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Letra e Vídeo

Literatura musical

Ninguém sabe de onde vem a voz, se do negro esfarrapado, da mulher enrolada no cobertor ou da criança nua. O fato era que os mendigos pareciam agir em uníssono, completando as frases uns dos outros enquanto a chuva de mãos cai sobre a vítima em sua glória multiforme.

Dá pra… – disse o homem

…mim. Eu quero…– disse a mulher

…tudo que você…– a criança

…tem, agora.– e o homem outra vez.

Sônia pensou que, se a entidade dominava todas aquelas pessoas, por que não a ela? E por que o ataque? O que ela teria que alguém capaz de acessar tantas mentes ao mesmo tempo poderia querer?

Essas eram perguntas que permaneceriam sem resposta se ela não se livrasse das unhas sujas, do bafo coletivo, do elenco de marionetes do esgoto. Para uma mulher pequena, até que era forte, uma pernada aqui e um empurrão, caem os peões entorpecidos.

Os jornais falaram a respeito dos distúrbios no Centro, mas Sônia não acreditou. Como assim, os mendigos reunidos em levante depredaram a Candelaria? A polícia chegou e distribuiu cacetadas nos invisíveis até tingirem o mar de roupas cor-de-burro-quando-foge com degradés rôxo-hematoma. A massa humana dispersou, voltando à catatonia lamurienta vítima de chacinas mis, mas que sempre volta e volta e volta, arrastando os pés elefantísicos num recordatório das desigualdades criminosas.

Os expurgos diziam que o Andarilho das Almas os possuiu. Uma entidade capaz de pular de mente em mente, causando um efeito de maré, uma revolução instantânea, sem manifestos ou cartas de intenções, sem discursos ou decálogos. Apenas o cheiro de suor de semanas e as dezenas de mãos agarrando, rasgando. Longe os dias de pedintes, eles pegavam.

O levante do dia seguinte, que atingiu Sônia distraída olhando uma vitrine, foi pior. Num momento crucial, não adiantava fingir que não se via os danados correndo pelo cruzamento. O truque não funcionava porque a presença deles se impunha em punhos e não há quem ignore um murro, uma prensa no muro. A reação imediata, mais por nojo que por medo, levava a um afogamento na cor que nunca existiu das roupas folgadas. Gente folgada.

As viaturas policiais, já preparadas, viraram a esquina, uivando. Sônia nadou até eles pela caatinga, cortando o mau-cheiro com as mãos em cutelo, desferindo golpes certeiros, mas sem efeito, já que para cada um que caía, três voltavam à carga. Ainda assim, deu para ouvir o som dos tiros, quando os policiais dispararam contra a turba turbilhonante, desaparecendo sob a areia humana.

Prestes a desmaiar, Sônia perguntou “por que eu?” e, momentos antes de sentir a boca inundada por trapos e dedos, o Andarilho de Almas, calmo e sem um pingo de ironia, explicou dentro da caixa craniana:

– Desculpe, filha. Eles não sabem o que fazem.

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