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Letra e Vídeo

Literatura musical

A coisa toda aconteceu daquele jeito que você sabe, de repente, inesperada.
Eu estava tomando café do lado de fora do Departamento de Biofísica quando vi o clarão com o canto do olho. Só tive tempo de me atirar no chão e gritar. Quer dizer, acho que gritei. A explosão, os destroços, e o pior, a metade do prédio tinha sido moída pelo meteoro. Bem, eu achava que era um meteoro, mas só até dar uma boa olhada naquilo. Uma esfera, vermelho-sangue, cheia de arabescos indecifráveis que podiam ser tanto chinês quanto árabe – seria uma satélite espião? – mas eu na hora já tinha sacado que estávamos fodidos. Mesmo. Um ‘tssssss’ acompanhado de uma nuvem de vapor aumentou meu desespero: a bola estava abrindo. Um ser de cerca de dois metros de altura, esguio, pele negra brilhante como se tivesse tomado um banho de petróleo, com caroços e cicatrizes simétricas de alguma tribo muito do mal, saiu da carcaça esférica que estava aninhada nos escombros do que há menos de cinco minutos era chamado de Departamento de Biofísica da UFRGS.
Olhos brilhantes, verdadeiras chamas cor de rubi vasculhavam o entorno. Ele me viu, senti seu olhar penetrando nos meus átomos como se contasse a cada um dos meus quarks que eles iriam sofrer muito antes de ele acabar com o serviço. O serviço, claro, era destruir a Humanidade.
O nome dele não lembro direito. Chernobog? Onslaught? Godslayer? Um troço desses. Ele veio até mim e acho que me caguei. Devo ter me cagado, pois mais tarde me vi completamente sujo. O ser falou comigo.
– VIM DESTRUIR SUA CIVILIZAÇÃO.
Algo estalou dentro de mim, meu eu normal morreu e um tipo de exu Zé Pelintra se apossou do meu corpo.
– Ah, tá, pensei que só tinha perdido o freio!
A criatura me olhou perplexa.
– EU DISSE…
-Tá, tá, mas podia ter feito menos bagunça? Ou melhor, se veio para destruir, porque não arrasou tudo de uma vez?
Eu acho que o Destruidor de Mundos nunca tinha encontrado esse tipo de reação antes. Nos seus milhares de anos de existência, programado para destruir civilizações preparando a invasão dos seus mestres, ele deve ter encontrado apenas lágrimas de desespero, choro e pedidos de clemência. Não uma demonstração de irritação como se sente quando alguém do quarto andar joga um balde de água na nossa cabeça.
– A SUA ESPÉCIE SERÁ ELIMINADA…
– Olha, bicho, entra na fila. Acabar com a civilização? Que civilização? Acha mesmo que precisa nos destruir com alguma coisa que a gente mesmo já não esteja fazendo? E conosco mesmos? Queimamos hidrocarbonetos e jogamos o lixo no próprio ar que respiramos; mijamos e cagamos na água que vamos beber; envenenamos a própria comida; anulamos a própria inteligência; acabamos com o próprio sistema imune; jogamos bombas atômicas no próprio planeta em que vivemos; destruímos a própria camada de ozônio; eliminamos as geleiras que nos fornecem água potável. Meu, se liga. Precisa mesmo vir alguém para nos destruir? Não lê jornal, não?
O Destruidor piscou várias vezes. Parecia consumido pela dúvida.
– MAS MINHA MISSÃO…
– Ao diabo com isso. Vai tirar umas férias. Vai surfar na Polinésia antes que ela suma do mapa. Pega uma nativa gostosa e dá uns amassos por mim.
Uma sombra tomou conta da face do Destruidor. Ele suspirou, exalando muito monóxido de carbono. Felizmente eu estava a alguns metros de distância dele.
– TANTOS MILÊNIOS… ESTOU CANSADO.

Tomou de súbito um ar decidido. Aí eu posso ter me cagado de verdade ou de novo, porque pensei “Ih, fui longe demais e agora ele ficou uma fera. Tamos lascados!”. Ele rugiu para mim:
– DISSE-ME PARA TIRAR FÉRIAS E SURFAR. FAREI ISSO.
E desapareceu.
O resto é simples. Houve sobreviventes na chegada do Destruidor, e os putos ficaram de longe, olhando. Tudo que ouviram foi eu xingar o cara, e ele ir embora. Recebi medalhas, comendas. Mulheres dão pra mim de graça, agradecidas. “O Herói da Humanidade”. Legal.
Mas ontem de tarde chegou um postal de Fiji. Um crioulão de olhos vermelhos com uma puta duma body modification me agradecia o conselho de surfar, e disse que estava tão feliz que chamou uma turma para visitá-lo. Me tranformou em cicerone, e pediu-me para receber os parceiros dele pruma cervejada.
O convite já foi mandado, e estou com a impressão de que agora sim, estamos mesmo fodidos.

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