ROMANCE DE VERDADE

 

            A melhor expressão para definir o estado de espírito de Rose era “radiante”. Ela tinha vivido um final de semana maravilhoso ao lado de Peter, com direito a café de manhã da cama, flores por toda a casa e outras coisas mais… Fazei meses que não se sentia tão bem, tão feliz, tão amada por um homem. Peter tinha saído de seu apartamento contrariado por ter que ficar algumas horas longe de sua amada, mas alguém precisava trabalhar para pagar as contas. Foi nessa hora que Rose recolheu os poucos fios de cabelo que Peter tinha deixado cair no seu banheiro e colocou em um saco plástico. Guardou o saco dentro de sua bolsa, arrumou-se com um vestido leve e saiu para a cidade.

            Depois de sair do metrô seguiu em direção a um edifico baixo e encardido pela poluição. Era um prédio velho e meio decadente, mas por opção dos seus proprietários e não por falta de recursos. Cada andar tinha apenas duas salas, cada sala uma empresa especial, No segundo andar a porta de vidro à esquerda tinha as seguintes letras escritas em suave tinta dourada: “Oráculo S/A”. Do lado oposto uma pesada porta de madeira parecia emoldurar a placa de metal escura: “Benção Moderna – Prestação de serviços”. Rose sabia muito bem o que acontecia na porta à sua direita, e sabia que nunca teria necessidade de cruzá-la.  Confiante e alegre abriu a porta de vidro e entrou na sala aconchegante e bem iluminada. Havia apenas uma mesa, atrás da qual um homem baixo e careca estava sentado olhando através de grossos óculos uma placa de cristal cuidadosamente esculpida, com seus delicados símbolos parecendo flutuar no ar. Ele levantou os olhos e sorriu alegremente para sua visita.

            - Bom dia, senhorita, em que posso ajudá-la?

            Rose retribuiu o sorriso e sentou-se na cadeira a sua frente. Tirou o saco plástico da bolsa e o entregou ao homem.

            - Gostaria de testar meu futuro com esse homem. Poderia ser agora?

            - Sim, sim, nesse horário temos poucos clientes. Será um prazer ajudar. Vamos em frente?

            Rose acenou a cabeça em concordância e observou atentamente o que acontecia. O homem baixo tirou os fios de cabelo e os colocou sobre a placa de cristal. Depois pediu para que Rose colocar sua mão sobre a placa e fizesse silêncio. Após alguns instantes um calor agradável começou a subir pela mão de Rose enquanto uma nuvem tênue surgiu bem diante dos seus olhos. Ela admirava fascinada o que via. O homem baixo apertou os olhos e começou a dizer quase num sussurro:

            - Sim, posso vê-lo… Peter, não? Trabalha com engenharia, com obras… Não fuma, pratica esportes… Sim, um bom homem. Ele a trata muito bem, respeita suas opiniões… Gosta da sua comida, isso é importante!

            Rose sorria como uma criança numa loja de brinquedos. Mas esse era o presente, o que o futuro lhe reservava? O homem baixo continuou a falar:

            - Vejo uma grande festa, cheia de convidados, de comida, de alegria… O casamento de vocês! Vejo uma relação cheia de calor, de vida… Vocês são felizes, tudo corre muito bem… Uma criança… Sim, uma menina, com os seus olhos e o sorriso do pai, meus parabéns! Vocês se mudam… Seu trabalho pede isso… Uma casa grande, com piscina, uma boa vizinhança… Mais uma criança, um menino dessa vez. Muita alegria a felicidade…

            Lágrimas rolavam pelo rosto de Rose. Ela não conseguia contar o júbilo que fervilhava no seu coração. Ouvia tudo o que queria, seus sonhos se materializavam bem a sua frente. Estava pronta para tirar sua mão da placa de cristal e pagar os serviços do Oráculo quando o homem baixo retesou-se na cadeira e abriu os olhos assustado. Sua expressão fez com que Rose ficasse imediatamente alerta.

            - O que aconteceu? O que o senhor viu? Diga-me, por favor!

            O homem baixo mordeu nervosamente o lábio inferior e olhou com piedade para Rose, Soltando lentamente o ar ele voltou seus olhos para a nuvem.

            - No futuro, com seus filhos já crescidos… Uma outra mulher, jovem, esguia, cheia de vida… Um romance passageiro que cresce… Você descobre e não suporta a traição. Dor, tristeza, sofrimento. Você se refugia no álcool e se afasta cada vez mais de Peter… Ele tenta voltar atrás mas é muito tarde para vocês. Separação, divórcio… Tudo está escuro agora… Escuro, frio e triste… É tarde, tarde demais para você… Sinto muito.

            O choque foi tão forte que Rose sentiu o chão desaparecer sob seus pés. As lágrimas que antes eram de alegria se transformaram em dolorosas lágrimas de tristeza e dor. Como ele poderia fazer isso com ela, como? Ela daria tudo o que ele precisaria na vida, e ainda assim ele a trairia! Como ela pode escolher um homem tão baixo a ponto de trair e enganar uma mulher que lhe daria os seus melhores anos de vida? O homem baixo sabia o que se passava com Rose e depositou gentilmente sua mão sobre a dela.

            - Você precisa saber que tudo o que vi está muito distante no futuro, minha jovem. Mais de 20 anos a partir de hoje. Nesse tempo muita coisa pode acontecer… E vi que vocês serão muito felizes por muitos, muitos anos. Não deixe que uma probabilidade estrague o que você sente hoje por este jovem.

            Mas Rose não ouvia nada do que ele falava. Seu coração antes cheio de amor e esperança agora se transformara numa pedra fria e sombria. Tirou a carteira da bolsa e jogou algumas notas para o homem baixo. Ele suspirou e pegou o dinheiro. Tirou os fios de cabelo de Peter da placa e os colocou de volta no saco plástico, mas Rose recusou-se a pegá-los. Virou as costas para o Oráculo e saiu apressadamente da sala. Ao chegar ao corredor sentiu como se toda a dor e sofrimento do mundo caíssem sobre sua cabeça e desejou nunca ter encontrado Peter antes. Como ele poderia fazer aquilo! Rose sabia que a dor passaria um dia, que ela encontraria seu verdadeiro amor um dia, mas isso não era de nenhuma ajuda agora. Levantou os olhos e viu bem a sua frente a pesada porta de madeira da outra empresa do andar, “Benção Moderna – Prestação de serviços”. Ela sabia o que acontecia naquela sala mesmo sem nunca ter estado lá. Era o lugar aonde pessoas desesperadas iam para ter suas memórias apagadas, para tirar de dentro de si a dor que não ia embora. Era o lugar onde se conseguia a benção moderna: a ignorância da realidade. Rose sabia que essa dor – de uma traição que ainda nem acontecera – seria muito difícil de enfrentar e num instante tomou sua decisão. Peter precisava desaparecer de sua memória, de seu coração. Respirando fundo Rose deus passos rápidos para atravessar o corredor e com um movimento brusco abriu a porta e entrou na sala decorada com móveis pesados e rústicos. Várias pessoas escuras e tristes estavam sentadas em sofás escuros e tristes, enquanto uma mulher idosa conferia pilhas de papéis sobre uma velha mesa metálica. A mulher levantou seus olhos e sorriu maliciosamente para Rose. Ela sentiu um calafrio percorrer seu corpo quando ouviu sua voz áspera e fria:

- Olá, Rose. Não esperava vê-la tão cedo…

 

 

DOCES BEIJOS

 

Finalmente! Depois de tantos anos, de tanto sacrifício, de tanta busca! Eu a encontrei, bem onde as lendas diziam, aqui, perdida nessa imensidão inexplorada, a Lagoa das Esmeraldas, a fonte de riquezas ilimitadas! Esmeraldas? Não, muito mais que isso: diamantes, rubis safiras, prata, OURO! Centenas de homens deram suas vidas para atravessar a floresta impenetrável mas apenas eu consegui alcança-la. E agora você é minha! MINHA! Pode ser difícil retirar as suas riquezas, mas vou conseguir, nada me impedirá!

Mas antes vou me refrescar nas suas águas, limpar a sujeira do meu corpo. Mereço possuí-la por completo, tê-la como bem quiser e desejar. Ah, sim, como seu toque é refrescante e suave… Sim, leve meu suor para longe, limpa minha pele suja, esfrie meu corpo cansado… Sim, sim, faça as vontades do seu mestre… Sinto suas águas massageando meu corpo, desfazendo os nós em meus músculos doloridos, levando o cansaço dos meus ossos… Sim, seja uma boa escrava e me dê o que mereço… São como os dedos de uma mulher amada sobre o corpo do seu homem nu, não pare, não pare…

Mas… Mas… O que é isso? De onde veio você? Quem é você? Nenhum outro homem jamais esteve nessa lagoa, como você, mulher, chegou aqui antes? Como? E por que você está fazendo isso, me segurando desse modo, me tocando desse modo? Não sou seu amante, nunca a vi antes… Mas você me deseja tanto assim? Você me quer tanto assim?

E por que não consigo vê-la direito? Você parece uma miragem, uma criatura etérea… Não consigo manter os meus olhos sobre você, não consigo ver os detalhes, mas você… Seus cabelos negros e lisos flutuam tão suavemente nas águas… Não, são loiros, brilhantes como ouro e cheios de caracóis! Ou seriam curtos e ruivos, arrepiados pelo toque da água fria? Pouco importa, vou olhar apenas para seu rosto, admirar sua pela branca como as pérolas do mar… Mas agora ela se tornou negra, queimada pelo Sol das savanas africanas. Não, não! Ela é morena, suave e dourada…

Chega, chega de confusão! Seus olhos, sim! Disso tenho certeza! São verdes, faiscantes esmeraldas que brilham e hipnotizam, esculpidas por Deus no seu rosto perfeito, a única luz que brilha aqui, nas profundezas… Estou assim tão no fundo? Apenas me sentei na beirada da lagoa para refrescar meu corpo cansado, então você surgiu do nada, me arrastando para aqui, onde o Sol é uma vaga lembrança… Estou me sentindo fraco, estou me sentindo com sono, tanto sono… Ar, preciso de ar, preciso respirar para sentir a vida voltar ao meu corpo, mas o céu está tão longe… Sim, já sei o que fazer, vou sorver o ar de você. Minha amante, dê-me mais que prazer, dê-me a vida que preciso… Ah, seus lábios são tão suave, seu beijo tão doce, tão doce… Mas não sinto o ar invadir meu peito, encher meu corpo… Pouco importa, estou com você, não preciso de mais nada. Meu desejo por ouro, prata, diamantes, rubis, tudo se foi. Quero apenas as esmeraldas que brilham no seu rosto, quero apenas seu toque na minha pele… Essa é a verdadeira riqueza que homem algum jamais possuirá, apenas eu, eu…

Sim, minha amada, vamos descansar no seu leito de amor, viveremos juntos aqui, até o fim dos tempos, no seu lar, nas profundezas da lagoa. Deitemos na sua cama… Estranho, não parece uma cama, a lagoa parece cheia de estranhos galhos e rochas brancas… Lembra-me algo familiar, algo… Assustador… Parece que centenas de homens sorriem sem lábios para mim, olham para mim com órbitas vazias, apontam para mim mãos sem carne, esticam para mim seus braços mortos… Mas não, minha amada, você está certa. Não preciso me preocupar com nada, com o Sol, com o ar, com riquezas… Tenho você, eternamente… Você com seus olhos de esmeraldas e seus doces beijos…

 

 

- Mas eu quero! Eu preciso!

            - Gabriel, eu sei muito bem o que você sente, eu entendo pelo o que está passando. Mas renegar a sua natureza não lhe fará bem algum. Isso já aconteceu antes, lembra-se? De que adiantou?

            - Não acredito no que você diz, Metatron! Em nenhuma palavra!  Eles têm tanto, tanto! Eles sentem a brisa do vento nos cabelos, o calor do Sol nos rostos, a água escorrendo pelos dedos! E o que temos? Nada! Somos etéreos como a brisa, invisíveis como o calor e transparentes como a água! Não sentimos, não vivemos! De que adianta ser eterno se tudo que existe nos é proibido? É por isso que você tanto anseia? Ser uma idéia, um pensamento? Eu quero sentir tudo o que eles sentem, Metatron! Tudo e muito mais!

            - Gabriel, peço que reconsidere. Sua revolta não tem sentido algum. O preço que eles pagam pelo que você considera uma dádiva é tão alto que você não suportaria. Não há como conciliar nossos mundos. Siga sua natureza, não os seus sentimentos.

            - Não, Metatron, NÃO! Lúcifer se rebelou pelo orgulho e desejo de poder, o que eu quero é diferente, busco apenas sentir o que é estar vivo, sentir o que é ter um corpo de carne e sangue. Eu quero experimentar a vida! Chega de viver nas sombras como um mito. Eles não precisam de nós, deixe que sigam seu caminho egoísta e sem sentido. Dê-me o direito de escolher, dê-me a liberdade!

            - Você não vê o que está dizendo, Gabriel? Em um momento pede desesperadamente para ser como um deles, e no outro os renega e amaldiçoa. Como pode ser isso? Não há lógica em suas palavras. E não estou proibindo-o de seguir seus próprios pés, estou sim é implorando para que você siga a sua natureza. Seja o que o Criador o fez! Não caia na tentação de desejar o que não pode ter, não pode alcançar!

            - Suas palavras é que não tem sentido, Metatron. Já estou decidido do que devo – não, preciso fazer! Dê-me a liberdade e saia do meu caminho.

            - Pois bem, que assim seja, Gabriel. Saiba que estarei aqui a sua espera quando seu tempo terminar. Estarei esperando, pronto para ouvir o que tem a dizer.

            - Pois eu já lhe digo, Metatron, que sou e serei o mais feliz de todos os anjos!

            - Isso veremos, Gabriel. O tempo dirá.

            - Tempo? O que é isso? Não conheço essa palavra, qual é seu significado?

            - Algo que os seres de carne e sangue sabem muito bem, caro amigo. E você irá aprender também, do pior modo. Como muitas outras coisas. Adeus.

 

            Naquele mesmo dia uma criança veio ao mundo, como tantas outras centenas de milhares. E como todas elas, chorou a plenos pulmões ao sair do ventre de sua mãe rumo a sua nova existência. Mas essa criança, disseram todo que a viram, era diferente. Nunca ninguém tinha visto uma criança nascer com uma expressão tão gritante de arrependimento no rosto.