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Letra e Vídeo

Literatura musical

O suor escorria salgado pela minha testa fazendo com que meus olhos ardessem. Três dias. Esse foi o tempo que estive aqui amarrada, em pé, pendurada pelos pulsos já machucados e cheios de moscas comedoras de carne. Minhas pernas estão doloridas e sujas dos meus próprios excrementos, acho que no final não passamos disso, merda fedida e grudenta.

Ouvi gritos essa manhã, gritos de alegria, festejam algo que eu desconheço. De seus rostos só tenho um vislumbre, um fragmento de visão quando passam por aquele raio de luz, bem ali a esquerda da entrada para minha cela, bem antes de se aproveitarem do meu corpo, bem antes de colocarem em mim o que nem as mulheres de seu povo desejam.

Bastardos! São todos uns bárbaros, isso sim. E ainda ousam me chamar de tal! Espero que na manhã seguinte a minha morte seus olhos se grudem e suas bocas se calem para sempre.

O dia em que meu povo sacudirá este reino chegará, e quando eu estiver do alto, vendo seu sangue maldito ser derramado, tudo fará sentido.

Eles entram hoje, provavelmente para saciar sua fome de carne, eu já não tenho muita coisa para oferecer. Meu corpo está magro e disforme, minhas entranhas estão largas e machucadas depois de tantos homens diferentes, daqui eles tirarão pouco prazer. Um deles chega bem perto de mim, não me finjo de morta, não admito covardia, levanto a cabeça o máximo que posso e tento calcular a distância de nossos rostos, talvez com uma mordida eu consiga arrancar seu nariz.

Ele segura meu rosto com as mãos e chega seu sexo próximo a minha boca (só uma mordida) ao mesmo tempo que faz que “não” com as mãos. Parece que eles têm outros planos para mim hoje.

Retiram meus pulsos das correntes e com gargalhadas acompanham minha queda ao chão, cara na merda, merda na cara. Bastardos!

Dois deles me levantam e me levam para um outro local com muita luz, luz essa que queima meus olhos, fere a fogo minha cabeça e faz com que eu me encolha de dor, gritos meus só de raiva. Nenhum deles têm pena, sou arrastada e jogada num tonel de água gelada que me lava e me congela, retira as impurezas do meu corpo e me coloca em estado letárgico. Me pergunto para que um banho, para que essa limpeza se eles mesmos nunca se preocuparam com isso antes, me deixando cair em excrementos enquanto gargalhavam.

Retirada com a mesma rudeza com que fui colocada, logo sou besuntada num óleo que realça as poucas formas que ainda tenho e vestida com roupas de guerra, pequenas e inúteis na defesa de qualquer ataque.

Então querem que eu lute? Querem que eu coloque minha espada em defesa de quem? Deles próprios? Logo eu, uma mulher indigna para luta segundo todos eles. Seguro minhas armas mecanicamente e traço meu plano de matar todos os meus compatriotas de batalha. Ajudarei o inimigo, seja ele quem for, ajudarei o inimigo e me banharei no sangue destes malditos!

Ouço gritos, muitos gritos, através de um túnel poeirento e escuro entreouço uma multidão, me largam próximo a um portão, vejo luz, vejo pessoas e vejo ele, sentado, fingindo majestade com suas roupas opulentas. Bato meus pés no chão, mexo meus braços com força, preciso que o sangue circule, preciso de força para matar.

O portão se abre e quando saio de cabeça erguida percebo o que está acontecendo. Eles não querem que eu lute ao seu lado, eles querem que eu lute para sua diversão. Então é essa a sensação de encontrar-se dentro do grande coliseu? Ando de cabeça erguida e vejo mais duas mulheres vindo em direção ao centro. Uma loira como eu, só que mais jovem e outra negra, de cabelos compridos e um tridente na mão, arma que me é muito familiar. Eu as conheço, ficamos juntas durante muitos dias em carroças cheias de gente capturada. Passamos muitas noites conversando sobre nossas batalhas e cantando nossa guerra, uma guerra forte, justa e que um dia colocará por terra todos eles.

Ando até o centro da arena e as encontro. Tenho vontade de gritar com todo ódio, de faze-los escutar, de faze-los sentir toda minha raiva e indignação. Não sou um divertimento e não o sendo nunca me prestarei a esse papel. As mulheres que me cercam parecem compartilhar o mesmo pensamento e quase ao mesmo tempo jogamos nossas armas ao chão.

Todos eles gritam indignados como se fossemos pagos para estar ali, como se tivéssemos a obrigação de os divertir. Batem palmas ritmadas que me lembram tambores de guerra rufando antes da batalha, nos animando, nos encorajando. Olhamos ao redor, ainda continuam a bater palmas e pés, nos embalando para a batalha que tanto querem ver. Fico indignada e me lembro da nossa canção, daquela canção que todos que lutam contra o opressor romano conhecem, levanto meus braços e com toda a força grito o verso base dela:

 

_ Nós os sacudiremos!

 

As palmas servem de fundo e as mulheres que me cercam logo entendem o que quero fazer, entendem que temos que cantar nossas batalhas e morrermos com a nossa honra. Elas dançam e batem palmas, nós sabemos o que fazemos.

 

_ Nós os sacudiremos!

 

A mais jovem toma para si o primeiro verso de nossa batalha:

 

_ Companheiro, você é um garoto que faz um barulhão

Tocando na rua, vai ser um grande homem algum dia.

Você tem lama no seu rosto,

Sua grande desgraça.

Chutando sua lata por todo lugar,

Cantando:

Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

 

A voz dela não é muito boa, tão pouco tem a força de uma batalha, mesmo assim o transe da batalha cai sobre nós. Cantando alto o verso principal, com os punhos levantados, os olhos cheios do ardor do fogo, nossa vida inteira diante de nós, nossa vida inteira diante deles, que sem entender ao menos o significado de tudo aquilo continua com as palmas, como se em transe também.

A negra assume a vez, ela que era um sacerdotisa no seu povo dá a nossa batalha um tom ritual, um tom de culto:

 

_ Companheiro, você é cara jovem, cara difícil

Gritando na rua, vai enfrentar o mundo algum dia.

Você tem sangue no seu rosto,

Sua grande desgraça.

Agitando sua bandeira por todo lugar,

Nós os sacudiremos!

Cante!

Nós os sacudiremos!

 

Sinto-me invadida por um sentimento antigo, elementar e hipnótico. Nós os sacudiremos, por cima de suas ruínas caminharemos e em sua desgraça triunfaremos! É isso! Mesmo aqui, prestes a morrer, está será a última coisa que ouvirão de mim, será a minha profecia. Canto com toda minha alma, minha voz rouca de guerreira ecoando em cada palma, em cada rosto, em cada parede, penetrando e levando minhas palavras como uma maldição para todos eles:

 

_ Companheiro, você é um homem velho, homem pobre

Suplicando com seus olhos vai causar

Alguma paz algum dia.

Você tem lama no seu rosto,

Grande desgraça.

É melhor alguém te colocar de volta no seu lugar.

Nós os sacudiremos!

Cante!

Nós os sacudiremos!

 

Gritei com meu espírito e caminhei até o centro onde nossas armas se encontravam. O povo animado com minha caminhada continuou com as palmas achando que eu estava pronta para lutar. Ainda entoando aqueles versos que prediziam o futuro deste império agora amaldiçoado peguei o tridente, arma que se assemelhava com as minhas tão amadas lanças. Me virei em meio à cantoria e enxerguei somente um homem, somente um alvo: Ele! Minha cabeça me levou até ele e meus deuses me disseram o que fazer, atravessa-lo. Atravessa-lo com nosso poder, mostrar àqueles mortais estúpidos que nossos deuses eram  eternos e enche-los da certeza da ruína.

Corri e enquanto os últimos versos ainda ecoavam, lancei meu tridente na direção de seu peito, ó César, sorria agora! Onde está seu júbilo em meio à tanto sangue? Onde está sua vitória em meio à tanta dor? Será que enxerga meu sorriso agora que desfalece? Será que sente minha vitória em meio ao peso do meu tridente?

 

_Todos!

Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

 

O povo se cala. Emudece. São tomados de um terror único e demoram algum tempo para entender a morte de seu precioso César. Eu me junto às mulheres no centro e deito-me no chão, fecho meus olhos e sei que no futuro esta construção estará em ruínas. Onde meu tridente atingiu não existirá nem parede nem pedra, somente pó rachando pela metade este circo vil.

Ouço gritos, choro e um rugir faminto. O leão está na arena, mas agora ninguém mais se importa com o divertimento da luta. Ainda de olhos fechados cantarolo meus versos da vitória. E com o rosto banhado de lágrimas espero que o leão me devore, pois minha missão está comprida.

 

_ Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

Nós os sacudiremos!

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