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Letra e Vídeo

Literatura musical

Amuleto Paleolítico

Talvez sobre a minha cabeça se abra aquele vórtex de realidade que tanto persegui nesses anos de incessante loucura. Talvez nesse minuto de agora, eu esteja acordando na minha cama e vendo que esta realidade que construí como um castelinho de areia na beira do mar está finalmente desmoronando.
Eu nunca soube, eu nunca notei que na verdade, pelas costas, todos esperavam que eu caísse, que me sujasse, que minha loucura fosse conspurcada pela realidade maciça que cultivavam em estufas de veneno. Eu nunca soube que os sorrisos eram verdes de musgo.
Cansada demais para me lamentar, cansada demais de lamentar, sentir aquela agonia familiar, aquele toque gelado no peito, aquele sufocar suave do real, da idéia de que tudo aquilo era uma criação de um roteirista incompetente. O sonho era muito melhor, assistir seriados, chorar sobre livros, desejar estar lá, sair daqui, estar lá…
Todo mundo sabe que eu estou no meu limite, na linha tênue, a realidade não me basta mais, a chuva na cara não acorda minha mente desejosa por fantasia.
Caminho devagar até o dique, coloco os dedos na água suja da Baía, e me imagino sentada com meu único amor, em frente à um mar límpido, onde ondulam as memórias e ecoam nossas risadas. Sorrio de leve com o plástico sujo que bóia na água escura, mas que para mim é um peixe palhaço que beija meu dedão. Se fosse possível que a pintura formada nos ladrilhos da minha mente se montasse também na sua, poderíamos nos desligar por completo deste lugar de sacos e viver para sempre junto aos peixes.
Sinto o cheiro do esgoto e penso nos eucaliptos que nos rodeiam, pinto desenhos no céu, caminho entre pedras e vejo que as nuvens e o mundo ao redor se movem com o toque dos meus dedos.
– Todo mundo sabe que você está no limite. – confidencia a senhora garça ao pé do meu ouvido.
Seguro sua mão de leve e fecho os olhos, voamos hoje, voamos ontem, sobre a minha cabeça pesam as nuvens escuras da preocupação, mas a turbulência que elas causam no nosso vôo é pequena, não faz sacudir nossas sólidas estruturas.
Pinto seu rosto com aquarela, esculpo seus quadris em argila, passo os dedos por ela toda vez que sinto sua falta, amuleto paleolítico. Como salvar minha vida? Como salvar nossa vida? Me deixa tatuar em você meus poemas? Me deixa apagá-los com a língua? Me deixa amá-la até sufocar? O amor de lá é igual ao daqui, a realidade não me alimenta, mas o amor me satisfaz, me completa.
– O texto é lindo! – sussurra para mim. Peço mais, peço muito mais. – Maravilhoso! – sussurra de novo. Sinto seu ondular, penso no gramado, no vento, lembro dos sonhos rodopiando no roda-roda infantil, bandeiras coloridas de carmim, como as flores do jardim da rainha, girando as cores borradas.
– Todo mundo sabe que você está no limite. – assevera a senhora garça.
Choro sentada no banheiro, deixo a água cair sobre minha nuca e descer colorida, tingida pelas cores que exalo de cada poro.
– Eu vivo mais do que todos aqui! – grito para as paredes.
Você se achega, se aconchega, pede colo e dorme no meu peito que fica coberto de fios negros, olhinhos rasgados na madrugada. Me acalmo.
– Nós vivemos mais do que todos aqui… nós vivemos mais do que todos aqui…
– Todo mundo sabe que você está no limite – diz a senhora garça antes de voar.

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