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Letra e Vídeo

Literatura musical

Tinha apenas vinte anos, e toda a inconseqüência da juventude. Os amigos, desgraçados, choravam e faziam um escarcéu no velório: fungavam alto, se debulhavam em lágrimas, soluços e gemidos ensurdecedores. Gritavam aos céus que também queriam morrer, difamando Deus e perguntando a Ele como pudera ser tão cruel com uma de suas mais belas filhas. Os óculos escuros escondiam a vermelhidão das falsas lágrimas e as olheiras da ressaca verdadeira.

Malditos. Nem sequer se ofereceram para ajudá-la. Viram que não havia nenhuma condição para que ela dirigisse aquele carro, mas mesmo assim a deixaram ali, bêbada, dançando na pista com uma dose de tequila nas mãos. Não foram dignos, e agora chorava.

Hipócritas.


O único ali que realmente se importava com ela – além, é claro, dos pais e familiares próximos (porque até mesmo os parentes distantes pareciam estar ali mais por obrigação do que pesar) – era o namorado. O pobre coitado, sentado em um canto qualquer, sozinho, olhando para o chão e contando os azulejos, esperando o tempo passar. Remoia sentimentos bons. Remoia amor, brigas, sexo, frases e sonhos. Sonhos perdidos, despedaçados e destruídos, como o carro ficara após a capotagem. Rodava a aliança de noivado nas mãos, olhando para a pequena inscrição gravada do lado de dentro: Felipe e Helena. O anel custara as economias de quinze dias de trabalho, e seu par continuava escondido no fundo do armário dele, dentro da caixa envolta por camurça. Não tinha coragem de pegar naquela caixinha. Iria pedi-la em casamento, mas a coragem (ou a falta dela) não permitira. Agora era tarde.

Abaixou a cabeça, e deixou que as lágrimas escorressem.

Uma mão veio em sua direção, e não demorou muito para que Felipe se sentisse envolvido por braços quentes, gordos e aconchegantes. Quando levantou os olhos, viu que a mãe de Helena estava ao seu lado, compartilhando a dor. Era uma mulher gorda, com olhos claros e rosto vermelho pelo pranto. Mesmo com a dor da perda, a mulher tentou sorrir, encorajando Felipe a imitá-la. Mas ele não o fez.

– Vai ficar tudo bem… – ela sussurrou, abraçando o garoto, envolvendo-o com o calor de seu grande corpo.

– Era eu quem deveria estar falando isso para você… – ele sussurrou. – Desculpe pelo meu egoísmo.

– Não se preocupe com isso, meu filho. Sentimos a mesma dor.

– Não. A sua é mais… forte.

Ela deu um sorriso.

– É tão forte quanto a que você sente.

Ele permaneceu calado. Sua alma estava despedaçada, em cacos, como o vidro reluzente que, ao chão do asfalto, parecia um tapete de estrelas caídas.

Nunca mais sentiria aquele calor, aquela pele, aqueles beijos. Nunca mais poderia dizer boa noite a ela.

Agora, só podia dizer adeus.

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