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Letra e Vídeo

Literatura musical

Bateu mais uma vez.

Não era uma ação mecânica simples. Nem era uma atitude fácil. Mas envolvia decisões consolidadas. Uma questão de princípios. Todos sabem que “princípio” é algo extremamente volátil; ao sabor de culturas, histórias ou geografias. Às vezes de acordo com vontades. Todas elas inerentes aos mandatários. Ou mais acima, aos decisórios, se preferirem.

Bateu mais uma vez.

Por definição um executor. Porque era ele que executava. Embora não demandasse mais que ação mecânica, requeria vigor, força e destreza. E uma boa dose de precisão. Erguer e abaixar, erguer e abaixar. Tantas vezes quantas necessárias até que o objeto da agressão se curvasse ao dominador. Ética ou moral não eram assuntos para serem discutidos. Mesmo porque ondulam não muito graciosamente à vontade das leis. Tirânicas? Nada disso. Antes, necessárias.

Bateu mais uma vez.

Tortura era uma palavra forte demais. Antes, correção. Ato de corrigir, consertar as coisas. Procurar um meio de reparar ações anteriores. Claro que o que está feito não tem reparação. Mas e a consciência de milhares de súditos? E aqueles que lotaram a arena e entre apupos escolheram um herói? A consciência de milhares na consciência de um só. Porque o Imperador, o Cesar, Ele, o Magnânimo, Senhor Absoluto, Deus, representava a todos.

Bateu de novo. E bateria mil vezes se necessário.

O indigno era um bandido. Maldito. Filho de um cão que desonrou a arena.

Quem se julgava ao desrespeitar a vontade da platéia? Onde pensava estar? No chiqueiro, lidando com porcos? Aprenderia a lição custasse o que custasse. Aprenderia após tantas batidas quantas necessárias. Até prostrá-lo ao chão. Até fazê-lo ver que não poderia, em nenhuma hipótese, matar um eleito pelo povo. Pois que o herói escolhido era o outro. O grande gladiador núbio.

E o senhor dos porcos ousara desrespeitar a escolha do povo, fincando no nigérrimo gladiador a espada. Fizera jorrar não o sangue de um só, mas o sangue de todos na areia escaldante. Vaias irromperam. Protestos abafaram a voz do Imperador que, impulsionado pela comoção pública, condenou o vencedor a mais uma luta. E com o pior de todos. Com o gladiador mais fraco, mais obtuso que existia. E perderia. Seria vencido, humilhado e morto diante de espectadores vingados.

Mas, antes, as pauladas que o enfraqueceriam a ponto de não conseguir mover as próprias pernas. Bateu novamente. Bateu e bateu. E bateu muito até que o homem tombou trêmulo e sacudido por espasmos. Com dois outros soldados o carregou para fora. Arrastaram-no para o meio da arena. Milhares aplaudiram. O abobado, o tolo, o fraco e macilento oponente, tão subnutrido, tão esquálido que não tinha forças para erguer a própria espada… Mas a ergueu.

E com ela esfacelou o crânio do ímpio.

E ganhou status de gladiador eleito.

Até a próxima contenda… Quando foi honrosamente decapitado.

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