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Letra e Vídeo

Literatura musical

A Árvore de Trinta Centímetros 

Certas coisas são mais fáceis de se resolver com uma conversa ou duas. Veja por exemplo essa cena. Imagine um nerd largado A encontrando um nerd largado B em uma seção de quadrinhos de megastore, em um shopping center. O nerd largado A olha para o nerd largado B, que folheia uma edição definitiva do Cavaleiro das Trevas do Frank Miller. Como a edição em questão inclui tanto a obra clássica quanto a continuação que é puro lixo, o nerd B decide colocar de volta na estante e deixar pra lá. O nerd A estica a mão e pergunta “posso ver?” ‐ pegando o material sem problemas.

Rapidamente uma garota muito bonitinha passa por eles. O nerd B não a notou, por estar folheando já outra coisa. Então o nerd A simplesmente dá um toque. “Olha aquela menina.”

De repente os dois estavam olhando. Ela era uma graça. E para surpresa do nerd B, o nerd A diz simplesmente. “Ainda bem que não estou namorando uma menina assim.” Antes de que o nerd B pensasse que o nerd A é algum tipo de viado, o nerd B simplesmente emenda:

‐ Já pensou o quanto custa ter uma namorada assim?

‐ Como?

‐ Verdade. Essas aí, só com carro. Eu não tenho, você tem?

‐ Não…

‐ Pois é. Essa é a idéia. Ela tem cara de baladeira. Precisa sair, ir para os lugares, ver, ser vista… viu o decote dela?

‐ Vi…

‐ Realisticamente, acha que qualquer um de nós dois tem chance de pôr as mãos ali?

O nerd B hesitou ‐ era péssimo para a auto-estima dele, mas já que era para ele responder realisticamente…

‐ Não. Acho que não.

‐ Ah, menina como essa já tem namorado. Fêmeas dessa espécie não ficam às traças. Terminou um, outro já pôs a mão. E é um com grana, que a leve para os lugares… Bom, eu olho de forma positiva. Quer dizer, imagina o tipo de postura que eu deveria ter para pegar uma menina como essa, porque senão ela me colocaria um par de chifres e partiria com o primeiro sujeito com mais grana no bolso. Como é que você acha que essas meninas olham para gente? “Ah, ele lê revistinha…” ‐ respirou fundo, com um pouco de enfado. “Melhor pegar uma menina mais simples e que não dá tanta dor de cabeça, não é?”

‐ É…

Fez-se um silêncio. O nerd largado A pegou um volume de “Os Supremos” em capa dura e disse “bom, vou lá para o caixa. Até.”

O nerd largado B ficou com aqueles pensamentos na cabeça. 

 

 

Agora vamos observar outra cena, na mesma megastore. Seção de cds. A menina que passou por eles ‐ vamos chamá-la de Patricinha A ‐ começa a fuçar alguma coisa que interesse à ela. James Blunt, Ivete Sangalo, essas coisas que tocam em rádio. Então outra menina, que vamos chamar de Patricinha B, estica a mão e pergunta “posso ver?” ‐ pegando o cd que a Patricinha A já estava pondo de volta na prateleira sem problemas. Olha para a capa do cd. Depois olha diretamente ‐ é visível, daquela parte da loja ‐ para a seção de livros e quadrinhos. “Ah, droga. Lembrei que tenho que arrumar um presente para o meu primo.” Fez um sinal de cabeça apontando para os dois. A Patricinha A, que não estava nem aí para eles, os olha. Os dois acima do peso. Um estava com a barba rala por fazer. A Patricinha B continuou: “Pensando bem, o melhor presente que ele precisa é uma namorada, não é?”

A Patricinha A olhou para eles. “É.” Mas algo lhe passou pela cabeça: Quem iria namorar com aqueles caras largados? Como se pudesse ler sua mente, a Patricinha B rebateu: “Eu é que não entrava nessa. Mais fácil comprar um gibi daqueles caros para ele, mesmo. Você entrava?”

‐ Eu? Eu é que não.

‐ Não é pelo gibi, claro. Não julgo as pessoas assim. É pela falta de auto-estima. Você malha, não é?

‐ Malho.

‐ Pois é. A gente se cuida, quer ficar bonita, quer se tratar… a gente gosta de si mesma. Como é que dá pra ficar com um cara que nem gosta de si mesmo? Claro, eu não sou de julgar os outros também, mas se uma amiga minha anda com um cara assim, eu mesmo dou um toque para ela. A gente precisa se valorizar. Minhas amigas também pensariam que tem algo errado comigo se meu passe valesse tão pouco, não?

‐ Claro, lógico, tá mais do que certo.

‐ Bom, a sorte é que eles não são de tomar muito a iniciativa. Você pode sair da frente do gol que eles medram e chutam pra fora…

A Patricinha A acabou rindo, enquanto a Patricinha B fechou a conversa com um “Bom, deixa eu ir lá e pegar alguma coisa pra ele. Tchau!” ‐ deixando a moça sozinha com seus cds. Ela ainda não havia escolhido o que iria levar. 

 

 

Bem mais tarde, o Nerd largado A e a Patricinha B se encontraram longe dali, em um lugar onde poderiam ter discrição total. E riram muito. Por que todos os filmes sobre viagem no tempo complicam tanto para se resolver uma coisa simples?

Cadáveres deixam rastros complicados. Mortes são facilmente perceptíveis. Porque os cineastas ficam pensando em andróides assassinos, que exigem recursos para serem produzidos, ou agentes mortais com armas até os dentes? Quem quiser ‐ ou puder ‐ desfazer qualquer alteração o fará facilmente; é só localizar quem saiu bancando o exterminador e cortar o mal pela raiz antes que ele o faça.

Contar com a natureza humana é bem mais fácil. Poucas horas depois, o casal fatalmente se encontraria: ele por ter pego um volume com dois cadernos fora de ordem na encadernação interna; ela por ter pego um cd prensado por engano com as faixas de outro artista. Os dois ficariam no balcão ao mesmo tempo e como o atendente se demorou por algum motivo, ambos acabariam puxando conversa. Ele tomaria coragem e pegaria o seu msn. Ela, que achou o sujeito simpático, não veria problema em adicioná-lo. Nenhum dos dois imaginaria que desse encontro acidental nasceria um romance e, relativamente pouco tempo depois, uma criança ‐ o homem que descobriria a cura do câncer. Algo que não agradava muito à indústria farmacêutica ‐ tradicionalmente comandada por homens que entregariam as próprias filhas pequenas a uma horda de estupradores se sua posição estivesse em jogo.

Graças aos seus medos, porém, era duvidoso que essa conversa acontecesse. As pessoas tendem a se guiar demais pelas aparências. Tudo voaria como uma sombra em seus atos e ditos a partir daquele momento. Os dois ficariam calados, com todos aqueles pensamentos em mente. Dizem que se uma árvore de trinta metros de altura tivesse a mente de um ser humano, e acumulasse todas as inseguranças e paranóias que costumamos acumular sem razão, não cresceria mais do que trinta centímetros. Claro, mesmo que o destino fizesse das suas e permitisse que ambos se reencontrassem e se entendessem em outro momento… bom, espermatozóides tem uma vida útil muito curta. Não haveria como o mesmo bebê ser concebido em datas diferentes.

Naquela noite, o Nerd largado A e a Patricinha B voltaram à sua época e racharam a grana do serviço, felizes e contentes. A indústria farmacêutica costuma pagar bem aos seus executores. Enquanto isso ‐ melhor seria dizer paralelamente a isso, já que “enquanto” é um termo muito relativo quando viagens no tempo estão envolvidas ‐ o Nerd largado B leu seu volume de quadrinhos e a Patricinha A ouviu seu cd enquanto falava com as amigas no msn. E dormiriam tranquilos, sem saber o que perderam.

Como não custa repetir, certas coisas são mais fáceis de se resolver com uma conversa ou duas. Para o melhor ou para o pior.

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