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Letra e Vídeo

Literatura musical

Ao luar, Mileva chorava. Seu grande amor, Rinaldo, morrera na guerra que ainda se travava nas colinas da Moldávia. “Malditos sejam os mamelucos!”

O Dragão lutava com toda sua audácia, coragem e bravura para defender aquela terra dos muçulmanos. Seu amor lutara lado a lado com ele, arrancando membros e espalhando vísceras pagãs sobre a terra da Europa. O Dragão o exaltava, por sua sede de sangue e bravura.

Quando com ela, Rinaldo era terno e doce, e lhe contava dos empalamentos com uma paixão que a deixava tonta, não de medo ou terror, mas de um prazer secreto, uma excitação que aflorava com uma ânsia por ele e suas mãos fortes e calejadas, mãos que estrangulavam e estripavam, mãos que ela amava.

Mileva chorava. Suas lágrimas eram amargas e doces, carregadas de um amor infinito, que ela ansiava superar a própria Morte.

Aquela lua, brilhante e fria, doía muito mais em seu coração que a ferida causada pelo sofrimento pelo amado. Doía tão profundamente, que seu maior desejo era dissolver-se naquela dor, transformar-se em luar que fosse, como nas histórias de amores trágicos que ouvira quando menina.

Agora a menina era quase uma mulher, e já viúva, sem nunca ter tido suas núpcias. O desejo que fora despertado por Rinaldo lhe queimava mais que nunca, afogando-lhe os sentidos e a razão. Ardia e se consumia no ardor de um desejo não satisfeito, soluçava de dor angustiante pela morte de seu querido, gritava de paixão, ódio e pela sexualidade recém despertada e reprimida.

Na beira do lago em que deitara para chorar, uma luz fria como a neve do inverno invadia todo seu ser e reclamava o fogo que a incendiava. Um brado angustiante evadiu-se de sua garganta, e a Lua parecia oferecer-lhe sua compaixão.

– Quero meu amado, morto ou vivo, seja eu morta ou viva! Se a vida é tamanha dor, a morte me é bem-vinda. Seja eu mais um espírito a vagar, desde que com meu amado! Que eu seja uma daquelas que sugam o calor dos amantes como tu, Lua, que suga minha vida agora! Me leve para o reino das Sombras! Não quero viver assim!

Levantando-se, encarou o luar, sentindo a força mágica das palavras reverberarem na noite silenciosa. Sabia que era um caminho sem volta, amaldiçoada por si mesma, uma igual àquelas vampyr que ouvia nos contos da avó.

– Sou tua para onde me levares, Lua dos seres da Noite, Lua dos Condenados a vagar nas Trevas! Que tomar a vida seja minha sina, para apagar minha fome de amor! Que me sejam companheiros teus filhos sombrios! Possa eu reinar contigo, na Sombra de todas as sombras!

Como em resposta à sua invocação, um vento congelante fustigou-a, levantando folhas e tomando a face de Rinaldo.

-Meu amado!

Atirou-se a seus braços, gélidos, e viu que a face amada transfigurava-se na do Dragão, Vlad Tepes.

– Posso te dar muito mais que a morte que desejas. Posso te fazer uma Rainha nas Trevas que sirvo. Sê minha, e terás o mundo para te alimentares!

Mileva deu uma gargalhada enlouquecida. Maldição por maldição, já estava separada daquele que amava por um abismo intransponível. O que lhe era oferecido era mais que uma reparação, agora entendia isso. O desejo que a consumia ardia forte, sabendo que a decisão já havia sido tomada, sem que tivesse tido consciência do fato.

– Sou tua, agora e sempre, meu amado, tenha tu a face que tiveres. Toma meu corpo, minha alma e minha vida.

O ensandecido ser avidamente abocanhou seu pescoço desnudo, enquanto a arriava no chão. Sentiu seu sangue jorrar para a boca do monstro que agora amava. Placidamente, deixou-se deitar e violar, com um sorriso no rosto, sentindo estranhamente que a morte já deveria ter ocorrido.

No lugar dela, apenas uma grande alegria, um triunfo infinito, e um desejo por um pescoço quente e vivo para sugar.


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