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Letra e Vídeo

Literatura musical

 

Apocalipse Particular

 

            Estava tudo milimetricamente preparado.

            Olhava-se no espelho do banheiro, concentrando-se para o discurso dali a pouco. Repassava as palavras escritas magistralmente por sua assessoria: estaria ao vivo em todas as televisões, rádios e sites do planeta dentro de poucos minutos. Seria o anúncio mais importante de toda a sua vida, era um dia extremamente feliz, depois de planos feitos por todos os anos!

            Logo todas as guerras terminariam e o mundo retornaria a um ciclo de paz e prosperidade!

            Anunciaria que logo toda a humanidade seria salva! Afinal, toda a fome que dominava o mundo terminaria, os terroristas não tirariam a água e os alimentos da população de bem, as doenças que se proliferavam sem fim naquela massa humana pobre e faminta terminariam.

            O povo que representava, os eleitos para desfrutarem do mundo, logo o teriam para si, purgado de todo o mal da humanidade! Tinha sido posto no poder por uma cadeia de sucessão sem fim, viera de um conglomerado industrial. Um dos cinco que controlavam 98% da economia mundial – que, na verdade, pertenciam ao mesmo pequeno e seleto grupo de pessoas.

            Os exércitos dos países inimigos tinham sido destruídos de forma eficaz, um trabalho perfeito de seus antecessores e dos espiões infiltrados de seu governo. Sem inimigos, a paz estava implantada! Era o Supremo Chanceler, o governador do mundo, o zelar por aquelas bilhões de almas estava em suas mãos!

            E claro, para que seus filhos e netos pudessem desfrutar do melhor pedaço de solo para construir sua casa ultratecnológica, ter os alimentos mais saudáveis, a água mais pura e estarem livres das doenças, precisava eliminar as pragas que se reproduziam como formigas, os terroristas.

            Eles não podiam aceitar a tecnologia? O mundo era daquele jeito mesmo, era preciso se conformar que para o conforto de milhares de privilegiados, que podiam consumir produtos dos cinco grandes conglomerados, os outros milhões não poderiam ter o conforto que desejavam. Eram apenas pobres almas controlados por religiões fanáticas e líderes sanguinários! Como poderiam tentar ir contra instituições criadas já há séculos?

            Mas é claro que eles não entendiam isso, nem depois das armas químicas instaladas – porque para que as crianças puras sobrevivam, é preciso destruí-los antes que as degolem -, dos bombardeios, do fim das pesquisas da cura das doenças que os afligiam. Precisavam entender que eram um entrave para o desenvolvimento do mundo!

            Então, entraria em rede mundial naquele momento, a partir de uma das colônias espaciais, onde as pessoas que tinham dinheiro para pagar o traslado se refugiavam do mundo caótico.. Faria um discurso sobre como os próximos tempos seriam bons e plenos, como o progresso viria a passos largos.

            Em seguida, das colônias, as cidades terrestres seriam bombardeadas. As chances eram de que as pobres almas que roubavam os recursos de seus escolhidos seriam eliminadas em praticamente sua totalidade.

            E se faria a evolução.  

             

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