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Letra e Vídeo

Literatura musical

Puta que me pariu, é a primeira coisa que Tom pensa ao chegar em Purgatório. Um calor do caralho e um cheiro de esgoto a céu aberto que lhe embrulha o estômago depois do ar parado da nave que acabou de pousar depois de semanas no espaço.

         Count your blessings, Major Tom – é o que lhe diz o Homem Azul ao seu lado, como se tivesse lido seus pensamentos. – A coisa sempre pode ser pior.

De fato, podia. Purgatório foi construída para ser uma cidade-dormitório, nos arredores do Teleporto provisório, a fim de abrigar apenas algumas centenas de pessoas, algumas décadas atrás. O planeta de Dama Rigel por pouco não ficava fora da Faixa de Habitabilidade de seu sistema estelar; a temperatura devia ser mais fria, segundo o pouco que ele aprendeu na escola, mas era um mundo pequeno, quase um planetóide, e a quantidade de humanos ali já superou qualquer previsão de boas condições de vida há tempos. Hoje a cidade abriga duzentas mil pessoas e não há nada de provisório ali, a não ser os barracos do grande favelódromo, que parece estar sempre em vias de desabar.

O Homem Azul parte na direção da cidade a passos largos. Tom o acompanha; não há outro jeito. O sujeito foi o único que se dispôs a ajudá-lo quando ele foi abandonado no espaço.

 

*

 

O nome oficial atual do Homem Azul é Azul-de-Krishna. A certidão de nascimento original, perdida num cartório que já deve ter deixado de existir há séculos na Velha Terra, diz outra coisa, mas ele jurou que nunca mais pronunciaria esse nome.

Ele parte do princípio que a maneira mais segura para se esconder é se destacar no meio da multidão como quem não quer se ocultar. É por isso que seu corpo inteiro é azul – tintura nanodérmica – e ele não tem um pêlo no corpo. Veste calças de um modelo muito antigo, de metafibra imitando jeans preto. uma camiseta branca de algodão com gola em v e uma jaqueta de aviador com gola de pêlo completam o conjunto. Coturnos pretos de solado alto, que o deixa no total com dois metros e treze centímetros, a pessoa mais alta em Purgatório no presente momento.  Mesmo assim, ninguém olha para ele. Neguinho sabe que não se encara desconhecido em Purgatório.

Ele está ali em busca de uma utopia.

O Coletivo Mahavira.

 

*

 

O Coletivo Mahavira foi uma das primeiras coletividades a se separar do continuum trans-humano.

As naves-geração já haviam saído da Terra havia quarenta anos. Os veículos gigantescos tinham capacidade para milhares de pessoas cada e muito material genético e de bioengenharia. Seções inteiras das naves eram dedicadas à pesquisa aplicada.

Mas as coisas não foram tão simples assim no começo. O caso da Polidori, por exemplo, foi trágico. Junto com ela, foram destruídas outras três naves, cada qual levando cerca de quatro mil pessoas em criossono.

Mas, na confusão, muita gente jura que uma das naves, a Avalovara, simplesmente sumiu. Não há provas de que ela não tenha simplesmente sido destruída pelo empuxo gravitacional da anã branca para a qual a Polidori liderou escrotamente parte da frota, mas lenda e lenda, e chega um momento em que lenda urbana vira lenda galática, por pura e simples ordem de grandeza da exploração humana.

A Avalovara era uma nave improvável desde o começo: um consórcio de indianos e lusobrasileiros, um coletivo carnavalesco que incentivou grande parte das naves com suas experiências de modificação corporal. Foi talvez a única contribuição da Avalovara para o continuum trans-humano.

Os anos se passaram e as outras naves seguiram o planejamento original: colonizar todos os mundos possíveis das Faixas de Viabilidade num raio de cinco anos-luz da Terra. Ao longo do século XXII, os astrônomos descobriram, com observatórios orbitais cada vez mais sofisticados, que mesmo num raio tão limitado, a quantidade de mundos terraformes originais era suficiente para uma colonização de primeiro grau. Só nos sistemas de Eridani havia quatro. Rigel e Centauri forneceram mais cinco. Era mais que o suficiente.

A Frota Frankenstein – como foi apelidada pela imprensa – partiu entre os anos de 2209 e 2222.

 

*

Azul-de-Krishna entra num mercado. É uma das poucas construções de alvenaria: tijolos de cinza hiperleves se entrelaçam a vergalhões de ferrosopor formando as paredes e tábuas de aramadeira para compor o piso. São três andares com o melhor que Purgatório tem para oferecer: comidas como arroz-de-cristal e fava-de-mar da Velha África (e subitamente o Homem Azul se lembra com carinho de seu último jantar na Terra, mas já faz muito tempo), humanware como explantes temporários para comunicação e tradução, medicinais como frankinina-B para aumentar a longevidade, e um catálogo cheio de coisas que teriam feito a alegria de Borges. Mas ninguém se lembra mais de quem foi Borges. Não no século trinta e um.

O Homem Azul paga por dois pratos pequenos de um peixe cru cortado em fatias finas que Tom identifica vagamente como arenque, e dois copos de cerveja (a única coisa que Tom consegue realmente identificar nesse emaranhado de culturas insuportável para ele).

Enquanto Tom come ou tenta, O Homem Azul conversa com um homem troncudo, peludo e bigodudo que parece o dono do estabelecimento. Conversam em um idioma do qual Tom não entende picas; ali, naquela cidade infernal que só recebeu o nome de purgatório porque algum burocrata não quis pegar pesado, a maioria das pessoas fala em algo que o Major Tom entende como sendo katalawn. O Homem Azul nem precisa consultar nenhum implante: ele conhece bem o idioma. Teve chance de aprender no tempo em que passou embarcado na Passus Plau. A mesma nave que recolheu Tom meses atrás.

Tom não entende porra nenhuma. Ele fala apenas inglês, e ainda acha difícil estar tão distante assim no futuro.

Pois ele foi abduzido por alienígenas.

Há muito tempo. Na Terra. No século vinte.

Naturalmente, ninguém acredita nele. Mais de mil anos colonizando a galáxia e, tirando um fungo aqui ou uma espécie animal incomível ali, ninguém ainda viu um puto de um alienígena.

Mas o Major Tom sabe o que foi que viu. E, de qualquer maneira, ele não tem nada que o associe a essa gente. Não tem um único implante no corpo branco, magro e liso feito um lagarto.

Tudo o que ele quer é voltar para casa. Mas o Homem Azul disse para ele que a Velha Terra é apenas um retrato na parede, o que o fez ficar mais confuso ainda, porque ele não entendeu o que o sujeito quis dizer com isso. Só entendeu uma coisa: tão cedo ele não vai pisar no solo da sua velha Inglaterra. E ele está com muito medo do que vem pela frente. Só espera que seja mesmo pela frente.

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