A vencedora da primeira edição do Desafio Letra & Vídeo foi a Ludimila Hashimoto, com seu ‘WeWillRockYou’ falando de prostitutas gladiadoras. Ludi, seu prêmio será decidido em breve.
Pois o homem é uma ilha. Com pontes. Ilha ligada ao continente. A mulher é uma ilha com naus que só saem para visitar a terra firme flutuando sobre a água, que tocam a água. Partem em contato com e conduzidas pela leveza, pela instabilidade de correntes marinhas desavisadas, ventos violentos e eventuais coberturas de gelo.
A ponte foi criada porque a água era um empecilho. A nau foi inventada devido à existência da água, única possibilidade de contato.
A água aceita o ritmo que os diversos fatores externos impõem. Se molda ao corpo arredondado da nau. Flui e faz fluir. É capaz de fluir até os níveis perigosos da psicose. A ponte parece rígida ou resistente e por isso se salva, não quebra. É capaz de se manter normal.
Agora o fogo destrói o navio que mal saiu da garrafa. (Era daquelas miniaturas construídas com exatidão de detalhes, velas, mastros delgados como fios de cabelo, timão do tamanho de uma unha, e erigido com o delicado puxar de uma linha que atravessa o gargalo.) Havia partido da ludimilha ainda dentro da garrafa, vidro embaçado boiando nas marolas. Agora a perda pode ser total, dependendo da velocidade dos ventos em meio caminho até a ponte mais distante, mas prestes a chegar.
A ponte se concentra na própria reconstrução, por precaução, antes mesmo da iminência do desastre. Com a certeza de que, após uma eventual reforma, sua nova versão será ainda mais forte, resistente e à prova de ondas impetuosas em tempos de maré alta. Ausência de flexibilidade: falha de engenharia detectada.
Esse é um retrato barroco do equilíbrio dinâmico entre o homem e a mulher, com tudo o que há de bom e de ruim no conjunto da obra. Reflete as impossibilidades, as distâncias e não tem lugar para promessas.
FIM
O simbolismo ficaria mais misterioso se considerássemos que, como defendia Jung, há o lado masculino na mulher e vice-versa, mas, depois de um pastel de queijo com coca, não tenho mais estômago para mistérios.
Hiroshima Acelerada / Poison Heart- Primeira parte
(Segunda parte= Estupidez Artificial/ I Believe in Miracles)
Para o Aurisson, obrigada por ter ficado “meio no ar”.
Cheguei ao ponto. Olho o relógio de pulso. 11:54.
Em Hiroshima, os pontos de ônibus têm placas com o horário exato em que cada ônibus vai passar. Exato.
Verifico. Ônibus Hiroden número 5. Naquele ponto às 11h56.
Olho de novo o relógio. 11:55. Tenho pouco tempo. Mesmo assim, tiro um livro da bolsa e começo a ler com as mãos trêmulas.
Página marcada com um rasgo, sempre um pecado num livro do autor que já deu tanto trabalho à minha mente. Tenho tempo de ler, na página 17: “Já se disse que, se o tempo é infinito, o número infinito de vidas, rumo ao passado, é uma contradição. Se o número é infinito, como algo infinito pode ter chegado até o presente? Se um tempo é infinito, creio eu, esse tempo infinito tem que abranger todos os presentes e, em todos os presentes, por que não este presente, em Belgrano, na Universidade de Belgrano, vocês comigo, aqui, juntos? Por que não esse tempo também? Se o tempo é infinito, em qualquer instante estamos no centro do tempo. Pascal pensava que, se o universo é infinito, o universo é uma esfera cuja circunferência está em todas as partes e o centro em nenhuma. Por que não dizer que este momento tem atrás de si um passado infinito, um ontem infinito?” Obrigada, Borges, e desculpe os rasgos, mas não tenho uma bolsa do tamanho suficiente pra carregar todos os livros.
Olho o relógio. 11:56. Meu Deus. Meu ônibus acaba de passar. Não sei o que fazer. Corro.
Vejo a traseira do ônibus que, indiferente, comunga com a minha própria indiferença em relação a tudo. Corro com toda força para alcançar o desinteresse que segue a 47 km/h. Tudo ficará perfeito assim que eu embarcar na nau urbana da doce apatia coletiva.
Só sei que cometi um erro e, embora tenha elaborado todos os argumentos em minha defesa, meus princípios guardados no quartinho de fundos da personalidade mais coerente possível ainda me dizem que relativizar um erro é errar duas vezes. Por isso não relativizo, não justifico e não revelo. Mas o leitor entenderá, pensará por si mesmo no erro mais atual, mais significativo que se possa cometer sem precisar se esconder da polícia. Minha polícia é interna. Minha consciência é a esposa que dorme comigo, como a heroína nas veias de Lou Reed.
Corro. Nunca corri tão rápido. O vento na cara, o esquecimento do relógio, o objetivo único isolado de tudo, estar inteira no presente do asfalto e da fumaça, tudo isso transforma meus músculos em mangueiras sugando o resto de combustível da reserva. Correr no meio da cidade causa uma sensação libertadora.
Chego ao ponto seguinte segundos depois do ônibus número 5, mas por sorte, aqui em Hiroshima se entra pela porta de trás, em que bato, gritando:
– O-negai shimasu!!
A porta se abre, subo, tropeço feio no degrau e caio pra trás. Caio com a base do crânio no meio-fio. Apesar da dor cortante, acho graça e, arfando, evito desmaiar.
O ônibus não segue. Os passageiros soltam coros de interjeições assustadas. Se fosse no Rio, o ônibus estaria longe, mas aqui é diferente.
Daqui a pouco a ambulância chega, penso, me divertindo com a educada organização. Mas enquanto perco tempo comparando culturas incomparáveis, estou sendo carregada numa maca para dentro da ambulância parada, colada atrás do ônibus.
Dentro da ambulância, uma unidade de resgate mais completa que alguns hospitais em que passei as manhãs do primeiro dia de alguns anos me impressiona. Meu paramédico é ninguém menos que Haruki Murakami, o autor do surrealismo pop que já deu tanto trabalho à minha mente.
– Ninguém vai perdoar o seu erro, mas correr é um bom começo – ele diz.
O tratamento já começou. Vocês são eficientes mesmo, penso, por não saber em que língua me falar.
Deitada no lençol branco, vejo o asfalto indo embora constantemente entre meus pés em V. Meu enfermeiro está sentado ao lado da minha cabeça, é difícil ver seu rosto.
– Para onde você estava indo com tanta pressa?
– Eu… sigo uma seqüência aleatória de ônibus todo dia. Hoje é quarta, ônibus #8, 5, 30…
– Ao correr atrás de um ônibus específico e já perdido, você estava respeitando o acaso? – questiona meu escritor com ironia socrática, a que serve para evidenciar a ignorância do interlocutor.
– Se o acaso não é levado a sério, pode facilmente deixar de ser acaso. E o último ônibus pra Osaka parte às 23 horas, o Sanyo Dream Osaka. E o Venus do terminal Namba sai antes ainda. Tenho passagens de ida e volta que…
– Você quer parar um pouco?
– Quê?
– Esses questionamentos sem conexão e dilemas constantes não estão te fazendo bem mais – prosseguiu a voz sem idioma definido. – Que tal um pouco de estupidez?
– Estupidez? Grosseria ou falta de inteligência? – tento esclarecer.
– A segunda, por favor. Mantenha a delicadeza.
– É, nem os revolucionários mais apaixonados dispensam aternura – perco o foco.
– Um pouco de estupidez vai ajudá-la. E já estão sintetizando esse tipo de talento em laboratórios clandestinos no subúrbio de Hiroshima.
Ele mostra o cartão do laboratório por cima da minha testa. Leio, estendo a mão para pegá-lo, mas fico no ar.
– Só tenho esse, desculpa.
– Tá ótimo, então. Me deixa lá?
– Não quer nenhuma informação sobre o cientista responsável? Histórico? Currículo? Certidão negativa de antecedentes criminais?
Estico o pescoço pela primeira vez para encarar o único membro da equipe de resgate. Dou um sorriso socrático.
Ele dá de ombros:
– Boa sorte, então.
“…E por que não pensar que este passado passa também por este presente? Em qualquer momento estamos no centro de uma linha infinita…” Interrompo a leitura para olhar o relógio laranja. 11:56. Estranho, parece que já li e pensei tanto. Encaro fixamente o visor no meu pulso. Por um segundo, acredito que o relógio havia quebrado. Ouço o barulho do freio do Hiroden #5 e o suspiro grave da suspensão traseira pneumática fazendo o ônibus ajoelhar para que os passageiros não tenham dificuldade para subir os degraus. Os mais atrapalhados continuam tendo, mesmo assim.
Entro no ônibus, pego o tíquete que saiu da maquininha e sento antes que o motorista me avise que é preciso sentar para manter a segurança do trajeto.
Olhando a cidade cinza e branca pela janela, decido visitar o laboratório que um amigo mencionou numa conversa na noite anterior. O responsável pelos experimentos era um pesquisador excêntrico, filho de sobreviventes da bomba de Hiroshima. Estava recrutando voluntários. Quando meu amigo tentou explicar o objetivo do projeto, não ouvi direito por causa dos ruídos no ambiente de festa.
Olho o número no tíquete, vejo no mostrador acima do motorista o valor da tarifa referente ao ponto em que pretendo descer. Troco minha nota de mil ienes na outra maquininha, retiro as moedas. Aperto o botão para anunciar a parada .
Coloco o tíquete com o valor certo da tarifa numa caixa ao lado do motorista. Salto do ônibus. Olho o visor. 12:36. Hora de parar de pensar. Antes disso, uma última reflexão saideira e mais um rasgo milimétrico nas páginas 17/ 18.
“Sócrates recorreu à doutrina de Platão acerca da transmigração das almas como seu último argumento. Nesse momento, não queria se despedir dos amigos de forma patética. Desejava conversar tranqüilamente; simplesmente, continuar conversando, continuar pensando. Por que ia beber cicuta?”
Diante da porta do laboratório, decido que devo entrar, seguir em frente, movimentar-me em alguma direção. Por pior que seja o resultado do experimento, sei que meu destino é sempre a suavidade e a serenidade.
Nota: Os trechos citados foram retirados do livro “Cinco Visões Pessoais”, de Jorge Luiz Borges, publicado pela Editora Universidade de Brasília, fruto de palestras proferidas por Borges em junho de 1978.
– Nunca parei para pensar no processo que cria vida artificial (ou sentimento, ou inteligência) a partir da carne (ou barro, ousilício).
Acho que foi a última resposta que dei na entrevista na antesala do laboratório.
A última lembrança é que não fui perdoada por alguém. E nesse estado foi fácil me entregar aos experimentos de um cientista decadente e ignorado pela comunidade. Seu objetivo era me transformar num objeto, num ser sem medo de cair, uma criatura de Frankenstein invertida, comatosa, cujo contato mais sutil com a vida seria especificamente delimitado.
Ao fim do experimento (que envolvia sedativos, lobotomias e detonação de redes neuronais específicas), fui colocada numa prateleira.
Muito tempo depois, fui pendurada num gancho e entendi que poderia ficar ali por uma eternidade. Entendi, também, que o cientista que me modificara não era ignorado sem razão.
Com o pouco de afetividade e cognição que me restara, criei uma nova razão para viver, totalmente louvável, perfeita! Com as pernas balançando como sempre, articulei um sorriso num movimento labial intermitente e abri um olho. O cientista decadente, nada descabelado, detectou o sinal que aguardara por anos no laboratório empoeirado.
– Está pronta para sair?
Meu sorriso cresceu, num deslocamento muscular ainda não contínuo.
O gancho foi virado. Bati no chão com tudo, como um saco de areia. Não duvidei que, de fato, houvesse areia dentro de mim. Enquanto levantava, vi a tatuagem acima do tornozelo. Um nome, possivelmente um apelido, e uma espécie de logotipo: um planeta Terra num formato que lembrava, de leve, um coração.
Saí para a rua, dando passos aos trancos e a cabeça ainda compensando a oscilação pendular que embalara minhas pernas durante tempo indiscriminado.
A nova vida que eu criara consistia em seguir andando e perdoar todas as pessoas e todas as coisas. Comecei perdoando o cientista que anulara meu rico mundo interior, que reduziu minha individualidade a um ser humano menos capaz e a um ciborgue ridiculamente obsoleto. Grande sorriso estroboscópico.
Se algum dia encontrarem uma razão para me perdoar, talvez eu crie uma nova razão para viver.