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Letra e Vídeo

Literatura musical

 

Estupidez Artificial

 

 

            – Nunca parei para pensar no processo que cria vida artificial (ou sentimento, ou inteligência) a partir da carne (ou barro, ou  silício).

            Acho que foi a última resposta que dei na entrevista na antesala do laboratório.

            A última lembrança é que não fui perdoada por alguém. E nesse estado foi fácil me entregar aos experimentos de um cientista decadente e ignorado pela comunidade. Seu objetivo era me transformar num objeto, num ser sem medo de cair, uma criatura de Frankenstein invertida, comatosa, cujo contato mais sutil com a vida seria especificamente delimitado.  

            Ao fim do experimento (que envolvia sedativos, lobotomias e detonação de redes neuronais específicas), fui colocada numa prateleira.

            Muito tempo depois, fui pendurada num gancho e entendi que poderia ficar ali por uma eternidade. Entendi, também, que o cientista que me modificara não era ignorado sem razão. 

            Com o pouco de afetividade e cognição que me restara, criei uma nova razão para viver, totalmente louvável, perfeita! Com as pernas balançando como sempre, articulei um sorriso num movimento labial intermitente e abri um olho. O cientista decadente, nada descabelado, detectou o sinal que aguardara por anos no laboratório empoeirado.

            – Está pronta para sair?

            Meu sorriso cresceu, num deslocamento muscular ainda não contínuo.

            O gancho foi virado. Bati no chão com tudo, como um saco de areia. Não duvidei que, de fato, houvesse areia dentro de mim. Enquanto levantava, vi a tatuagem acima do tornozelo. Um nome, possivelmente um apelido, e uma espécie de logotipo: um planeta Terra num formato que lembrava, de leve, um coração.

            Saí para a rua, dando passos aos trancos e a cabeça ainda compensando a oscilação pendular que embalara minhas pernas durante tempo indiscriminado.

            A nova vida que eu criara consistia em seguir andando e perdoar todas as pessoas e todas as coisas. Comecei perdoando o cientista que anulara meu rico mundo interior, que reduziu minha individualidade a um ser humano menos capaz e a um ciborgue ridiculamente obsoleto. Grande sorriso estroboscópico.

            Se algum dia encontrarem uma razão para me perdoar, talvez eu crie uma nova razão para viver.

 

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