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Letra e Vídeo

Literatura musical

 

É um retorno difícil o que faz, um de tantos que ainda guarda na memória e de muitos que virão. Chegou a acreditar que ali não teria problemas, mas a crença se desfez logo que cruzou a fronteira e o vento trouxe o já familiar cheiro da morte. Vinha presenciando a destruição como fato corriqueiro desde o primeiro dia no bairro, mas sabia que agora era diferente. Sempre era.

A cada passo que dava, velhos aromas invadiam as narinas trazendo restos de informações. Os resquícios de fumaça avisavam que nada era por acaso. O fogo tinha dono, tinha alvo. O calor dessa vez não viria de saques ou invasões. Estaria mais próximo, baforando em seu rosto uma repugnante intimidade, indo contra tudo o que havia aprendido durante a dormência no topo do edifício.  No ar, imiscuído no carbono, ele percebia sua antiga casca e os parentes mortos, odiando cada vez mais a precisão de seus sentidos. 

Não era a noite que o camuflava, mas o caos natural da parte esquecida da cidade. Antiga zona industrial, nem a polícia se arriscava a rodar por aquelas ruas. A maioria dos homens vagava a esmo, distante das leis do tempo, tentando retomar a crença de que algo maior os salvaria. Um dia, era o que esperavam. Um dia qualquer em que. E daquele dia em diante então. Já ele não tinha crenças, não lhe incomodava a lei ou a falta dela. Acreditava no que via durante o repouso e na dor provocada pela luz quando novamente seus olhos a encontravam. Do restante, desconfiava.

Ninguém se aproximou quando ele parou diante da casa, observando as paredes negras de fuligem e a porta jogada no chão. Sabiam que sua mulher e filho estavam lá dentro, esperando em silêncio embaixo dos destroços, e que nada de valor tinha sido deixado para trás, nada que as labaredas não tivessem consumido. O que só ele entendia é que havia um motivo maior a ser descoberto, algo que passava longe dos roubos ou acertos de contas que moviam as chacinas na região.  Das primeiras vezes em que perdeu a família, se perguntou do que adiantavam as revelações no casulo se não conseguia saber o motivo da eterna matança. Com o tempo, se limitou a enterrar os corpos, seguir seu ritual e fugir até encontrar um lugar que considerasse seguro e alguém para gerar sua cria. Era isso o que fazia. Repetidamente. Até agora.

Talvez eles não soubessem de tudo. Desconhecessem que sua força aumentava a cada período de dormência e que seus sentidos se refinavam mais e mais.

Movendo as vigas sem muito esforço, chegou ao corpo de sua mulher ou o que restava dele.  Limpou com a saliva o pó negro da testa até que o furo da bala e a crosta cor de vinho fossem os únicos desenhos, esses irremovíveis. O corpo do filho estava longe, queimado em um canto da cozinha com os fiapos de seda dissolvidos ao redor. Com a ponta dos dedos, raspou no pulso a corda queimada e liberou a criança morta aos três anos de idade. O ângulo em que o corpo se encontrava era improvável mesmo para um dos seus.

Pegou o cadáver nos braços e voltou para a sala. Ao se aproximar da mulher, sentiu a cabeça girar e caiu sobre os joelhos. As marcas na pele começaram a se intensificar.  A sensação era forte. Mais do que os habituais cheiros enlouquecendo as sinapses, recebeu fragmentos de imagens, vozes distorcidas, o grito do filho no instante em que o fogo o consumiu.

Abriu os olhos negros na escuridão. Um fiapo de luz o iluminava, uma luz que existia no passado e cortava a sala em busca de suas vítimas. O primeiro homem entrou na casa e atrás dele outros mais. Sua esposa só teve tempo de levantar e tombar, a bala atravessando o corpo silenciosamente.  Havia agitação do lado de fora, o ronco de um motor. O choro do menino entregou sua localização. Soldados de uniforme e máscara o trouxeram nas mãos, dependurado. Não houve gritos de euforia, os mascarados se comunicaram por gestos, chamando alguém lá fora. Protegido pelos atiradores, um homem sem máscara entrou na casa e pegou a criança no colo. Finalmente seu perseguidor ganhava um rosto. Tentou acertá-lo em vão, os punhos cortando o vazio. Não podia tocar nas lembranças. Vomitou quando jogaram o menino no fogo. As imagens desapareceram. Os cheiros não.

Depois do enterro dos corpos, respirou profundamente guardando a identidade dos inimigos em seus pulmões. Não, eles não sabiam de tudo. Poderia farejá-los em qualquer lugar da cidade, em qualquer canto do mundo. Finalmente assumiria o papel de caçador.

Andou pela casa bem devagar, coletando as pistas olfativas. Madeira podre, sangue, alvejante, mijo. A cada traço novo no ar ele fechava os olhos, trazendo de volta as feições do assassino. Jamais se apagariam.

Novamente no hotel, largou o key-card roubado e foi para o banho escorrer sua antiga vida. Ainda não era capaz de unir os sentidos, mas assim que conseguisse mataria cada um deles, seus pares e famílias, com rosto, gosto, nome e sobrenome. No momento, tudo o que precisava era libertar seu corpo e voltar para o casulo. Lá dentro, descobriria o que fazer.

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