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Letra e Vídeo

Literatura musical

Parte da instalação de Ravana era composta por corpos. Outra parte era o processo. Corria atrás dos clones, deixava que vissem sugestões de um rosto. Algo naquela genética, ou algo na sua estética, provocava um efeito imediato e particularmente fotogênico. Despencavam maduros, vítimas de uma loucura aguda que crescia raízes suficientemente profundas para interromper a decadência. A permanência do corpo após a brevidade da vida, leu um dia, e tomou como inspiração.

Era artista de detalhes. Calculava o percurso das marchas, media a velocidade dos passos, até que cada um dos alvos estivesse sob o foco de vigilantes lentes de cristal. Cada ângulo, cada membro enquadrado em digital. Se ainda havia alguém por trás das câmeras, se havia ainda alguém vivo em frente às telas, nem importava. Arte não necessita de olhos fugazes.

Meia hora correndo e a matéria prima começou a rarear. Menos um, menos dois, menos cinco corpos caindo e a execução já estava comprometida. Estava em uma rua perto do centro da instalação e, por alguma razão, acreditava, Ravana sentia que alguém o sabotava. Dobrou a esquina e teve certeza. Espalhados pela estrada, corpos largados numa repugnante displicência. “Esta é minha arte. Minha!”, protestou entre os dentes. “Minha exposição. Minha matéria prima. Meu direito de criar e destruir.”

Mas os corpos não pareciam mortos. Estavam, sim, ausentes. Vazios.

Calçou um par de luvas, enojado que estava. Um por um, em mais de mil, só viu cascas. Por trás das pálpebras, até onde alcançava a vista dentro das órbitas, havia nada além de nada.

“São uma linda platéia. Até simulam compreensão, mas travam quando o estímulo pede mais processamento.” Tinha o riso mais infantil que a voz. Poseur, por certo. Ravana avistou o que achava ser a fonte do comentário. Um diletante, por certo. Ou melhor, uma pequena diletante, correndo sem fuga. “Vem, vem! Vem ver meu jardim”, gritou a pequena e desapareceu no fim da via.

Ravana tirou as luvas, levantou e pintou com a mente um grafitti com aquele pequeno coração ainda em pulso, esguichando o sangue da criança. Podia aumentar o volume da música e improvisar a performance. Inspiração é uma puta sorte, mas que só acontece para quem sabe o que fazer com ela.

Correu fora da zona de conforto. Além da linha da ferrovia. Depois até da esquina, das palmeiras e do conjunto de casas, graças aos deuses, vazias. E um zunido, um berro, umas pancadas agressivas já tomavam conta do lugar quando alcançou a menina.

Apontava o horizonte.

Na ponta do dedo, distante, um jardim de almas vivas encasuladas. E eram lindas aquelas rosas, tão cálidas. E era câncer aquela inveja. Era mágica. Seco como uma galha e com os olhos igualmente tomados de nada, caiu aos pés da artista na estréia.

“Poseur. Diletante”, foi seu último pensamento. Morreu tomado pela beleza que não era sua. Mas não admitiu que morria, superado, tornado história.

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