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Letra e Vídeo

Literatura musical

 

A importância do ritmo

 

            Era uma casa enorme, localizada em uma cidade pequena de um condado esquecido, lugar perfeito para um locked room mystery a ser desvendado por uma solteirona xereta ou um belga pernóstico.

            Mas não havia crime algum naquela mansão, construída em um estilo que lembrava o georgiano. Sua arquitetura era toda simetria, elegância e harmonia, qualidades também em comum das atuais ocupantes do imóvel. As duas jovens mulheres tinham a mesma altura, a mesma estrutura física, os mesmos cabelos lisos e negros, os mesmos olhos de um verde acinzentado e a mesma pele imaculadamente branca. Ainda assim, não eram gêmeas e nem possuíam qualquer algum grau de parentesco.

            Elas não tinham nome também, mas isso era o que menos interessava para Mr.Martinet, o rapaz de boina e botas de plástico que agora observava a casa. O importante mesmo era que ele fora o primeiro a chegar.

            Naquele ano, ele descobrira o endereço antes de todo mundo.

            Pois as duas mulheres sempre escolhiam uma nova casa a cada visita anual que faziam na cidade. E quem chegava primeiro tinha o privilégio – pequeno, na realidade, mas ainda assim era um privilégio – de escolher a posição.

            E todos sabiam como a posição era importante.

            Existiam várias delas: “atravessado sobre os joelhos” ou “apoiando mãos e joelhos no piso” eram as mais populares. Mas havia também “deitada com o rosto na cama”, “curvada sobre um banco”, “de pé e com o rosto virado para a parede”, entre outras só limitadas pela imaginação e, é claro, pela flexibilidade do corpo.

            O rapaz – dono de uma das maiores coleções de hentais do país –  escolheu “atravessado sobre os joelhos”; para alguém do seu tamanho, era uma posição em nada confortável.

            Dentro daquela casa não havia espaço para palmatórias, chicotes ou varas de marmelo; apenas a boa e confiável palma da mão, coberta por uma delicada luva, era usada. O segredo não era a força aplicada. Ritmo e a constância eram o que realmente importava.            

            Pelos próximos cinco dias, toda a população adulta da cidadezinha passou pela biblioteca da mansão.

            Mr. Janus, prefeito e corrupto;

            Miss Kane, aposentada e jogadora compulsiva;

            Mrs. Februs, dona de casa e de três amantes;

            Mr. Roue, açougeiro e agiota;

            Miss Blush, manicure e vinte quilos acima do peso;

            Mrs. Sapphire, veterinária e mimada;

            Mr. Hobbs, vigário.

            Todos meninos e meninas muito, muito maus.

            O som das palmadas e dos gemidos de dor e prazer só parava de ecoar pela mansão no final da tarde: era a hora do chá das cinco. Na manhã seguinte, os trabalhos reiniciavam.

            Na Sexta-feira, as duas jovens mulheres partiram da mansão; só no próximo ano voltariam a visitar a cidadezinha. Deixavam para trás moradores com saudades e nádegas coradas.

           

 

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