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Letra e Vídeo

Literatura musical

                                           O Clube dos Demônios

                                                    (Parte 1)

 

 

– Eu gostaria de por minha boca aí. – pediu.

– Nem tudo que mostro pode ser desfrutado. – respondi.

Segurou minha mão, giramos. Meu cabelo pendia em cachos abertos nas laterais do rosto. Era uma noite de risadas. Eu queria. Ele também. Dancei mais rápido. O salão cheirava a whisky e cigarros caros. Eu gostava dos dois. O vestido verde escuro caía como uma luva. Os sapatos não machucavam.

– Você sempre dança assim?

– Assim como?

– Como se quisesse dormir comigo.

– Eu só danço com quem quero dormir.

Sorri. Minhas bochechas doíam de tantos sorrisos. Essa noite eu era uma rainha. Todos me desejavam, eu sabia disso. Se eu fosse feita de chamas, todos queimariam seus braços só para me tocar. Sempre gostei de ser o centro das atenções e se eles me desejam, que babem por mim, que me ofereçam o mundo que eu mereço, o mundo que eu desejo e pertenço.

Peguei minha taça de champanhe, borbulhante como somente eu sabia que alguém poderia ser. Olhei para os cantos do salão, cada porta levando a um quarto, cada quarto levando a um mundo, um pequeno mundo secreto e privado, com seus segredos e perversões.

Essa é a noite perfeita. Eu enxergo no escuro muito melhor do que todos eles juntos, vejo silhuetas que aumentam meu desejo, eles me querem, mas eu quero elas. Pequenas e grandes, com curvas e concavidades, tristes e felizes. Quero o brilho nos olhos e os lábios macios. Essa noite eu tenho quem eu quiser. Não preciso me preocupar, o contrato assinado na entrada nos garante segurança, privacidade.

Meus dedos formigam de desejo, sufoco de necessidade. Olho ao redor procurando. Eles me seguem, pedem, imploram. Eu jogo. Eu desfruto. Eu brinco. Com eles só isso me interessa hoje.

– Meu quarto tem jóias que pendem do teto. Todas podem ser suas. Todas.

– Você sabe muito bem que mesmo que seu bastão fosse de diamante eu não o tocaria.

– Você muito me maltrata essa noite.

– Eu sei que você gosta. Mas hoje você não provará meus chicotes.

Perco o interesse muito rápido. Nenhum deles consegue me entreter. Olho para a esquerda e os olhos negros como a escuridão que tanto me apraz me encontram. Sorrio de leve, um meio sorriso. Ela anda até mim, meu estômago afunda.

– Percebi que hoje você quer um novo tipo de diversão.- diz ela deliciada com minha palidez.

– E eu notei que ela pode muito bem ser você.

– Eu me ofereci?

– Não precisou.

Passo meu braço por sua cintura, meu corpo inteiro está em choque, arde minha boca com minha saliva ácida. O mundo que me prometeram. O mundo que me pertence.

– Você já escolheu seu nome hoje?

– Súcubo.

– Deveria eu então ser Íncubo?

– A escolha é sua.

Ela abriu sua porta, a quarta da direita para esquerda. O quarto era espaçoso, com almofadas macias e uma cama grande, garrafas de vinho esperavam em um criado mudo, um par de algemas em outro, a janela dando para o rio caudaloso que nos cercava com a lua emoldurada no centro. Não tive muito tempo para expressar qualquer reação. Sua boca, nervosa e agressiva já mordia meu pescoço, seus lábios volumosos arrastavam-se por minha nuca arrepiada, tinha mãos fortes que me envolviam pela cintura, e uma voz ofegante que queimava ao chegar aos meus ouvidos.

– Este é o mundo que desejas? Então essa noite te concedo o seu desejo.

Não consigo manter a confiança inicial, ela me envolve com apenas um movimento. Ali naquele lugar quem manda não sou eu, quem domina não sou eu. Ela sorri com minha rendição, mas só vejo a metade de seu rosto. Ela retira os cabelos escuros e lisos do rosto, seus olhos rasgados brincam comigo, faíscando, brilhando, vasculhando meu corpo inteiro.

Percebo que ela se move melhor do que eu no escuro, sinto medo por ela dominar meu elemento, meu habitat, com tanta facilidade. Ela nota.

– Hoje eu sou Íncubo por sua causa, mas não é esse meu nome, você bem o sabe. Eu sou mais do que você imaginar e ser desejada por mim mudará sua vida para sempre. Se você quiser partir, eu te liberto. Mas se você ficar, saiba que nunca mais sentirá outro gosto a não ser o meu, que eu tomarei toda faculdade que lhe resta, e que nenhum demônio nesta casa ousará toca-la novamente, pois eu, dona deste lugar, a escolhi para me pertencer e mortais me pertencem até perecerem, e depois disto por toda a eternidade.

– Não existe mais escolha quando se passa por essa porta, a minha decisão está tomada.

 

 

 

 

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