e abrir a porta. O bardo estava semi-despido e desgrenhado, parecendo estar assustado.

– O que houve? Quem sumiu? O que está acontecendo?

– O menino, seu amigo, ele sumiu! Fui ao quarto dele e…

– O que você foi fazer lá, a essa hora da madrugada?

Gilmour parou e pensou por alguns instantes.

– Fui ver se ele precisava de algo, pobrezinho, parecia tão perdido…

– Gilmour, seu pervertido, eu falei…

Mudando o rumo da conversa, ele interrompeu-a.

– Ei, o que importa agora é que ele não estava lá! Ele sumiu… Eu não faço…

– O anão!

Gilmour fez cara de desgosto.

– Ai, sério que ele é ligado nessas coisas interraciais? Quer dizer, com elfos tudo bem, mas…

– Pervertido! Você não consegue pensar em outra coisa? Ele quer o instrumento mágico que o anão mostrou. Ele acredita que com aquilo poderá voltar para o seu próprio povo.

– Povo? – o menestrel fez cara de quem não tinha entendido nada.

– Sim, ele não é humano, é licantropo.

A cara de desgosto de Gilmour virou uma careta de nojo. Drielle perguntou.

– O que foi agora?

– Que bom que você me avisou, ele deve ser cheio de pêlos, é horrível para…

– Gilmour, por favor, prive-me dos detalhes sórdidos, sim? Vamos, temos que encontrá-lo.

– Pensando bem, eu acho que vou dormir…

Sem responder, a meio-elfa jogou uma capa em cima dele.

– Não quero saber, vamos.

Do lado de fora da taberna, ouviram vozes sussurradas. Mark negociava o preço com o anão. Não pareciam estar chegando a um acordo, e a voz do vendedor começou a alterar-se.

– Pouco me importa se você precisa ou não. Não vou abaixar o preço para você.

– Não tenho como pagar…

– Podemos fazer um trato. Você me traz a mestiça, e eu te entrego o alaúde.

Na mesma hora, o pescoço do anão estava nas garras do lupino. Mark, enraivecido, estava deixando o disfarce de lado.

– Não toque em um fio de cabelo da moça… – a voz saia entremeada de pequenos grunhidos. Prevendo o pior, Drielle resolveu interferir. Se Mark matasse o anão, sua natureza seria descoberta. Não sabia como as pessoas reagiriam a ele, e preferia não conhecer da pior forma.

– Mark, pare com isso. Solte-o.

O anão bateu no chão com força. Olhou com raiva de Drielle para o lobisomem.

– Eu só estava negociando honestamente…

Foi interrompido por um gesto.

– Eu sei. Quanto é?

– Você… vai comprar? – recuperado da surpresa, voltou a ser o velho mercador. Deu um preço absurdamente mais alto do que havia dito a Mark. Para compensar o aborrecimento, segundo ele mesmo disse. Com algum tempo de negociação, ela trouxe o preço a um patamar aceitável. O alaúde passou às suas mãos.

Virou-se para Mark.

– Toque. Quem sabe, você irá descobrir a verdade.

Gilmour resmungou alguma coisa sobre estar frio, e ele querer entrar. Foi ignorado por todos. Drielle mantinha o anão na mira de sua adaga. Mark sentou-se com o alaúde no colo, e começou a tocar uma canção triste. Quando começou a cantar, não usou palavras. Uivou baixinho, e mesmo sem entender o sentido literal, sua pequena audiência sentiu a tristeza que emanava.  Terminou, olhando surpreso para a meio-elfa.

– Ele me enganou. Não aprendi nada…

Ela deu um sorriso, um pouco triste.

– Eu disse que não existia essa magia. Na verdade, o verdadeiro bardo conhece a sua missão ao tocar qualquer instrumento. Vamos, amanhã será um longo dia.

Os três retornaram aos seus quartos.

A balbúrdia do dia anterior não era nada comparada ao barulho e a animação daquela manhã límpida. Parecia que a cidade estava toda esperando pelo começo da reunião. Drielle, Gilmour e Mark dirigiram-se à grande praça da cidade. O velho rei de Satúrnia estava lá, acompanhado pelo filho e pela neta. Ao verem Drielle, os integrantes da família real convidaram-na para subir no grande palco armado no centro. Relutante, ela aceitou. Abraçou a filha e sentou-se ao lado dela. O rei sussurrou alguma coisa no ouvido de seu chefe de cerimônias, que concordou com um sorriso. Foi até o meio do palco e anunciou.

– Caros senhores trovadores, sua majestade, o rei de Satúria, agradece em nome de toda a cidade por sua presença. Para começar o festival dos trovadores, pediremos que a mais conhecida menestrel de todos os reinos dirija-se ao palco para nos apresentar uma canção. A trovadora oficial do reino de Aldrã, a menestrel mercenária, rainha das adagas gêmeas, Drielle Moonvoice.

Ela já estava esperando por isso. Afinal, o pai de Diron nunca a aceitara bem, exceto como música. Levantou, pegou seu alaúde e foi em direção dos outros músicos. Combinou o tom com eles.

– Agradeço as palavras gentis. Não estava preparada para essa responsabilidade, mas uma honra dessas não se recusa. Então, aí vai uma composição que fiz recentemente, falando sobre o que é ser um menestrel. – Olhou sorrindo para Mark. A mensagem era para ele.

Agora, vocês conhecerão
Os bardos e suas canções.
Quando as horas passarem
Fecharei meus olhos.
Em um tempo  distante
Nós iremos nos encontrar novamente.
Mas agora ouçam minha canção
Sobre a aurora da noite.
Vamos cantar a canção do bardo:
O amanhã nos levará
Longe do lar
Ninguém jamais lembrará nosso nome
Mas as canções do bardo conhecerão
O amanhã o levará
O medo de hoje
Desaparecerá
Em nossas cançõess
Há apenas um refrão
Que resta em minha alma
Contos de homens corajosos
Que viveram longe daqui
Agora as canções do bardo terminaram
E é hora de partir
Ninguém deve perguntar
Pelo nome daquele
Que conta a história.
O amanhã nos levará
Longe do lar
Ninguém jamais saberá o nosso nome
Mas as canções do bardo ficarão
Amanhã tudo terá terminado
E você não estará sozinho
Portanto não fique com medo no escuro e no frio
Porque as canções do bardo permanecerão

Mark sorria, do meio da multidão. Mais tarde, na noite que seguira, Drielle perguntou se agora ele conhecia o que era o dever de um trovador. A resposta foi um sorriso quente, um abraço apertado… Drielle perguntou se ele agora iria voltar para os seus. A resposta foi a boca dele encontrando a sua, e logo depois a voz sussurrando em seu ouvido “Só se não puder ficar com você.”

Meses depois, sentada na sua taberna preferida em Aldrã, Drielle terminou de contar toda a história para Gilles. Fitou o copo da cerveja amarga a sua frente, evitando o olhar preciso do elfo seu amigo, também trovador, e amante de Gilmour.

– E ele, Dri?

Tentando parecer indiferente, ela tirou uma mecha de cabelo dos olhos e sorriu.

– Mark andou comigo por um tempo. Por isso, não voltei direto para Aldrã. Mas ele não pertence ao mundo em que ando. Nossos caminhos encontraram-se por um momento. E foi só. Ele encontrou o que procurava e juntou-se ao seu povo novamente.

– Você parece lamentar…

Não houve resposta. Apenas o mesmo sorriso congelado de antes. Somente ela sabia o quanto custara seguir em frente. E de certa forma, assim como sabia que em suas músicas haveria a partir de então um pouco do uivo de um lobo, tinha certeza de que, em algum lugar, um lobo choraria para a lua no mesmo tom de suas canções.

Fim

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As Canções de Papel Machê

Eu consegui minha primeira guitarra no verão de 1969. Para isso passei um ano inteiro guardando o dinheiro ganho ajudando meu pai na mercearia. Empacotei milhares de dúzias de ovos, ensaquei compras para todas as senhoras de perfume enjoativo da vizinhança, esfreguei o chão até ele ficar brilhando. E valeu a pena.

A primeira semana de férias, passei trancado no meu quarto. Eu e a guitarra. Toquei até meus dedos sangrarem e criarem calos. Quando achei que dava para enganar, dei o passo seguinte: criar uma banda. Eu na guitarra, João, meu melhor amigo, no baixo e a irmã dele na bateria. Judite era mais velha, mas apoiou o projeto desde o início.

Só faltava uma voz. Precisávamos de alguém para cantar, e Dite trouxe Clarice para minha vida. Desde a primeira vez que a vi, no primeiro ensaio sério de nossa banda, seu olhos doces no rosto calmo e o sorriso sereno ficaram marcados na minha memória.

Ali começara a carreira efêmera do “Papel Machê”, nome sugerido pela própria Clarice. Sabia que não duraríamos muito, mesmo assim foram os melhores dias de minha vida. Os bailinhos de sábado do quarteirão eram animados por nós com versões dos grandes sucessos da época. A voz de Clarice adoçava tudo, e viver valia a pena. Toda a tarde, tocávamos na sorveteria do bairro. Nosso pagamento era a banana split especial, que podia ser dividida com folga pelos quatro. E vez por outra, uma festa não renumerada de algum amigo.

Claro, algumas confusões aconteceram. Na festa de aniversário da minha prima, um amigo dela fez um convite para a nossa baterista. Ele não sabia que Mario, o namorado gigantesco da Dite, também estava presente. A briga generalizou-se, João quebrou o nariz e Judite três unhas, mas os instrumentos não sofreram nada.

No fim do verão, demos nosso último show. Dite iria casar-se e depois da confusão, Mario havia se tornado contrário à participação dela na banda. João e eu, ambos fazendo dezoito anos, iamos prestar serviço militar. Depois do final do baile, nos despedimos, prometendo uma reunião da banda em breve. Os dois irmãos foram para casa, enquanto eu acompanhei Clarice, que morava mais perto de mim. Os sentimentos entalados na garganta, por meses a fio, pareciam sentir o fim da estação. Queriam irromper, aproveitar os últimos dias de calor, antes que tudo terminasse.

Não consegui. Andávamos lado a lado, como fizéramos tantas vezes naquele verão. Discutimos sobre tudo o que não era importante. Lembramos os shows, as confusões, as brigas de João e Dite por qualquer bobagem…

Paramos em frente à casa dela e continuamos a conversa, encostados no Porshe da mãe de Clarice.

Ela fitava as estrelas, que pareciam reluzir no seu olhar Evitava virar o rosto para mim enquanto falava. De repente, após um súbito silêncio, ela suspirou e olhou para mim.

– Sabe porque eu sugeri o nome “Papel Maché”?

– Eu nem sei o que é…

– É uma forma de artesanato. Pedacinhos de papel amassados e colados… Sozinha, cada parte é lixo, mas juntas fazem lindos objetos. Como nós…

– A banda?

– Sim, eu queria que esse verão não acabasse nunca… A banda, cantar… A companhia de vocês. Principalmente a sua, Paulo. Você foi importante demais para mim.

O coração bateu, descompassado. Era agora.

– Clarice, eu…

– Meu pai foi transferido para outro estado. Mudamos-nos em uma semana. Passei o verão inteiro querendo não pensar nisso, em tudo o que vou perder. E vocês conseguiram, mesmo que agora eu vá perder ainda mais coisas do que antes…

Beijou-me de leve na boca e foi em direção à casa. Eu fiquei ali, parado, olhando ela se afastar, o coração apertado com tudo o que eu não disse e nunca ia dizer.

Assim terminou o verão de 1969. Cresci, casei, tive filhos e enviuvei. Em cima da mesa do meu escritório, as fotos da minha família. Em um canto especial, um porta-retrato de papel maché, com uma foto dos quatro integrantes do conjunto, tirada antes da última reunião pelo pai dos dois irmãos… Judite me enviara alguns anos depois. Ela atrás, abraçada com João, os dois fazendo careta. No primeiro plano, Clarice e eu, rindo. Nunca mais vi nenhum deles.

Penso que aquele verão poderia ter durado para sempre. Foram os melhores dias da minha vida, os do verão de 1969.

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O problema era seu sorriso. Tudo o mais em seu rosto era absolutamente normal, seus suaves olhos castanhos, o modo como suas sobrancelhas subiam e desciam alegremente quando ela fala com sua voz angelical, seu cabelo sedoso e perfumado, até mesmo o lindo narizinho arrebitado, tudo dentro do que se poderia chamar de normal, bela mas não arrebatadora, alguns até diriam comum. Mas quando ela sorri… Oh, Senhor! É magia pura! E em doses potencialmente fatais! Não há nada que você pode fazer, quando ela sorri você vira história, já era! Escravizado para sempre, de livre e espontânea vontade, até a hora em que ela quisesse brincar com você, usar você, acabar com você, ela teria. E sem uma única reclamação, nem uma mísera palavra contra. Apenas pedidos desesperados de mais, mais, mais… Seria todo o conjunto da boca, as pequenas rugas que se formam ao lado dos olhos, o jeito travesso como seus lábios se moviam? O que diabos ela tem naquele sorriso que faz isso comigo, que me deixa de pernas moles, quebra minha vontade, me hipnotiza? Seria isso o tão falado amor?

Mas quem se importa? Ela está aqui, não? E me quer, não quer? E sempre – SEMPRE! – com uma brincadeira nova, com algo novo para ensinar. E são tantas coisas que já aprendi… Já fui amarrado com quilômetros de grossas cordas, preso com fita adesiva ao chão (fiquei parecido com uma múmia, ela disse sorrindo, maldição!), enjaulado como um animal, acorrentado à parede, trancado em uma asfixiante sauna seca, jogado dentro de uma caixa… E ela diz que eu ainda não vi nada! Ah, essa mulher!

Ela está vindo, caminhando – não, flutuando como uma bailarina, suavemente, delicadamente.  Hoje vai ser diferente, vou mostrar para ela que não sou seu escravo, não sou seu cachorrinho. Um homem tem que honrar seu nome, sua dignidade! Hoje as regras do jogo vão mudar e ela é que vai aprender alguns truques e brincadeiras novas, com certeza! Agora, parada bem a minha frente, mãos na cintura, olhos faiscantes a me dominar. Essa ansiedade! Então ela sussurra, como uma brisa da primavera:

– Você já viu o mundo de cabeça para baixo, garoto? È tão divertido, você vai gostar, tenho certeza…

E sorri para mim… Ah, dane-se tudo! Estou aqui, querida! Por favor, faça tudo o que quiser, mas não pare, nunca, jamais! Estou pronto, meu amor, vamos brincar, por favor, vamos brincar!

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STREET OF DREAMS       

 Já fomos grandes, você se lembra? E ainda sempre podemos ser se você o quiser. Dormentes caminhos neurais se refazem num intervalo sem tempo quando o real sincronismo acontece.

 Quando te conheci não me deste tempo para respirar. Um respiro que era um sopro de vida desatando as presilhas da alma. Mal os abismos de nossos olhos se espelhavam nas nossas lentes percebêramos a impossibilidade de conflito entre nós.

 Passávamos fulgurando pela via radioativa, pilotando o trem da gravidade. Nossa mentora nos confiara tanto. O que fizemos pra merecer tanta consideração dela? Éramos apenas mais dois soldados da mídia para todo o resto. Percebia ela, mesmo que de soslaio, na tua arfante expectativa antes de cumprirmos o prometido, e com esse a promessa de sonhos cumpridos?

 Você se lembra? Poderia se lembrar ainda de mim? Do como passáramos juntos pelo vau acinzentado do ensimesmamento?

 Estávamos então no limiar de tanta coisa importante, não é mesmo? Fatos lançados no trançado do tempo que desembocavam num daqueles nós das eras. Já não tivéramos nossa cota de mergulhos no oceano das possibilidades que nos fizeram voltar gotejantes de fascínio? E, incônscios das consequências, mesmo os nossos mais talentosos colegas não conseguiam perceber aonde os entrechoques levavam ao bilhar dos eventos. Arqueavam os sobrolhos, quando vislumbravam algo das sutis influências disparadas, mas não de forma tão graciosa quanto os teus arcos capilares quando se costumavam emoldurar tua céptica expressão.

 Os momentos de transição. Sempre soube você aproveitá-los tão bem, tão melhor que eu. Só precisávamos galvanizar o interesse de todos estudantes ali reunidos, por acaso os melhores no que faziam. Foi mais fácil para você do que para mim. A moda que lançamos estava mais do que enraizada e agora era a oportunidade de criarmos os caminhos novos. As ondas em interferência construtiva das mentes conectadas mas não subordinadas. Só os mais intrépidos poderiam te acompanhar. Outros preparariam a logística e o envultamento das intenções perante o vulgo.

 Nossa tampinha-chefe não precisava nem ordenar o próximo passo. Sabíamos bem o que fazer. Quando liberamos a visão dos nossos olhos de arco-íris sobre a audiência, ao descerrarmos as pálpebras não mais ocultas pelas convexas e quase-opacas lentes que usávamos, já há muito eles estavam convencidos pelos harmônicos naturais de tua voz. Voz em ondas que lambiam as fronteiras dos cuidados de defesa do ego. As palavras certeiras para os que não viam sentido algum somente numa simples vida autoperpetuante. E ao mesmo tempo, a imortalidade da eterna expansão prometida aos que não viam graça alguma nas tentativas de auto-superação ou nas agridoces frustrações que as amarras coletivas nos proporcionavam desde a vida unicelular.

 Porque você não ficou aqui – conosco – na missão de reconstrução dos cacos dos vasos partidos, das vidas separadas e não unidas, do refazer dos caminhos traçados nos domínios dos sonhos que se sonham juntos? Porque teve você que se dar o luxo do último mergulho na incerteza?

 A dissolução da personalidade não deixaria nunca mais as curvas de teu corpo se enrijecerem atrás do vítreo esquife em que teu veículo corpóreo foi depositado. Mas quando você voltaria a afagar os nós de meus dedos de novo com a tepidez única de teu toque? Quando você nos comunicaria, com teu humor sempre borbulhante o que percebera no emaranhamento com as consciências ancoradas em mares não aquosos sob céus de matizes não figurados?

 Volte para a vida isolada, eu te peço. Volte para a vida das impossibilidades da separação. Volte para mim, e para “o mim mesmo”, mesmo que este seja agora tenha passado a ser para você só um hábito esquecido de auto-limitação…Eu sinto nas minhas circunvoluções que ainda podemos voltar a ser dois em um e não apenas o sonho de um em muitos.

 E, então, vamos explorar o que as nossas limitações têm a oferecer.

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Eu estava à espera, este era o local marcado, no meio da floresta do Grande Urso, na nossa pequena clareira. As horas passaram e logo senti a sua presença, seu caminhar era gracioso, seus cabelos estavam soltos, ela não sorriu ao me ver, vi o quanto ela estava aflita, não parava de olhar para os lados. Pulei da árvore onde estava em sua direção, ela me lançou um olhar duro, o sorriso sumiu de meu rosto, eu já esperava pelo que ela iria dizer.

– O que lhe aflige minha querida? – perguntei me aproximando de seu corpo quente. Ela imediatamente me repeliu.

– Não posso mais ficar com você Julius, por favor, entenda.

– Entender o quê? As suas estúpidas leis?– cuspi. – Será que elas valem mais do que o nosso amor?

– É impossível haver algum relacionamento entre nós – gritou Ingrid aos choros – você não sabe do que o meu grupo é capaz.

– Eu não me importo! Eu arrisco tudo por você, não agüentaria ficar longe de você nem um dia! – falei no mesmo tom.

– Mas meu irmão é o alfa, ele comanda o grupo, ele me comanda, ele me quer longe de você, por favor, Julius, não arrisque a sua vida assim. – falou aflita, seus olhos brilhantes estavam cheios de lágrimas, o brilho da lua refletia em seus olhos.

– Não vê que você é o meu único sol, o sol que não me mata. – falei olhando fundo em seus olhos até me ver neles. Uma imagem pálida e turva. Toquei em seu rosto, ao nos abraçarmos, ambos trememos, eu com a temperatura quente dela e ela com o meu frio. Juntos nos equilibrávamos.

Ingrid olhou para o chão escondendo o choro que teimava vir, um som ao longe chamou a nossa atenção, o bando, a família de Ingrid estava a sua procura. Ingrid, percebendo o perigo em que me colocaria, me empurrou e correu para dentro da floresta, corri atrás, mas era tarde, nem com toda a minha velocidade eu pude impedir, a alma Lupina de Ingrid falou mais alto, ela tomou a forma de um lobo e se embrenhou ainda mais na floresta, eu poderia persegui-la mas eu bem sabia que o que falaria agora seriam apenas os seus instintos, não existiria mais uma comunicação entre a gente naquela noite.

Ouvi outros sons e percebendo o perigo subi com um salto na árvore mais alta, sabia que não poderia enganá-los, mas ficaria fora de suas visões por um tempo, no momento o maior interesse deles era Ingrid, um comando do alfa e ela, como lobo, obedeceria.

Eu não entendia ao certo como funcionava esse comando na cabeça dos lupinos, mas sabia que quando alguns deles desobedeciam, uma dor violenta invadia o seu corpo, por isso ninguém ousava desafiar o lobo alfa, a não ser que quisesse sofrer.

Vi a alcatéia correr lá embaixo, pegaram a mesma trilha de Ingrid, desci e fui atrás, eu não poderia deixar Ingrid correr algum perigo, sei bem que o nosso amor é impossível, mas as nossas almas clamam uma pela outra. O escuro tomou conta da floresta, meus olhos faiscaram a procura dela, uma dor me invadiu a garganta, a sede, tinha me esquecido dela, Ingrid faz isso comigo, ela aplaca a minha dor, a sede maldita.

Tive que me virar com o que podia, cacei um grande animal na floresta, um urso, ataquei-o ferozmente e dele tirei o líquido da vida.

Já restabelecido voltei a minha procura, eu queria ter certeza de que ela estava bem. Ouvi um choro e corri como nunca, era Ingrid com certeza, ela voltara a sua forma humana e provavelmente estaria desprotegida.

Cheguei numa pequena clareira e logo vi o que eu mais temia, Ingrid sendo segurada por mais dois lupinos na forma humana, ela estava machucada, eles a estavam julgando, num julgamento de vida ou morte, tudo por minha causa, por causa do relacionamento entre uma Lupina e um noturno. Começou a chover, os relâmpagos iluminavam o bando, alguns na forma humana, outros como lobos.

Lius, como o líder do grupo lhe deu um tapa fazendo Ingrid cair no chão, senti um fogo me queimar de dentro para fora, saí do meu esconderijo e coloquei toda a minha fúria em meu olhar, fazendo meus inimigos tremerem. Eles me atacaram, derrubei três dos sem nenhuma dificuldade, não os matei, eram da alcatéia de Ingrid, só não o fiz por ela. Eu odiava o lobos, só Ingrid tinha o meu coração. Esse ódio se dava pela condição de predador que ambos tínhamos, lupinos e vampiros são predadores, a diferença está apenas na alimentação, eles comiam a carne e nós o bebíamos o sangue.

Voltei o meu olhar para Lius que estava de posse de um punhal e com ele me atacou ferozmente, prata, a prata entrou na minha carne me fazendo arfar de dor, era a única coisa que realmente me machucava, além do sol e do fogo, mas eu também sabia que a prata também fazia mal aos lupinos, mas para eles era bem mais mortal. Retirei a adaga do ombro e estava prestes a usá-la também em Lius, mas o grito de Ingrid me impediu de fazê-lo, era o irmão dela, neste pequeno momento em que hesitei, levei outra facada pelas costas, essa não era prata, mas por pouco não entrou como uma estaca varando o meu corpo, isso me enfraqueceu ainda mais, o sangue saia rápido do meu corpo.

Vários Lupinos me seguraram me fazendo ajoelhar ao lado de Ingrid. Lius, tomado pelo ódio que sentia por mim, esqueceu-se da própria irmã, querendo a nossa morte.

Um grupo ainda maior se juntou nos cercando e Lius, num frenesi usando o seu comando de Alfa, nos julgou culpados, Ingrid por trair a alcatéia e eu por fazê-la mudar de lado, se bem que eu seria julgado culpado por qualquer coisa, eles me matariam de qualquer maneira, eu era o seu bode expiatório por todas as desgraças que aconteciam com eles.

A única escolha dada a alcatéia era a morte rápida ou a morte lenta. Para mim foi escolhida a segunda opção, gostei da idéia, eu poderia ter alguma chance numa luta corpo a corpo.

Lius pegou novamente o punhal de prata e riscou meus pulsos me fazendo sangrar, ele sabia que a prata não deixaria minhas feridas cicatrizarem rapidamente. Depois se virou para Ingrid e machucou seu pulso, eu vi aquilo totalmente atônito, a prata era sentença de morte se entrar em contato com o sangue de um lupino. Ingrid gritou como nunca, a dor devia ser muito forte, talvez mais forte que a minha.

– Veja vampiro – me chamou vulgarmente – você causou isso ao se aproximar dela, agora você vai ter duas opções, se entregar a nós numa caçada, ou ficar e vê-la morrer.

É claro que eu não iria fazer o jogo de Lius, mas ele me propôs algo que eu não poderia recusar. Ele olhou para Ingrid e tirou algo do bolso, parecia uma ampola. Ingrid olhava ansiosamente para aquela ampola, sua pele estava vermelha, seus olhos fundos, sua boca seca, ela estava sentindo os efeitos da intoxicação da prata em seu sangue lupino, logo percebi o que Lius iria propor.

– Minha irmã é a coisa mais preciosa para mim e você a roubou, como rouba as suas vítimas vampiro, você só não lhe suga o sangue por que os lupinos não agradam ao seu paladar, quero a minha irmã de volta, mas só posso tê-la se você deixar de existir. Prefiro ver Ingrid morrer a vê-la com você.

– Diga logo Lius o que você quer de mim? – perguntei impaciente vendo o sofrimento de Ingrid.

– Vejo o quanto você está fraco, perdeu muito sangue, quero que você seja a nossa caça, quero que corra enquanto o caçamos.

– E por que eu faria isso? Se Ingrid morrer eu não me importo de ficar aqui e também esperar a morte.

Lius grunhiu e puxou Ingrid do chão com violência.

– Você quer isso irmãzinha? – disse colocando a ampola perto do rosto já pálido de Ingrid. – peça ao seu maldito namorado vampiro! Ele tem a sua vida agora!

Ingrid me olhou – Julius… – disse ela com tristeza – pra depois gritar – Não faça o que ele pede! – em seguida cuspiu na cara do irmão que a jogou no chão, olhando-a com nojo.

– Como pôde se entregar a um noturno? Você está suja… mas vou te limpar – disse se voltando para mim. – Vê isso vampiro? Isso é a cura para a prata, se ela não colocar isso na veia logo, vai morrer. Consegue conviver com isso? Se ela morrer, nós não vamos matá-lo, só mutilá-lo talvez – sorriu cínico – só para ver com prazer você se lamentar pela eternidade.

Vi o jogo de Lius, ele não deixaria Ingrid morrer, lhe daria o antídoto, mas desde que eu concorde em ser caçado por ele e seu bando. Sorri, Ingrid iria sobreviver.

– Eu topo – lhe disse entre dentes – mas como saberei que você vai cumprir com a sua promessa?

– Você verá – disse ele aplicando o antídoto em Ingrid enquanto ela grunhia em desespero.

– Você cumpriu com a sua palavra, agora cumprirei com a minha. – disse me posicionando para que eles desamarrassem meus pulsos.

Lius se aproximou e novamente me cortou com a faca de prata, me dando mais dor. Levantei-me com um pouco de dificuldade enquanto Lius e os demais lupinos se afastavam, olhei para Ingrid, ela estava no chão, humilhada, fraca, não era essa a última imagem que eu queria levar comigo.

– Corra Vampiro, corra! – mandou Lius enquanto se preparava para me perseguir junto dos demais. Dei mais um último olhar para Ingrid e pude ler um “te amo” de seus lábios. Só pude sorrir em troca.

Comecei a caminhar para em seguida correr e corri o máximo que pude, eu queria o bando todo longe de Ingrid, eu sabia que ela jamais conseguiria ficar com eles se eu morresse, eu daria tempo para que ela pudesse fugir para sempre.

A floresta estava mais escura, eu não tinha mais forças para enxergá-la como antes, meus olhos estavam comuns, humanos, tentei despistá-los, mas desisti, a minha meta era tê-los ao meu encalço o mais tempo possível.

Vi o bando se separar, eles queriam me cercar, não dar opções de fuga, a minha morte era a meta deles. Como um bom predador eu sabia como eles pensavam, se bem que nunca fui bom em trabalhar em grupo, vampiros são solitários na caçada, pois correm o risco de machucar uns aos outros na hora em que os instintos estão aflorados. Instintos. Lembrei-me deles, um em especial eu tentava afastar, o de sobrevivência, o de fuga. Parei sem fôlego em frente a um pequeno riacho e vi uma enorme serpente, a ataquei, ela me serviu bem, apesar de seu sangue ser tão ruim, ajudou a me curar das feridas da prata. Dois animais que me saciaram numa noite, se eu saísse dessa, repensaria o meu modo de vida. Voltei-me as árvores e vi os olhares entre as folhas, os lobos se aproximavam, suas cores eram tantas, castanhos, ruivos, amarelos, eles tinham a pelagem da cor dos cabelos quando humanos. Com exceção de Lius e Ingrid.

Posicionei-me, eu não iria me entregar sem luta.

Os lobos vieram e um a um me atacaram, derrubei muitos deles. Um me mordeu me fazendo mordê-lo de volta. O sangue era pior que o da serpente. Cuspi enojado, o lobo mordido saiu grunhindo.

Lius veio. Ele era um dos maiores, seus pêlos cinzentos me lembravam os de Ingrid. Travei uma luta feroz com ele, a desvantagem era a minha companheira constante enquanto os outros lobos me mordiam, me atrapalhando na luta. Vi que o bando todo estava aqui, atrás de mim. A exaustão, tão rara em minha espécie, me dominava na forma de uma sede excruciante. Caí no chão, mas não antes de ter acabado com alguns deles.

Lius se aproximou e pude ver no olhar do lobo a vitória certa, ele se aproximou mostrando seus caninos brancos. Grunhi, o instinto de sobrevivência ainda gritava, mas a fraqueza o calou logo.

Depois de mais de cem anos como vampiro, eu finalmente iria saber se tenho ou não uma alma.

Quatro logos me seguravam com mordidas violentas, enquanto Lius se aproximava para dar-me o golpe final, ele mirava minha garganta, meu ponto fraco, me rendi à exaustão e parei de resistir. O restante do bando parou ao comando alfa de Lius, ele me queria só para ele, outro lobo cinzento ignorou a ordem, este vinha devagar, Lius não o viu de imediato, mas o bando deu o alarme. O lobo cinzento deixou cair algo perto de mim e saltou sobre Lius o mordendo na garganta, Lius começou a se debater com olhos incrédulos, o lobo era Ingrid e ela me trouxe o punhal.

Enquanto ela lutava com Lius, estranhei o restante do bando permanecer no lugar e lembrei-me do último comando alfa de Lius, talvez fosse por isso, ou talvez estivessem respeitando a luta entre os irmãos.

Peguei o punhal caído ao meu lado e esperei até que pudesse distinguir um do outro, acertei Lius bem no coração. O lobo soltou um grito feroz e logo caiu, os outros ao verem seu líder caído vieram na minha direção, mas logo se afastaram com um grunhido de Ingrid. Caí sentado ao ver que tudo havia terminado, Ingrid pesarosa foi até o corpo do irmão. O lobo continuava intacto, mas seu corpo estava frio. Ingrid fraquejou e também caiu, a sua forma de lobo deu lugar à aparência humana, ela estava chorando. A chuva estava passando e o céu nublado deu lugar a um final de madrugada com céu límpido.

– Vou morrer – ela me disse pesarosa – não tenho mais tempo, aquele antídoto era uma cura falsa, posso sentir a prata tomar conta do meu coração. – disse me abraçando – tanto esforço para nada.

– Como nada? E o nosso amor, ele não conta? – perguntei soluçando, sentindo a falta das lágrimas que secaram com a eternidade.

– Claro que conta, mas lamento não poder mais estar com você. – disse num fio de voz

– Então vou com você – falei decidido enquanto nos abraçávamos sentados ali no chão. – não quero uma eternidade sem você. – olhei para o céu já vendo o sol se aproximar, me entregaria aos seus raios em poucas horas. Ingrid me entendeu, encostou-se a mim e olhou para o céu, esperaríamos pela morte juntos. Finalmente eu saberia se teria uma alma ou não.

Beijei Ingrid como nunca havia beijado, sem cuidados, sem medo de machucá-la, senti o gosto do seu sangue em minha boca e logo recuei, a prata estava na sua corrente sanguínea e se espalhando ainda mais.

Senti um calafrio, logo o sol apareceria, eu lutava com todas as minhas forças para ficar e esperar pelo brilho que acabaria coma minha existência, Ingrid dormia, sua respiração estava fraca, logo ela morreria. Olhei para ela, tão frágil, naquela hora ela era tão humana, longe de qualquer traço de um lupino, olhei-a bem e pensei, por que não tentar?

Acordei-a com cuidado e propus o meu plano que foi aceito de imediato, afinal não tínhamos nada a perder, a não ser a nossa existência.

Curvei-me sobre o corpo inerte do lobo morto, Ingrid fechou os olhos, não queria ver corpo do seu irmão. Suguei o sangue com sofreguidão, engolindo cada gole com dificuldade, sem prazer, sem necessidade, apenas urgência. Depois de saciado, dei mais um beijo em Ingrid, ela se entregou inteiramente e logo estava à beira da morte de tão enfraquecida. Dei-lhe o meu sangue, mas muito pouco, ela o aceitou e bebeu fazendo uma careta, logo pequenos espasmos tomaram conta de seu corpo e ela se contorceu de dor, seu suor estava brilhante, a prata estava saindo de seu corpo, os espasmos continuaram, tive que carregá-la a uma caverna próxima, o sol logo apareceria.

Ingrid se transformou em lobo para lidar melhor com a dor, mas algo deu errado, depois de algumas horas ela ainda era um lobo, fiquei assustado e ela também. Talvez o meu sangue tenha mexido com o dom lupino dela, pensei preocupado. Em seu desespero ela saiu da caverna, o sol estava alto lá fora, eu não podia ir atrás dela. Da caverna vi que o sol não a afetava. Tudo que poderia fazer era esperar, logo adormeci sob o poder do dia.

Anoiteceu. Abri meus olhos. E lá estava ela, linda e na forma humana. Sorri ao vê-la, ela me abraçou, seu cheiro estava diferente, não mais atiçava a minha sede de sangue.

– Não entendo o que aconteceu – olhou em meus olhos – acho que agora sou como você, mas não sou inteiramente. – me disse confusa.

– Por que diz isso? – perguntei curioso.

– Posso andar de dia, mas só como lobo. Não consigo mudar de forma no sol – me explicou.

– Só sua parte humana morreu para o dia – lhe disse com cautela – o lobo ainda está vivo, você ainda é uma lupina.

– E, como lupina, preciso caçar – me disse sorrindo e se transformando novamente em lobo.

Andamos juntos pela floresta e caçamos, com a certeza de que ficaríamos juntos eternamente. Encontramos um grande alce, eu fiquei com o sangue e ela com a carne.

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Tinha apenas vinte anos, e toda a inconseqüência da juventude. Os amigos, desgraçados, choravam e faziam um escarcéu no velório: fungavam alto, se debulhavam em lágrimas, soluços e gemidos ensurdecedores. Gritavam aos céus que também queriam morrer, difamando Deus e perguntando a Ele como pudera ser tão cruel com uma de suas mais belas filhas. Os óculos escuros escondiam a vermelhidão das falsas lágrimas e as olheiras da ressaca verdadeira.

Malditos. Nem sequer se ofereceram para ajudá-la. Viram que não havia nenhuma condição para que ela dirigisse aquele carro, mas mesmo assim a deixaram ali, bêbada, dançando na pista com uma dose de tequila nas mãos. Não foram dignos, e agora chorava.

Hipócritas.


O único ali que realmente se importava com ela – além, é claro, dos pais e familiares próximos (porque até mesmo os parentes distantes pareciam estar ali mais por obrigação do que pesar) – era o namorado. O pobre coitado, sentado em um canto qualquer, sozinho, olhando para o chão e contando os azulejos, esperando o tempo passar. Remoia sentimentos bons. Remoia amor, brigas, sexo, frases e sonhos. Sonhos perdidos, despedaçados e destruídos, como o carro ficara após a capotagem. Rodava a aliança de noivado nas mãos, olhando para a pequena inscrição gravada do lado de dentro: Felipe e Helena. O anel custara as economias de quinze dias de trabalho, e seu par continuava escondido no fundo do armário dele, dentro da caixa envolta por camurça. Não tinha coragem de pegar naquela caixinha. Iria pedi-la em casamento, mas a coragem (ou a falta dela) não permitira. Agora era tarde.

Abaixou a cabeça, e deixou que as lágrimas escorressem.

Uma mão veio em sua direção, e não demorou muito para que Felipe se sentisse envolvido por braços quentes, gordos e aconchegantes. Quando levantou os olhos, viu que a mãe de Helena estava ao seu lado, compartilhando a dor. Era uma mulher gorda, com olhos claros e rosto vermelho pelo pranto. Mesmo com a dor da perda, a mulher tentou sorrir, encorajando Felipe a imitá-la. Mas ele não o fez.

– Vai ficar tudo bem… – ela sussurrou, abraçando o garoto, envolvendo-o com o calor de seu grande corpo.

– Era eu quem deveria estar falando isso para você… – ele sussurrou. – Desculpe pelo meu egoísmo.

– Não se preocupe com isso, meu filho. Sentimos a mesma dor.

– Não. A sua é mais… forte.

Ela deu um sorriso.

– É tão forte quanto a que você sente.

Ele permaneceu calado. Sua alma estava despedaçada, em cacos, como o vidro reluzente que, ao chão do asfalto, parecia um tapete de estrelas caídas.

Nunca mais sentiria aquele calor, aquela pele, aqueles beijos. Nunca mais poderia dizer boa noite a ela.

Agora, só podia dizer adeus.

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Ninguém sabe de onde vem a voz, se do negro esfarrapado, da mulher enrolada no cobertor ou da criança nua. O fato era que os mendigos pareciam agir em uníssono, completando as frases uns dos outros enquanto a chuva de mãos cai sobre a vítima em sua glória multiforme.

Dá pra… – disse o homem

…mim. Eu quero…– disse a mulher

…tudo que você…– a criança

…tem, agora.– e o homem outra vez.

Sônia pensou que, se a entidade dominava todas aquelas pessoas, por que não a ela? E por que o ataque? O que ela teria que alguém capaz de acessar tantas mentes ao mesmo tempo poderia querer?

Essas eram perguntas que permaneceriam sem resposta se ela não se livrasse das unhas sujas, do bafo coletivo, do elenco de marionetes do esgoto. Para uma mulher pequena, até que era forte, uma pernada aqui e um empurrão, caem os peões entorpecidos.

Os jornais falaram a respeito dos distúrbios no Centro, mas Sônia não acreditou. Como assim, os mendigos reunidos em levante depredaram a Candelaria? A polícia chegou e distribuiu cacetadas nos invisíveis até tingirem o mar de roupas cor-de-burro-quando-foge com degradés rôxo-hematoma. A massa humana dispersou, voltando à catatonia lamurienta vítima de chacinas mis, mas que sempre volta e volta e volta, arrastando os pés elefantísicos num recordatório das desigualdades criminosas.

Os expurgos diziam que o Andarilho das Almas os possuiu. Uma entidade capaz de pular de mente em mente, causando um efeito de maré, uma revolução instantânea, sem manifestos ou cartas de intenções, sem discursos ou decálogos. Apenas o cheiro de suor de semanas e as dezenas de mãos agarrando, rasgando. Longe os dias de pedintes, eles pegavam.

O levante do dia seguinte, que atingiu Sônia distraída olhando uma vitrine, foi pior. Num momento crucial, não adiantava fingir que não se via os danados correndo pelo cruzamento. O truque não funcionava porque a presença deles se impunha em punhos e não há quem ignore um murro, uma prensa no muro. A reação imediata, mais por nojo que por medo, levava a um afogamento na cor que nunca existiu das roupas folgadas. Gente folgada.

As viaturas policiais, já preparadas, viraram a esquina, uivando. Sônia nadou até eles pela caatinga, cortando o mau-cheiro com as mãos em cutelo, desferindo golpes certeiros, mas sem efeito, já que para cada um que caía, três voltavam à carga. Ainda assim, deu para ouvir o som dos tiros, quando os policiais dispararam contra a turba turbilhonante, desaparecendo sob a areia humana.

Prestes a desmaiar, Sônia perguntou “por que eu?” e, momentos antes de sentir a boca inundada por trapos e dedos, o Andarilho de Almas, calmo e sem um pingo de ironia, explicou dentro da caixa craniana:

– Desculpe, filha. Eles não sabem o que fazem.

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