É a evolução, Baby!

Na cidade do Fim do Mundo

As altas torres tocam as nuvens

E as luzes de néon brilham intermitentes

Colorindo os céus com brilhantes tons

Vermelhos verdes amarelos azuis

Anunciando maravilhas que não mais existem.

A mulher, berço da humanidade, se lança

Aos pés do homem, senhor do futuro,

Ela pede implora cede oferece

O corpo macio de curvas perfeitas

A alma quente com prazeres núbios

Uma vez mais, pelos que serão.

Em seu castelo de concreto e aço

Ele a afasta rejeita despreza

Orgulhoso de seus poderes

Sobre a natureza e a vida

Só a perfeição o satisfaz

Só o controle total o sacia.

Ele se entrega a sua nova amante

Criada do mais puro metal

Dourada como as portas do Paraíso

Sua criação perfeita

Que caminha respira fala vive

Dons de sua ciência.

A dourada Lililth sorri

E o homem se deixa embriagar

Em seu próprio reflexo distorcido.

A mulher parte em exílio

Carregando as derradeiras palavras:

É a evolução, Baby!

 

Apocalipse Particular

 

            Estava tudo milimetricamente preparado.

            Olhava-se no espelho do banheiro, concentrando-se para o discurso dali a pouco. Repassava as palavras escritas magistralmente por sua assessoria: estaria ao vivo em todas as televisões, rádios e sites do planeta dentro de poucos minutos. Seria o anúncio mais importante de toda a sua vida, era um dia extremamente feliz, depois de planos feitos por todos os anos!

            Logo todas as guerras terminariam e o mundo retornaria a um ciclo de paz e prosperidade!

            Anunciaria que logo toda a humanidade seria salva! Afinal, toda a fome que dominava o mundo terminaria, os terroristas não tirariam a água e os alimentos da população de bem, as doenças que se proliferavam sem fim naquela massa humana pobre e faminta terminariam.

            O povo que representava, os eleitos para desfrutarem do mundo, logo o teriam para si, purgado de todo o mal da humanidade! Tinha sido posto no poder por uma cadeia de sucessão sem fim, viera de um conglomerado industrial. Um dos cinco que controlavam 98% da economia mundial – que, na verdade, pertenciam ao mesmo pequeno e seleto grupo de pessoas.

            Os exércitos dos países inimigos tinham sido destruídos de forma eficaz, um trabalho perfeito de seus antecessores e dos espiões infiltrados de seu governo. Sem inimigos, a paz estava implantada! Era o Supremo Chanceler, o governador do mundo, o zelar por aquelas bilhões de almas estava em suas mãos!

            E claro, para que seus filhos e netos pudessem desfrutar do melhor pedaço de solo para construir sua casa ultratecnológica, ter os alimentos mais saudáveis, a água mais pura e estarem livres das doenças, precisava eliminar as pragas que se reproduziam como formigas, os terroristas.

            Eles não podiam aceitar a tecnologia? O mundo era daquele jeito mesmo, era preciso se conformar que para o conforto de milhares de privilegiados, que podiam consumir produtos dos cinco grandes conglomerados, os outros milhões não poderiam ter o conforto que desejavam. Eram apenas pobres almas controlados por religiões fanáticas e líderes sanguinários! Como poderiam tentar ir contra instituições criadas já há séculos?

            Mas é claro que eles não entendiam isso, nem depois das armas químicas instaladas – porque para que as crianças puras sobrevivam, é preciso destruí-los antes que as degolem -, dos bombardeios, do fim das pesquisas da cura das doenças que os afligiam. Precisavam entender que eram um entrave para o desenvolvimento do mundo!

            Então, entraria em rede mundial naquele momento, a partir de uma das colônias espaciais, onde as pessoas que tinham dinheiro para pagar o traslado se refugiavam do mundo caótico.. Faria um discurso sobre como os próximos tempos seriam bons e plenos, como o progresso viria a passos largos.

            Em seguida, das colônias, as cidades terrestres seriam bombardeadas. As chances eram de que as pobres almas que roubavam os recursos de seus escolhidos seriam eliminadas em praticamente sua totalidade.

            E se faria a evolução.  

             

Escondido debaixo da mesa? Refugiado nos escombros da Casa Branca?

Levante-se!

Encare meus olhos, criatura.

Veja bem os restos do mundo em que você viveu. A terra que você governou. O que ganhou?

Cinzas e radiação.

Desolação e morte.

Dos homens? Sobrou apenas um. Você. Que teve posses, dinheiro, títulos. Presidente. Líder.

Morreram todos.

Eram quantos?

Bilhões?

Importa pouco agora.

Guerra… Bombas nucleares. Destruição em massa.

É. Vocês chamaram. E eu vim.

Qual meu nome?

Chame de Apocalipse. Ragnarok. Fim do Mundo. Kali Yuga. Armageddon. Últimos Dias.

Pouco importa, pois eu vou virar para você e dizer no meu melhor sotaque texano.

It´s Evolution, baby!