Skip to content

Letra e Vídeo

Literatura musical

Um lado maior que o outro

 

 

Acordei cedo. Corri. Estou sempre correndo. O tempo passa, os ponteiros se movem e eu continuo correndo, no mesmo ritmo, sufocado, estrangulado por um dia que é pequeno para mim.

Hoje minha barba ficou mal feita. Cortei mais de um lado do que do outro. Ouvi piadas o dia todo no trabalho por conta disso. Eles rindo e eu fingindo que não ouvia. Durante algumas horas isso é suportável, mas no meio da tarde eu já apertava meu mouse com força demais, pensando em formas de envenená-los.

Ri do pensamento. Desatino. Matá-los assim envenenados por conta de uma piada de barba mal-feita. Desatino. Fiquei sério. Chumbinho é tão barato. Desatino. Quem sabe amanhã?

 

 

Acordei tarde. Corri. Estou sempre correndo. Minha barba esta mal-feita a três dias. Adotei o estilo. Um lado maior que o outro. Meus olhos estão vermelhos.

Você não me deixa em paz. Minha secretária desligada da tomada continua com sua voz. Sonhei que você estava presa na fita da secretária e por isso sumiu. Acordei de madrugada e tirei a fita de lá, puxei aquela fitinha marrom até o final e coloquei-a do meu lado na cama. Dormimos abraçadinhos, eu e você, eu e a fita.

Chorei quando acordei. Destruí a fita e agora perdi sua voz. Será que você volta agora que te libertei?

 

 

Acordei. Temos mesas iguais aqui no trabalho. I-D-Ê-N-T-I-C-A-S. O que muda é quem está sentado nelas. Eu sento, Rogério senta, Maurício senta. A mesa muda. Quer dizer, o ambiente se transforma. Não posso evitar. Eu vejo o ambiente mudando. Cada um com uma cor. Cada um de um jeito.

Hoje eles riram menos, mas ainda assim riram. Roxo. Raiva. Desatino. Chumbinho é barato.

O telefone tocou. Deixei cair na secretária e ouvi sua voz. Gritei. Peguei a secretária e joguei no chão. Destruí a fita. Não poderia prendê-la de novo.

Eles me seguraram pelos braços. Eu me debati.

 

 

Não dormi. Não perdi o emprego. Fui pro setor médico, estresse bláblábláblá. Decidi não correr. O tempo que se foda. Você continuava dormindo na cama, brilhando marrom com a luz do sol.

Demorei no banho limpando sujeiras em locais que eu não sabia que tinha. Fui a pé. O remédio para me acalmar deixou tudo mais devagar, mais cinza. Minha cabeça fica leve e eu fico brincando de conectar as coisas. Cores. Pessoas. Cinza.

Me olharam com medo. Não riram. Verde-musgo. Medo.

Sorri quando elas passaram. Mudaram a secretária.

– Marcelo? Você está aí? Me ligaram ontem, eu soube que você passou mal ou alguma coisa do tipo. Estou pensando em passar na sua casa esse fim de semana. Podemos tomar um café. Estou com saudade. Beijo.

Não entendi. Você na minha cama, presa na secretária ou lá em casa no fim de semana?

Tanto faz. Branco. Cor das pílulas.

 

 

A buzina me acordou. Tarde. Fui devagar. Beijei você na cama. Barba maior de um lado do que outro. Comprei chumbinho no caminho. Matar ratos eu acho. Cinza.

As mesas são iguais aqui. As paredes apertadas. Café. Marrom. Eles riram pelas minhas costas. Lembrei dos ratos.

Chumbinho. Vermelho. Cor do sangue que eles vomitam.

Passei por eles. Indiferente. Ri.

“Ri melhor quem ri por último”?

Fui pra casa.

 

 

Você bateu na porta me acordando. Antes de levantar te beijei na cama. Abri a porta e te vi. Você riu carinhosamente da minha nova barba. Não gostei, mas não falei nada.

– Por que você sumiu?

– Eu não sumi. Você estava presa, se lembra? Na secretária.

Franziu o cenho. Azul. Balançou a cabeça.

– Não. Eu estava esperando você me ligar. Por que você não ligou? E afinal de contas o que deu em você para deixar essa barba ridícula?

Roxo.

– Aceita um café?

Ratos.

Vermelho.

Você na cama.

 

 

Acordei com batidas e gritos.

Eles entraram, muitos deles.

– Senhor Marcelo Coutinho, o senhor está preso pelo assassinato…

– Mãos ao alto. Corram. Corram. Tem mais uma aqui.

Me debati. Gritei. Tocaram você. Homens vestidos de branco. Te tocando. Jogando no chão você-marrom-livre e colocando numa maca você-roxa-pálida.

– Não!!!

Me soltei. Corri para você, no chão, toda enroladinha, tão frágil no seu brilho lusco-fusco amarronzado. Te beijei, prometi ficar do seu lado. Chorei.

Eles me olharam. Pena.

Pedi pra te levar comigo.

Eles deixaram.

 

 

Acordo. Você está sempre aqui. Tudo branco.

Confuso. Acolchoado.

Sem secretárias. Você livre.

Não preciso mais correr. Aqui não.

Te beijo antes de fazer minha barba.

Um lado maior que o outro.

 

Anúncios

Tags:, ,

%d blogueiros gostam disto: