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Letra e Vídeo

Literatura musical

Primeiro o Homem Azul procurou por Narud Narud, o Velho. Eles já se conheciam da Velha Terra, de muito tempo antes. Começaram a conversar numa mistura de farsi com hindustani e páli; o Homem Azul tentou introduzir inglês e katalawn na conversa, mas Narud Narud não entendia, ou fez que não entendia (o que às vezes vem a dar no mesmo).

Narud Narud ofereceu comida para que conversassem em Galimatar. Mas o Homem Azul não entendeu. Ou fez que não entendeu.

À distância, o Major Tom tentava entender alguma coisa e tirar algum sentido.

Nada.

Olhou para cima. O céu era branco com nuvens cor de chumbo. O próprio sol parecia branco, o que dava às pessoas um aspecto meio fantasmagórico, meio surreal.

Sem perceber, começou a se afastar da tenda do turco (ou árabe, ou iraniano, ou indiano, para Tom todas essas etnias eram a mesma merda) para olhar o que havia mais adiante daquela balbúrdia que parecia um mercado persa dos filmes que ele via quando criança na televisão (será que ainda existia televisão?, ele se perguntou).

Começou a olhar para as tendas e os prédios de madeira e alvenaria na ruela onde estavam. Não viu nada que se assemelhasse a antenas, ou sequer a fios ou cabos. As pessoas nas ruas usavam todos os tipos de roupas, mas não usavam relógios, nem telefones, nem nada que ele reconhecesse como tecnologia.

À medida que caminhava, as cores das construções iam adquirindo um aspecto mais vívido. Algumas pareciam ter acabado de ser pintadas. Tons de verde, de amarelo, de vermelho em sua maioria. Aqui e ali um tom de azul. Quase nenhum branco. E definitivamente nada de preto.

Subitamente Tom sentiu um cheiro.

O impacto foi tão violento que o cheiro parecia ter sido carimbado, espremido, esmagado direto para dentro do cérebro de Tom. Era um cheiro, um aroma, um odor, um olor, algo que ele nunca tinha sentido na vida.

Ficou completamente arrepiado.

Tão arrepiado que tudo parou naquele instante. Não conseguia ver nada à sua frente a não ser a entrada de um beco, reluzente como se tivesse sido emolduradas por guirlandas de ouro puro.
Era de lá que vinha o cheiro. E era exatamente para lá que ele ia.

Até sentir a mão pesada no seu ombro.

– Não vá para os Surúrbios – ele disse a Tom. – você não tem dinheiro para tanto.
– Você quer dizer subúrbios – Tom disse depois de um segundo, ainda bêbado de sensações.
– Não – disse o Homem Azul. – Nos subúrbios você paga para se foder. Nos surúrbios você paga para foder. Ou ser fodido. É diferente.

Tom parou para pensar. Fazia sentido.

Mas se lembrou das sondas. A lembrança ainda estava fresca. E doía.

– Seu senso de humor é estranho – disse Tom.
– Na minha vida passada ele era melhor – responde o Homem Azul.

O Homem Azul era um TR. Os Tábula-Rasa eram um grupo que decidiu seguir os costumes dos escritores japoneses do período medieval Edo; de tantos em tantos anos, quando passavam por alguma mudança grande em suas vidas, esses escritores costumavam mudar de nome, e passavam a refletir em suas vidas e seus escritos suas mudanças. Os TR fazem o mesmo: consideram que cada ressurreição é uma oportunidade de começar tudo de novo. mudam seus nomes, mudam de lares, abandonam suas famílias, não raro mudam até de planeta.

TRs só não escapam do sistema judiciário – que não segue os costumes deles. Se algum indivíduo é condenado a prisão perpétua, nenhuma ressurreição pode mudar isso. Só faz ampliar a duração da sentença.

Por isso cada planeta tem leis de imigração muito rígidas. A vida pregressa de cada pessoa é cuidadosamente investigada. Cada novo chegante é sondado de forma bastante completa antes de ser liberado – ou deportado.

No começo, a idéia era de que essas pessoas em estado de espera, esses desterritorializados, ficassem nos próprios espaçoportos ou teleportos. Mas a coisa foi crescendo. Hoje, espaçoportos, por maiores que sejam, não comportam tanta gente. Para isso foram criadas as Cidades de Espera.
Purgatório é uma Cidade de Espera.

Foi para lá que o Homem Azul foi quando chegou a Dama Rigel.

E é lá que ele vai encontrar seu destino.

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