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Letra e Vídeo

Literatura musical


 
Ele me recebeu com o desdém dos que sabem que não precisam ouvir aqueles que nem deveriam estar vivos. Eu me pergunto se deveria ter vindo. As chances de conseguir qualquer coisa… um farrapo de informação ou fragmentos de ossinhos que fariam a felicidade de qualquer arqueólogo, são mínimas.
 
A expedição para as terras do círculo de chamas estava para partir e eu queria uma vaga, precisava de uma vaga. Minha aparente obssessão era tolerada como qualquer interesse acadêmico parecia ser pelo nosso déspota esclarecido. Tinha mesmo que investir nessa impressão, mesmo que os reais motivos tivessem que ficar recobertos sob as camadas de salamaleques sutis, os quais me franqueariam os dados que me faltavam.
 
– Meu caro Vorparashu, eu não entendo porque você precisa arriscar sua vida. Monte e alugue uma trupe. Quando a infraestrutura estiver arrumada aí você pode comandar as operações.
 
Meu colega de sala já me aturava há dois ciclos acadêmicos completos e só as tempestades de poeira que agora sobrenadavam as fímbrias de nossa pequena comunidade de pesquisa o impediam sair pela cortina afora e me deixar falando sozinho quando eu entrava nos “modos do delírio”. Eu sabia que ele nunca entenderia, mas acho que ele intimamente percebia que eu levava mortalmente a sério uma posição que muitos só usavam como mero trampolim para ter acesso os círculos das benesses. Ele se ocupava por vezes de favores que eu lhe pedia, pois suas atribuições não requeriam sua constante presença e supervisão. Uma sondagem aqui, uma compra acolá, e eu ia montando meu quebra-cabeça de forma imperceptível a todos inclusive a meu amigo. Por sua vez ele tinha acesso livre às minhas contas de paralelismo encéfalo-concatenantes o que fazia para me sentir equilibrado em amizade e respeito. Ele usou até parcamente os direitos que lhe fraqueei, mas também teve seu quinhão de vantagens. Foi uma boa simbiose.
 
Um dia eu mostrara a ele um estranho artefato que por vezes, ao ser colocado no sol acendia umas pintas azuis e laranjas, emitindo um fraco zumbido de inseto-melífero, para pouco depois entrar em hibernação. Algo assim ter sido desencavado dos fundamentos de um antigo templo à divindade oscilante era um tipo de configuração que não batia com as expectativas das publicações oficiais.
 
– Ei, Shikander, você se incomoda de gravar esta imagem para mim?_ Ele estava dando mais uma volta em seu laçarote de bandagens em preparação para encontrar sua parceira da semana. Provavelmente eu estava para ouvir um sonoro palavrão quando, ao se aproximar ele mesmo já carregando a manopla de reprodução, estacou em meio ao habitual chute que iria desferir sobre meu traseiro e, boquiaberto, rapidamente deduziu o que parecia ser o primeiro conjunto de dados imagéticos da sonda recém-posicionada nas brenhas mais fundas da vasta depressão salgada de Kiys.
 
– Vor, isto não é o que eu estou pensando que é?
 
– A lendária estátua perdida de Varthor? Os ícones não deixam dúvidas. Os textos não dizem que o complexo de cidades-moradias do Ser-Deus Keyin era encimado pela estátua da primeira exploradora? Pois lá estão as cidades. Tenho que me infiltrar no grupo de prováveis escolhidos pelo sumo-déspota.
 
– Você não acha que vai ter que oferecer uma motivação melhor do que um “eu quero muito”? Os acólitos sempre têm seus preferidos…
 
E foi assim que eu decidi descer do pedestal do orgulho e solicitar uma audiência. Fiz a mias seca alocução gravada nos formantes de acesso do secretariado. Já me preparava para um longo ordálio de esperas, negociações e trocas prospectivas de favores quando recebi a confirmação menos de um dia após meu pedido. Tinha que aproveitar a oportunidade de celeridade única e cravar uma cunha de determinação entre as decisões e as procrastinações dos decisores do palácio. Após colocar o traje respeitoso minimamente necessário enfrentei a tempestade da tarde e consegui chegar na hora do ante-repasto palaciano.
 
A expressão constantemente desdenhosa do sumo-déspota se desvaneceu num largo meio sorriso quando ele me viu e, para espanto meu, dispensou o acólito ouvinte que ditava um de seus barrocos discursos e se aproximou de minha empoeirada figura, em passos de dançarino
 
– E quem vem trazido dos ciclos? Hohoho! _ Um tapinha amigável com os nós dos dedos quase me atira de volta para a eclusa de decantação de pó. A força do líder era bem conhecida, mas ele parecia sempre saber quando parar e, antes que me desse conta, guiou minha desconjuntada figura ao hall dos contempladores na sacada secundária do pátio.
 
– Você me parece ter bons motivos para ser tão direto, hem? Hohoho! Não fique com essa cara de quem não sabe o que dizer a seguir. Eu gosto de vez em quando de me livrar destas mascaradas e cerimoniais. E como você foi refrescantemente direto em seus formantes (que, por incrível que pareça, foram lidos por mim antes que pelos meus acólitos filtradores) eu também o vou ser: Nós estamos em comunhão de interesses, meu caro pesquisador. Não, eu não sou arqueólogo amador nem estou querendo mais uma validação dinástica. Eu quero a mesma resposta que você!
 
Enquanto eu dava tratos à bola para decidir se devia dar suporte ao monólogo com alguma anuência ou muxoxo ele, percebendo minhas hesitações, ligou um canal imagético particular. Qual não foi a minha surpresa quando vi uma planta completa do complexo de cidade de Keyin no abstrator. E mais uma imagem me deixou alarmado: Minhas suspeitas tornadas reais. Uma imagem celeste com linhas brilhantes ligando nosso orbe a uns poucos e esses a outros tantos poucos, com os ícones sagrados disseminados pelos localizações das diferentes girândolas de fogo do céu.
 
– É meu caro… – Me dizia o agora quase-íntimo déspota. Se tuas pesquisas estão certas amanhã de manhã mesmo estaremos respirando ares menos empoeirados. Hohohoho!

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