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Letra e Vídeo

Literatura musical

Transgressão e Castigo  

Tenho pressa. Ninguém tem tanta pressa quanto eu. O banco vai fechar em um minuto. Convidados, noivo e padre aguardam desconfortáveis na igreja. Uma sala de aula lotada com um só pensamento: fugir antes que a professora chegue. Filho faminto chorando à espera do meu leite. Nada disso é motivo para pressa. Isso é viver e viver implica em precipitação, em urgências que conhecem sua solução.

Tenho pressa porque estou sozinho na borda do deserto onde sei que assistirei a todos os meus erros. No filme mais bem produzido de toda a história. Porque produzido pela existência. Existir é uma fatalidade e eu cometi as barbaridades mais cruéis que nem você é capaz de imaginar. De um pequeno erro humano parti para injustiças imensas e destruí vidas. Muitas vidas? Regra número um da orla do deserto: os números só têm importância se você for pitagórico e capaz de entender que o universo é feito de números, a harmonia musical depende deles e seu corpo é constituído por uma quantidade finita de átomos.

Aqui onde estou, amarrado numa nau no fim dos oceanos, não se ouve a música das esferas, e eu ouço o coro dolorosamente desafinado das vítimas da minha maldade. Mas depois de milhares de anos assistindo repetidas vezes a tudo o que fiz, hoje me veio uma luz, daí a pressa. Condenado a ler os meus diários para procurar em vão uma frase de remorso, um sinal de dúvida acima do gatilho acionado pela inteligência que é a única herança que me foi deixada, pude conhecer o destino da maldade. É para aqui, exatamente no espaço que ocupam meus membros e minha cabeça, que vêm os resultados de todos os erros conscientes e crimes relevados pela ingenuidade friamente cultivada. Muitos me perdoaram. Eu não perdoei ninguém. Mas quando me veio a luz meu corpo tremeu e eu não páro de tremer enquanto não sofrer todas as conseqüências de ser. A verdadeira urgência é a de refazer o tempo jogado no lixo da indiferença calculada. Aqui neste barco jogado sobre as mais selvagens ondas, não me ajuda a retórica explicativa, não ajuda a justificativa acolhida pela piedade. Quem construiu estas ondas fui eu e minha mente dispara na busca do único castigo capaz de redimir minha transgressão: o castigo é compreender. Entender muito bem o que fui, o que fiz, o que destruí com os pés, o que sufoquei com as mãos. Só eu entenderei, daí a inutilidade de relatar o que fiz diante de um tribunal. Por mais que desejem, não me podem auxiliar os anjos. Se eu lhe contasse agora, você cuspiria em mim. E eu poderia rir e continuar entendendo nada, mas depois da luz…pela primeira vez…estremeço cada pequena parte da sombra do meu corpo, sombra sem corpo, e desejo, pela primeira vez, compreender. Quero conhecer, quero saber por quê, quero pesquisar para comprovar, ver e ouvir para ter mais informação, ler todos os livros da biblioteca monstruosa que aparece em flashes no filme nítido da minha vida sem medo, saber o que argumentei não saber como causa dos meus atos sórdidos. Quero. E saber o que se quer com o tremor do corpo sem frio e sem fome é o único motivo para se ter pressa. Tenho pressa.   

 

 

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