Skip to content

Letra e Vídeo

Literatura musical

A Diabólica Comédia 

– Nunca mais um eunuco do senhor! 

Aquilo foi dito com tamanha determinação, ainda no interior do palácio real, que não deixou dúvidas quanto à seriedade do momento. O guerreiro deu as costas a seu antigo comandante e mais à frente, quase na saída daquele ambiente opressor, se voltou para tornar a gritar, agora batendo o punho direito contra o peito largo: 

– Deste dia em diante exerço a força em meu nome, estás ouvindo? Apenas em meu nome. 

Já na rua, não houve necessidade de outras demonstrações tão enérgicas. Aos descontentes que o esperavam só um sinal de cabeça já bastou; eles o seguiriam para onde quer que fosse, sem hesitações. Assim foi feito. Das mãos de um serviçal que o aguardava subserviente, o guerreiro pegou a espada flamejante, a mesma que tanta desgraça e destruição causou em nome do mestre que acabara de abandonar. 

Novamente armado, ele rumou com passadas largas às estrebarias do reino. A multidão de seus seguidores se limitou a observá-lo de longe. O soldado amotinado escolheu entre os garanhões ali guardados o de cor vermelha, o  mais vigoroso e indócil de todos. O cavaleiro, dono daquele animal, se aproximou para tentar entender a situação e ouviu a voz que não pode ser desobedecida. 

– Vou levar sua montaria como símbolo dos meus intentos. Mas esperai, tu e teus irmãos, pois voltarei aqui em breve para pôr fim a essa ociosidade que atormenta a todos que não suportam mais os desmandos deste déspota. Este vai ser o dia em que a guerra saciará a fome e a sede com recompensas por tanto tempo adiadas em nome da covardia. 

O cavaleiro não demosntrou nenhuma objeção, pelo contrário; abriu passagem ao revoltoso com um sorriso nos lábios, só escondido pela barba grossa, e tomou o caminho de casa para avisar os três outros gêmeos que os dias de glória, há tanto anunciados, não tardariam a chegar. 

Espada nas costas, montaria entre as pernas, o soldado se retirou do reino escoltado pela legião de seus guerreiros fiéis. Muitos outros o teriam seguido, mas o temor de desagradar a ira do senhor daqueles domínios não permitiu tamanha ousadia. Porém, mesmo o mais inocente dos querubins sabia que os dias nunca mais seriam os mesmos e que a semente da dúvida naquele momento semeada logo geraria frutos. 

A jornada dos revolucionários que abandonaram as Terras Altas não seria rápida nem seria fácil. Antes de chegar a seu objetivo, eles passaram por cidades intermediárias, na nação em eterno litígio entre as duas potências da época. Mesmo sabendo da importância da disciplina entre as tropas, o general do exército rebelado permitiu o saque àqueles lugares durante a longa passagem. Pilhagem, bebidas e mulheres fariam bem ao moral da soldadesca, há tanto tempo vivendo sobre regras que a todos incomodavam e que, ao fim e ao cabo, foram o motivo fundamental para que seguissem o novo líder. O intervalo seria útil também para que o guerreiro pudesse mandar batedores avançados ao destino final da marcha, para adiantar os planos que tinha em mente e que compartilhara com bem poucos de seus legionários. 

Quando finalmente chegaram às portas do Reino Inferior, para a surpresa de muitos dos comandados, já havia um exército para recepcioná-los. As forças locais excediam em muito o contingente dos visitantes, tanto em número de soldados, quanto na força das armas. Além disso, os defensores estavam muito mais bem posicionados, num ponto elevado de uma escarpa inexpugnável. Tantas vantagens deram coragem ao soberano para acompanhar pessoalmente esta campanha, ao contrário do que era de se esperar de um ser conhecido por operar nos bastidores e por evitar, sempre que possível, embates físicos. Lá estava ele, à frente de seus muitos generais, olhando com ar zombeteiro os recém-chegados. Certamente, ele iria exigir que todos depusessem armas e lhe jurassem fidelidade e lhe prestassem honras para só então serem admitidos em seus domínios. 

Porém, antes que qualquer um dos dois comandantes das frentes antagônicas pudesse proferir palavra, uma voz se fez ouvir vinda da liteira de aspecto frágil que seguia os defensores do Reino Inferior. Era a voz da mulher que já era rainha de lá antes mesmo da chegada do atual mandatário, o usurpador que matou seu primeiro marido, tomou a coroa ensanguentada e ela mesma como despojos de batalha. 

– Tragam a cabeça de Lúcifer em uma bandeja, para mim. 

Acostumado a trair, o Príncipe das Mentiras não esperava por aquele golpe. Não teve nem tempo de esboçar reação quando as mãos daqueles que ele esperava fossem seus mais fiéis servidores o agarraram e o puxaram para uma sessão de torturas cruéis. Garras rasgaram a carne que não é carne e fizeram jorrar o sangue que não é sangue. Muitas vinganças ansiosamente aguardadas foram saciadas naqueles momentos de fúria. 

Foi Belzebu o demônio encarregado de cumprir os detalhes da ordem pronunciada a partir daquela liteira. Mas Perséfone não se encontrava mais no objeto luxuosamente decorado. A rainha estava agora ao lado de seu novo amante, montada com ele no cavalo encarnado que se excitava com o cheiro de sangue vindo da cabeça de olhos arregalados e boca entreaberta que jazia entre seus cascos. Não se sabe ao certo quem puxou o coro, mas ele logo foi acompanhado pelas milhares de vozes dos anjos e demônios ali reunidos, a tal ponto de o brado ser ouvido nitidamente por todos os habitantes dos três reinos: 

– Ave, Gabriel, o novo Imperador do Inferno! Nos guie na vitória final contra Deus e a Humanidade!

Anúncios

Tags:, ,

%d blogueiros gostam disto: