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Letra e Vídeo

Literatura musical

 

            A primeira vez que ouvi a canção “A Beira do Pantanal”, de Raul Seixas, achei o ritmo hipnótico e desconfiei que aquela cadência monótona escondia mais coisa por trás dela. É o tipo de música que é escrita propositalmente pra combinar com uma letra e não ao contrário. Então suspeitei que o ideal seria ouvi-la a meia-luz, com um trago forte. Foi o que fiz. Absorvi a canção como um gim amargo, mas encorpado pela produção. Foi impossível não terminar de ouvi-la e correr os dedos pelo teclado para retratar o que descobri ali.

 

 

            À Beira do Pantanal

 

          

            Sol ardido em minha nuca. Preciso do meu chapéu. Mas o esqueci quando te abandonei. Agora é tarde. Não volto mais. Nunca mais. Tenho que remar para esquecer. Remar para te esquecer.

            Onde está o gim? Procuro, encontro e entorno. Prefiro uísque, mas você não tinha na cabana, peguei gim mesmo. Amargo demais, mas não tanto quanto meu peito. Não tanto quanto o nó em minha garganta ao te dar as costas e partir. Vou remando para esquecer. Bebendo e remando, deixando você para trás.

            Um crocodilo passa preguiçoso, fazendo a água calma do Pantanal serpentear. Lembro como criança de doces, do balanço de seu quadril. Cintura perfeita. Pilão talhado à mão. Corpo belo e singelo, como poesia parnasiana. Que droga, onde está o gim?

            Os mosquitos assoviam no meu ouvido, picam, furam, melam depois de espalmados. Sangue meu devolvido a tapa. Mas isso não incomoda. Incomoda é o zumbido persistente. Incomoda é a sua voz que na lembrança eu guardei:

            “Por que meu querido, por que meu amor, cravaste em mim seu punhal? Meu peito tão jovem sangrando assim, por que este golpe mortal?”

            Frase figurativa, mas de impacto. Sei que não ligou pro punhal. Ignorou e deixou de lado. Ouço mais atrás, na curva que deixei há pouco, o som de remos. É você que vem atrás de mim. Não entende que não te quero. Remo mais forte. Remo pra te deixar para trás. Bebo o gim amargo. Remo com vigor deixando você se tornar passado.

            Mais de dois anos vivi na cabana a teu lado. Não sei como nos encontraram. Fora o marido traído ou você mesma contou a alguém nosso paradeiro? Não sei pouco me importa. Não te quero mais. Fique agora no meu passado. Deixo-te pra trás.

            O jardim que plantei para você nos fundos da cabana. Jardim belo que todos os dias reguei com meu amor e devoção é a única lembrança que terá de mim. Ele e meu chapéu que deixei caído em algum recanto da cabana. Lembrar de você regando a terra onde preparei o jardim é uma bela visão. Trabalhamos juntos e fui feliz aquele dia. Fiz-te um gesto sagrado de amor e por ele a terra você regou.

            Como posso olhar para trás e esquecer que já te amei com devoção. Nem lembro o que foi que me fez calar teu coração. O meu se calou algum tempo atrás, quando me encontraram e vi que não era tu quem remava atrás de mim.

            Estou aqui em minha cela, revivendo agora o que passei, escrevendo o que senti e pensei. Revendo o Pantanal na tela fictícia de minha memória. Rememorando o que me trouxe para esta prisão. Julgado. Condenado. Culpado. Culpa de amor, por amar errado. Eu e você pegamos perpétuas. Eu no concreto e aço, você deitada em seu regaço à beira do Pantanal. A lei dos homens me condenou: “Perpétua será tua prisão”. Porque fui eu mesmo quem calou, com aço o teu coração.

            E eu preso aqui nesta cela, deixando minha vida passar, escuto a tua voz, no vento que vem perguntar:

            “Por que meu querido, por que meu amor, cravaste em mim seu punhal? Meu peito tão jovem sangrando assim, por que este golpe mortal?”

            Queria apenas que parasse de me visitar todos os dias. Que não cruzasse as paredes de minha cela, figura passiva e etérea. Que nunca mais me despertasse com beijos antes de retornar para tua morada. Dei-te paz, um jardim, uma morada. De ti não quero mais nada, mesmo que teu espírito ainda clame por mim. Mas você ainda assim me ama, me segue, não me deixa, pela minha alma aguarda, enquanto chama.

 

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