Eu consegui minha primeira guitarra no verão de 1969. Para isso passei um ano inteiro guardando o dinheiro ganho ajudando meu pai na mercearia. Empacotei milhares de dúzias de ovos, ensaquei compras para todas as senhoras de perfume enjoativo da vizinhança, esfreguei o chão até ele ficar brilhando. E valeu a pena.
A primeira semana de férias, passei trancado no meu quarto. Eu e a guitarra. Toquei até meus dedos sangrarem e criarem calos. Quando achei que dava para enganar, dei o passo seguinte: criar uma banda. Eu na guitarra, João, meu melhor amigo, no baixo e a irmã dele na bateria. Judite era mais velha, mas apoiou o projeto desde o início.
Só faltava uma voz. Precisávamos de alguém para cantar, e Dite trouxe Clarice para minha vida. Desde a primeira vez que a vi, no primeiro ensaio sério de nossa banda, seu olhos doces no rosto calmo e o sorriso sereno ficaram marcados na minha memória.
Ali começara a carreira efêmera do “Papel Machê”, nome sugerido pela própria Clarice. Sabia que não duraríamos muito, mesmo assim foram os melhores dias de minha vida. Os bailinhos de sábado do quarteirão eram animados por nós com versões dos grandes sucessos da época. A voz de Clarice adoçava tudo, e viver valia a pena. Toda a tarde, tocávamos na sorveteria do bairro. Nosso pagamento era a banana split especial, que podia ser dividida com folga pelos quatro. E vez por outra, uma festa não renumerada de algum amigo.
Claro, algumas confusões aconteceram. Na festa de aniversário da minha prima, um amigo dela fez um convite para a nossa baterista. Ele não sabia que Mario, o namorado gigantesco da Dite, também estava presente. A briga generalizou-se, João quebrou o nariz e Judite três unhas, mas os instrumentos não sofreram nada.
No fim do verão, demos nosso último show. Dite iria casar-se e depois da confusão, Mario havia se tornado contrário à participação dela na banda. João e eu, ambos fazendo dezoito anos, iamos prestar serviço militar. Depois do final do baile, nos despedimos, prometendo uma reunião da banda em breve. Os dois irmãos foram para casa, enquanto eu acompanhei Clarice, que morava mais perto de mim. Os sentimentos entalados na garganta, por meses a fio, pareciam sentir o fim da estação. Queriam irromper, aproveitar os últimos dias de calor, antes que tudo terminasse.
Não consegui. Andávamos lado a lado, como fizéramos tantas vezes naquele verão. Discutimos sobre tudo o que não era importante. Lembramos os shows, as confusões, as brigas de João e Dite por qualquer bobagem…
Paramos em frente à casa dela e continuamos a conversa, encostados no Porshe da mãe de Clarice.
Ela fitava as estrelas, que pareciam reluzir no seu olhar Evitava virar o rosto para mim enquanto falava. De repente, após um súbito silêncio, ela suspirou e olhou para mim.
- Sabe porque eu sugeri o nome “Papel Maché”?
- Eu nem sei o que é…
- É uma forma de artesanato. Pedacinhos de papel amassados e colados… Sozinha, cada parte é lixo, mas juntas fazem lindos objetos. Como nós…
- A banda?
- Sim, eu queria que esse verão não acabasse nunca… A banda, cantar… A companhia de vocês. Principalmente a sua, Paulo. Você foi importante demais para mim.
O coração bateu, descompassado. Era agora.
- Clarice, eu…
- Meu pai foi transferido para outro estado. Mudamos-nos em uma semana. Passei o verão inteiro querendo não pensar nisso, em tudo o que vou perder. E vocês conseguiram, mesmo que agora eu vá perder ainda mais coisas do que antes…
Beijou-me de leve na boca e foi em direção à casa. Eu fiquei ali, parado, olhando ela se afastar, o coração apertado com tudo o que eu não disse e nunca ia dizer.
Assim terminou o verão de 1969. Cresci, casei, tive filhos e enviuvei. Em cima da mesa do meu escritório, as fotos da minha família. Em um canto especial, um porta-retrato de papel maché, com uma foto dos quatro integrantes do conjunto, tirada antes da última reunião pelo pai dos dois irmãos… Judite me enviara alguns anos depois. Ela atrás, abraçada com João, os dois fazendo careta. No primeiro plano, Clarice e eu, rindo. Nunca mais vi nenhum deles.
Penso que aquele verão poderia ter durado para sempre. Foram os melhores dias da minha vida, os do verão de 1969.
O problema era seu sorriso. Tudo o mais em seu rosto era absolutamente normal, seus suaves olhos castanhos, o modo como suas sobrancelhas subiam e desciam alegremente quando ela fala com sua voz angelical, seu cabelo sedoso e perfumado, até mesmo o lindo narizinho arrebitado, tudo dentro do que se poderia chamar de normal, bela mas não arrebatadora, alguns até diriam comum. Mas quando ela sorri… Oh, Senhor! É magia pura! E em doses potencialmente fatais! Não há nada que você pode fazer, quando ela sorri você vira história, já era! Escravizado para sempre, de livre e espontânea vontade, até a hora em que ela quisesse brincar com você, usar você, acabar com você, ela teria. E sem uma única reclamação, nem uma mísera palavra contra. Apenas pedidos desesperados de mais, mais, mais… Seria todo o conjunto da boca, as pequenas rugas que se formam ao lado dos olhos, o jeito travesso como seus lábios se moviam? O que diabos ela tem naquele sorriso que faz isso comigo, que me deixa de pernas moles, quebra minha vontade, me hipnotiza? Seria isso o tão falado amor?
Mas quem se importa? Ela está aqui, não? E me quer, não quer? E sempre – SEMPRE! – com uma brincadeira nova, com algo novo para ensinar. E são tantas coisas que já aprendi… Já fui amarrado com quilômetros de grossas cordas, preso com fita adesiva ao chão (fiquei parecido com uma múmia, ela disse sorrindo, maldição!), enjaulado como um animal, acorrentado à parede, trancado em uma asfixiante sauna seca, jogado dentro de uma caixa… E ela diz que eu ainda não vi nada! Ah, essa mulher!
Ela está vindo, caminhando – não, flutuando como uma bailarina, suavemente, delicadamente. Hoje vai ser diferente, vou mostrar para ela que não sou seu escravo, não sou seu cachorrinho. Um homem tem que honrar seu nome, sua dignidade! Hoje as regras do jogo vão mudar e ela é que vai aprender alguns truques e brincadeiras novas, com certeza! Agora, parada bem a minha frente, mãos na cintura, olhos faiscantes a me dominar. Essa ansiedade! Então ela sussurra, como uma brisa da primavera:
- Você já viu o mundo de cabeça para baixo, garoto? È tão divertido, você vai gostar, tenho certeza…
E sorri para mim… Ah, dane-se tudo! Estou aqui, querida! Por favor, faça tudo o que quiser, mas não pare, nunca, jamais! Estou pronto, meu amor, vamos brincar, por favor, vamos brincar!
Já fomos grandes, você se lembra? E ainda sempre podemos ser se você o quiser. Dormentes caminhos neurais se refazem num intervalo sem tempo quando o real sincronismo acontece.
Quando te conheci não me deste tempo para respirar. Um respiro que era um sopro de vida desatando as presilhas da alma. Mal os abismos de nossos olhos se espelhavam nas nossas lentes percebêramos a impossibilidade de conflito entre nós.
Passávamos fulgurando pela via radioativa, pilotando o trem da gravidade. Nossa mentora nos confiara tanto. O que fizemos pra merecer tanta consideração dela? Éramos apenas mais dois soldados da mídia para todo o resto. Percebia ela, mesmo que de soslaio, na tua arfante expectativa antes de cumprirmos o prometido, e com esse a promessa de sonhos cumpridos?
Você se lembra? Poderia se lembrar ainda de mim? Do como passáramos juntos pelo vau acinzentado do ensimesmamento?
Estávamos então no limiar de tanta coisa importante, não é mesmo? Fatos lançados no trançado do tempo que desembocavam num daqueles nós das eras. Já não tivéramos nossa cota de mergulhos no oceano das possibilidades que nos fizeram voltar gotejantes de fascínio? E, incônscios das consequências, mesmo os nossos mais talentosos colegas não conseguiam perceber aonde os entrechoques levavam ao bilhar dos eventos. Arqueavam os sobrolhos, quando vislumbravam algo das sutis influências disparadas, mas não de forma tão graciosa quanto os teus arcos capilares quando se costumavam emoldurar tua céptica expressão.
Os momentos de transição. Sempre soube você aproveitá-los tão bem, tão melhor que eu. Só precisávamos galvanizar o interesse de todos estudantes ali reunidos, por acaso os melhores no que faziam. Foi mais fácil para você do que para mim. A moda que lançamos estava mais do que enraizada e agora era a oportunidade de criarmos os caminhos novos. As ondas em interferência construtiva das mentes conectadas mas não subordinadas. Só os mais intrépidos poderiam te acompanhar. Outros preparariam a logística e o envultamento das intenções perante o vulgo.
Nossa tampinha-chefe não precisava nem ordenar o próximo passo. Sabíamos bem o que fazer. Quando liberamos a visão dos nossos olhos de arco-íris sobre a audiência, ao descerrarmos as pálpebras não mais ocultas pelas convexas e quase-opacas lentes que usávamos, já há muito eles estavam convencidos pelos harmônicos naturais de tua voz. Voz em ondas que lambiam as fronteiras dos cuidados de defesa do ego. As palavras certeiras para os que não viam sentido algum somente numa simples vida autoperpetuante. E ao mesmo tempo, a imortalidade da eterna expansão prometida aos que não viam graça alguma nas tentativas de auto-superação ou nas agridoces frustrações que as amarras coletivas nos proporcionavam desde a vida unicelular.
Porque você não ficou aqui – conosco – na missão de reconstrução dos cacos dos vasos partidos, das vidas separadas e não unidas, do refazer dos caminhos traçados nos domínios dos sonhos que se sonham juntos? Porque teve você que se dar o luxo do último mergulho na incerteza?
A dissolução da personalidade não deixaria nunca mais as curvas de teu corpo se enrijecerem atrás do vítreo esquife em que teu veículo corpóreo foi depositado. Mas quando você voltaria a afagar os nós de meus dedos de novo com a tepidez única de teu toque? Quando você nos comunicaria, com teu humor sempre borbulhante o que percebera no emaranhamento com as consciências ancoradas em mares não aquosos sob céus de matizes não figurados?
Volte para a vida isolada, eu te peço. Volte para a vida das impossibilidades da separação. Volte para mim, e para “o mim mesmo”, mesmo que este seja agora tenha passado a ser para você só um hábito esquecido de auto-limitação…Eu sinto nas minhas circunvoluções que ainda podemos voltar a ser dois em um e não apenas o sonho de um em muitos.
E, então, vamos explorar o que as nossas limitações têm a oferecer.
Eu estava à espera, este era o local marcado, no meio da floresta do Grande Urso, na nossa pequena clareira. As horas passaram e logo senti a sua presença, seu caminhar era gracioso, seus cabelos estavam soltos, ela não sorriu ao me ver, vi o quanto ela estava aflita, não parava de olhar para os lados. Pulei da árvore onde estava em sua direção, ela me lançou um olhar duro, o sorriso sumiu de meu rosto, eu já esperava pelo que ela iria dizer.
– O que lhe aflige minha querida? – perguntei me aproximando de seu corpo quente. Ela imediatamente me repeliu.
– Não posso mais ficar com você Julius, por favor, entenda.
– Entender o quê? As suas estúpidas leis?– cuspi. – Será que elas valem mais do que o nosso amor?
– É impossível haver algum relacionamento entre nós – gritou Ingrid aos choros – você não sabe do que o meu grupo é capaz.
– Eu não me importo! Eu arrisco tudo por você, não agüentaria ficar longe de você nem um dia! – falei no mesmo tom.
– Mas meu irmão é o alfa, ele comanda o grupo, ele me comanda, ele me quer longe de você, por favor, Julius, não arrisque a sua vida assim. – falou aflita, seus olhos brilhantes estavam cheios de lágrimas, o brilho da lua refletia em seus olhos.
– Não vê que você é o meu único sol, o sol que não me mata. – falei olhando fundo em seus olhos até me ver neles. Uma imagem pálida e turva. Toquei em seu rosto, ao nos abraçarmos, ambos trememos, eu com a temperatura quente dela e ela com o meu frio. Juntos nos equilibrávamos.
Ingrid olhou para o chão escondendo o choro que teimava vir, um som ao longe chamou a nossa atenção, o bando, a família de Ingrid estava a sua procura. Ingrid, percebendo o perigo em que me colocaria, me empurrou e correu para dentro da floresta, corri atrás, mas era tarde, nem com toda a minha velocidade eu pude impedir, a alma Lupina de Ingrid falou mais alto, ela tomou a forma de um lobo e se embrenhou ainda mais na floresta, eu poderia persegui-la mas eu bem sabia que o que falaria agora seriam apenas os seus instintos, não existiria mais uma comunicação entre a gente naquela noite.
Ouvi outros sons e percebendo o perigo subi com um salto na árvore mais alta, sabia que não poderia enganá-los, mas ficaria fora de suas visões por um tempo, no momento o maior interesse deles era Ingrid, um comando do alfa e ela, como lobo, obedeceria.
Eu não entendia ao certo como funcionava esse comando na cabeça dos lupinos, mas sabia que quando alguns deles desobedeciam, uma dor violenta invadia o seu corpo, por isso ninguém ousava desafiar o lobo alfa, a não ser que quisesse sofrer.
Vi a alcatéia correr lá embaixo, pegaram a mesma trilha de Ingrid, desci e fui atrás, eu não poderia deixar Ingrid correr algum perigo, sei bem que o nosso amor é impossível, mas as nossas almas clamam uma pela outra. O escuro tomou conta da floresta, meus olhos faiscaram a procura dela, uma dor me invadiu a garganta, a sede, tinha me esquecido dela, Ingrid faz isso comigo, ela aplaca a minha dor, a sede maldita.
Tive que me virar com o que podia, cacei um grande animal na floresta, um urso, ataquei-o ferozmente e dele tirei o líquido da vida.
Já restabelecido voltei a minha procura, eu queria ter certeza de que ela estava bem. Ouvi um choro e corri como nunca, era Ingrid com certeza, ela voltara a sua forma humana e provavelmente estaria desprotegida.
Cheguei numa pequena clareira e logo vi o que eu mais temia, Ingrid sendo segurada por mais dois lupinos na forma humana, ela estava machucada, eles a estavam julgando, num julgamento de vida ou morte, tudo por minha causa, por causa do relacionamento entre uma Lupina e um noturno. Começou a chover, os relâmpagos iluminavam o bando, alguns na forma humana, outros como lobos.
Lius, como o líder do grupo lhe deu um tapa fazendo Ingrid cair no chão, senti um fogo me queimar de dentro para fora, saí do meu esconderijo e coloquei toda a minha fúria em meu olhar, fazendo meus inimigos tremerem. Eles me atacaram, derrubei três dos sem nenhuma dificuldade, não os matei, eram da alcatéia de Ingrid, só não o fiz por ela. Eu odiava o lobos, só Ingrid tinha o meu coração. Esse ódio se dava pela condição de predador que ambos tínhamos, lupinos e vampiros são predadores, a diferença está apenas na alimentação, eles comiam a carne e nós o bebíamos o sangue.
Voltei o meu olhar para Lius que estava de posse de um punhal e com ele me atacou ferozmente, prata, a prata entrou na minha carne me fazendo arfar de dor, era a única coisa que realmente me machucava, além do sol e do fogo, mas eu também sabia que a prata também fazia mal aos lupinos, mas para eles era bem mais mortal. Retirei a adaga do ombro e estava prestes a usá-la também em Lius, mas o grito de Ingrid me impediu de fazê-lo, era o irmão dela, neste pequeno momento em que hesitei, levei outra facada pelas costas, essa não era prata, mas por pouco não entrou como uma estaca varando o meu corpo, isso me enfraqueceu ainda mais, o sangue saia rápido do meu corpo.
Vários Lupinos me seguraram me fazendo ajoelhar ao lado de Ingrid. Lius, tomado pelo ódio que sentia por mim, esqueceu-se da própria irmã, querendo a nossa morte.
Um grupo ainda maior se juntou nos cercando e Lius, num frenesi usando o seu comando de Alfa, nos julgou culpados, Ingrid por trair a alcatéia e eu por fazê-la mudar de lado, se bem que eu seria julgado culpado por qualquer coisa, eles me matariam de qualquer maneira, eu era o seu bode expiatório por todas as desgraças que aconteciam com eles.
A única escolha dada a alcatéia era a morte rápida ou a morte lenta. Para mim foi escolhida a segunda opção, gostei da idéia, eu poderia ter alguma chance numa luta corpo a corpo.
Lius pegou novamente o punhal de prata e riscou meus pulsos me fazendo sangrar, ele sabia que a prata não deixaria minhas feridas cicatrizarem rapidamente. Depois se virou para Ingrid e machucou seu pulso, eu vi aquilo totalmente atônito, a prata era sentença de morte se entrar em contato com o sangue de um lupino. Ingrid gritou como nunca, a dor devia ser muito forte, talvez mais forte que a minha.
– Veja vampiro – me chamou vulgarmente – você causou isso ao se aproximar dela, agora você vai ter duas opções, se entregar a nós numa caçada, ou ficar e vê-la morrer.
É claro que eu não iria fazer o jogo de Lius, mas ele me propôs algo que eu não poderia recusar. Ele olhou para Ingrid e tirou algo do bolso, parecia uma ampola. Ingrid olhava ansiosamente para aquela ampola, sua pele estava vermelha, seus olhos fundos, sua boca seca, ela estava sentindo os efeitos da intoxicação da prata em seu sangue lupino, logo percebi o que Lius iria propor.
– Minha irmã é a coisa mais preciosa para mim e você a roubou, como rouba as suas vítimas vampiro, você só não lhe suga o sangue por que os lupinos não agradam ao seu paladar, quero a minha irmã de volta, mas só posso tê-la se você deixar de existir. Prefiro ver Ingrid morrer a vê-la com você.
– Diga logo Lius o que você quer de mim? – perguntei impaciente vendo o sofrimento de Ingrid.
– Vejo o quanto você está fraco, perdeu muito sangue, quero que você seja a nossa caça, quero que corra enquanto o caçamos.
– E por que eu faria isso? Se Ingrid morrer eu não me importo de ficar aqui e também esperar a morte.
Lius grunhiu e puxou Ingrid do chão com violência.
– Você quer isso irmãzinha? – disse colocando a ampola perto do rosto já pálido de Ingrid. – peça ao seu maldito namorado vampiro! Ele tem a sua vida agora!
Ingrid me olhou – Julius… – disse ela com tristeza – pra depois gritar – Não faça o que ele pede! – em seguida cuspiu na cara do irmão que a jogou no chão, olhando-a com nojo.
– Como pôde se entregar a um noturno? Você está suja… mas vou te limpar – disse se voltando para mim. – Vê isso vampiro? Isso é a cura para a prata, se ela não colocar isso na veia logo, vai morrer. Consegue conviver com isso? Se ela morrer, nós não vamos matá-lo, só mutilá-lo talvez – sorriu cínico – só para ver com prazer você se lamentar pela eternidade.
Vi o jogo de Lius, ele não deixaria Ingrid morrer, lhe daria o antídoto, mas desde que eu concorde em ser caçado por ele e seu bando. Sorri, Ingrid iria sobreviver.
– Eu topo – lhe disse entre dentes – mas como saberei que você vai cumprir com a sua promessa?
– Você verá – disse ele aplicando o antídoto em Ingrid enquanto ela grunhia em desespero.
– Você cumpriu com a sua palavra, agora cumprirei com a minha. – disse me posicionando para que eles desamarrassem meus pulsos.
Lius se aproximou e novamente me cortou com a faca de prata, me dando mais dor. Levantei-me com um pouco de dificuldade enquanto Lius e os demais lupinos se afastavam, olhei para Ingrid, ela estava no chão, humilhada, fraca, não era essa a última imagem que eu queria levar comigo.
– Corra Vampiro, corra! – mandou Lius enquanto se preparava para me perseguir junto dos demais. Dei mais um último olhar para Ingrid e pude ler um “te amo” de seus lábios. Só pude sorrir em troca.
Comecei a caminhar para em seguida correr e corri o máximo que pude, eu queria o bando todo longe de Ingrid, eu sabia que ela jamais conseguiria ficar com eles se eu morresse, eu daria tempo para que ela pudesse fugir para sempre.
A floresta estava mais escura, eu não tinha mais forças para enxergá-la como antes, meus olhos estavam comuns, humanos, tentei despistá-los, mas desisti, a minha meta era tê-los ao meu encalço o mais tempo possível.
Vi o bando se separar, eles queriam me cercar, não dar opções de fuga, a minha morte era a meta deles. Como um bom predador eu sabia como eles pensavam, se bem que nunca fui bom em trabalhar em grupo, vampiros são solitários na caçada, pois correm o risco de machucar uns aos outros na hora em que os instintos estão aflorados. Instintos. Lembrei-me deles, um em especial eu tentava afastar, o de sobrevivência, o de fuga. Parei sem fôlego em frente a um pequeno riacho e vi uma enorme serpente, a ataquei, ela me serviu bem, apesar de seu sangue ser tão ruim, ajudou a me curar das feridas da prata. Dois animais que me saciaram numa noite, se eu saísse dessa, repensaria o meu modo de vida. Voltei-me as árvores e vi os olhares entre as folhas, os lobos se aproximavam, suas cores eram tantas, castanhos, ruivos, amarelos, eles tinham a pelagem da cor dos cabelos quando humanos. Com exceção de Lius e Ingrid.
Posicionei-me, eu não iria me entregar sem luta.
Os lobos vieram e um a um me atacaram, derrubei muitos deles. Um me mordeu me fazendo mordê-lo de volta. O sangue era pior que o da serpente. Cuspi enojado, o lobo mordido saiu grunhindo.
Lius veio. Ele era um dos maiores, seus pêlos cinzentos me lembravam os de Ingrid. Travei uma luta feroz com ele, a desvantagem era a minha companheira constante enquanto os outros lobos me mordiam, me atrapalhando na luta. Vi que o bando todo estava aqui, atrás de mim. A exaustão, tão rara em minha espécie, me dominava na forma de uma sede excruciante. Caí no chão, mas não antes de ter acabado com alguns deles.
Lius se aproximou e pude ver no olhar do lobo a vitória certa, ele se aproximou mostrando seus caninos brancos. Grunhi, o instinto de sobrevivência ainda gritava, mas a fraqueza o calou logo.
Depois de mais de cem anos como vampiro, eu finalmente iria saber se tenho ou não uma alma.
Quatro logos me seguravam com mordidas violentas, enquanto Lius se aproximava para dar-me o golpe final, ele mirava minha garganta, meu ponto fraco, me rendi à exaustão e parei de resistir. O restante do bando parou ao comando alfa de Lius, ele me queria só para ele, outro lobo cinzento ignorou a ordem, este vinha devagar, Lius não o viu de imediato, mas o bando deu o alarme. O lobo cinzento deixou cair algo perto de mim e saltou sobre Lius o mordendo na garganta, Lius começou a se debater com olhos incrédulos, o lobo era Ingrid e ela me trouxe o punhal.
Enquanto ela lutava com Lius, estranhei o restante do bando permanecer no lugar e lembrei-me do último comando alfa de Lius, talvez fosse por isso, ou talvez estivessem respeitando a luta entre os irmãos.
Peguei o punhal caído ao meu lado e esperei até que pudesse distinguir um do outro, acertei Lius bem no coração. O lobo soltou um grito feroz e logo caiu, os outros ao verem seu líder caído vieram na minha direção, mas logo se afastaram com um grunhido de Ingrid. Caí sentado ao ver que tudo havia terminado, Ingrid pesarosa foi até o corpo do irmão. O lobo continuava intacto, mas seu corpo estava frio. Ingrid fraquejou e também caiu, a sua forma de lobo deu lugar à aparência humana, ela estava chorando. A chuva estava passando e o céu nublado deu lugar a um final de madrugada com céu límpido.
– Vou morrer – ela me disse pesarosa – não tenho mais tempo, aquele antídoto era uma cura falsa, posso sentir a prata tomar conta do meu coração. – disse me abraçando – tanto esforço para nada.
– Como nada? E o nosso amor, ele não conta? – perguntei soluçando, sentindo a falta das lágrimas que secaram com a eternidade.
– Claro que conta, mas lamento não poder mais estar com você. – disse num fio de voz
– Então vou com você – falei decidido enquanto nos abraçávamos sentados ali no chão. – não quero uma eternidade sem você. – olhei para o céu já vendo o sol se aproximar, me entregaria aos seus raios em poucas horas. Ingrid me entendeu, encostou-se a mim e olhou para o céu, esperaríamos pela morte juntos. Finalmente eu saberia se teria uma alma ou não.
Beijei Ingrid como nunca havia beijado, sem cuidados, sem medo de machucá-la, senti o gosto do seu sangue em minha boca e logo recuei, a prata estava na sua corrente sanguínea e se espalhando ainda mais.
Senti um calafrio, logo o sol apareceria, eu lutava com todas as minhas forças para ficar e esperar pelo brilho que acabaria coma minha existência, Ingrid dormia, sua respiração estava fraca, logo ela morreria. Olhei para ela, tão frágil, naquela hora ela era tão humana, longe de qualquer traço de um lupino, olhei-a bem e pensei, por que não tentar?
Acordei-a com cuidado e propus o meu plano que foi aceito de imediato, afinal não tínhamos nada a perder, a não ser a nossa existência.
Curvei-me sobre o corpo inerte do lobo morto, Ingrid fechou os olhos, não queria ver corpo do seu irmão. Suguei o sangue com sofreguidão, engolindo cada gole com dificuldade, sem prazer, sem necessidade, apenas urgência. Depois de saciado, dei mais um beijo em Ingrid, ela se entregou inteiramente e logo estava à beira da morte de tão enfraquecida. Dei-lhe o meu sangue, mas muito pouco, ela o aceitou e bebeu fazendo uma careta, logo pequenos espasmos tomaram conta de seu corpo e ela se contorceu de dor, seu suor estava brilhante, a prata estava saindo de seu corpo, os espasmos continuaram, tive que carregá-la a uma caverna próxima, o sol logo apareceria.
Ingrid se transformou em lobo para lidar melhor com a dor, mas algo deu errado, depois de algumas horas ela ainda era um lobo, fiquei assustado e ela também. Talvez o meu sangue tenha mexido com o dom lupino dela, pensei preocupado. Em seu desespero ela saiu da caverna, o sol estava alto lá fora, eu não podia ir atrás dela. Da caverna vi que o sol não a afetava. Tudo que poderia fazer era esperar, logo adormeci sob o poder do dia.
Anoiteceu. Abri meus olhos. E lá estava ela, linda e na forma humana. Sorri ao vê-la, ela me abraçou, seu cheiro estava diferente, não mais atiçava a minha sede de sangue.
– Não entendo o que aconteceu – olhou em meus olhos – acho que agora sou como você, mas não sou inteiramente. – me disse confusa.
– Por que diz isso? – perguntei curioso.
– Posso andar de dia, mas só como lobo. Não consigo mudar de forma no sol – me explicou.
– Só sua parte humana morreu para o dia – lhe disse com cautela – o lobo ainda está vivo, você ainda é uma lupina.
– E, como lupina, preciso caçar – me disse sorrindo e se transformando novamente em lobo.
Andamos juntos pela floresta e caçamos, com a certeza de que ficaríamos juntos eternamente. Encontramos um grande alce, eu fiquei com o sangue e ela com a carne.
Tinha apenas vinte anos, e toda a inconseqüência da juventude. Os amigos, desgraçados, choravam e faziam um escarcéu no velório: fungavam alto, se debulhavam em lágrimas, soluços e gemidos ensurdecedores. Gritavam aos céus que também queriam morrer, difamando Deus e perguntando a Ele como pudera ser tão cruel com uma de suas mais belas filhas. Os óculos escuros escondiam a vermelhidão das falsas lágrimas e as olheiras da ressaca verdadeira.
Malditos. Nem sequer se ofereceram para ajudá-la. Viram que não havia nenhuma condição para que ela dirigisse aquele carro, mas mesmo assim a deixaram ali, bêbada, dançando na pista com uma dose de tequila nas mãos. Não foram dignos, e agora chorava.
Hipócritas.
O único ali que realmente se importava com ela – além, é claro, dos pais e familiares próximos (porque até mesmo os parentes distantes pareciam estar ali mais por obrigação do que pesar) – era o namorado. O pobre coitado, sentado em um canto qualquer, sozinho, olhando para o chão e contando os azulejos, esperando o tempo passar. Remoia sentimentos bons. Remoia amor, brigas, sexo, frases e sonhos. Sonhos perdidos, despedaçados e destruídos, como o carro ficara após a capotagem. Rodava a aliança de noivado nas mãos, olhando para a pequena inscrição gravada do lado de dentro: Felipe e Helena. O anel custara as economias de quinze dias de trabalho, e seu par continuava escondido no fundo do armário dele, dentro da caixa envolta por camurça. Não tinha coragem de pegar naquela caixinha. Iria pedi-la em casamento, mas a coragem (ou a falta dela) não permitira. Agora era tarde.
Abaixou a cabeça, e deixou que as lágrimas escorressem.
Uma mão veio em sua direção, e não demorou muito para que Felipe se sentisse envolvido por braços quentes, gordos e aconchegantes. Quando levantou os olhos, viu que a mãe de Helena estava ao seu lado, compartilhando a dor. Era uma mulher gorda, com olhos claros e rosto vermelho pelo pranto. Mesmo com a dor da perda, a mulher tentou sorrir, encorajando Felipe a imitá-la. Mas ele não o fez.
- Vai ficar tudo bem… – ela sussurrou, abraçando o garoto, envolvendo-o com o calor de seu grande corpo.
- Era eu quem deveria estar falando isso para você… – ele sussurrou. – Desculpe pelo meu egoísmo.
- Não se preocupe com isso, meu filho. Sentimos a mesma dor.
- Não. A sua é mais… forte.
Ela deu um sorriso.
- É tão forte quanto a que você sente.
Ele permaneceu calado. Sua alma estava despedaçada, em cacos, como o vidro reluzente que, ao chão do asfalto, parecia um tapete de estrelas caídas.
Nunca mais sentiria aquele calor, aquela pele, aqueles beijos. Nunca mais poderia dizer boa noite a ela.
Ninguém sabe de onde vem a voz, se do negro esfarrapado, da mulher enrolada no cobertor ou da criança nua. O fato era que os mendigos pareciam agir em uníssono, completando as frases uns dos outros enquanto a chuva de mãos cai sobre a vítima em sua glória multiforme.
- Dá pra… - disse o homem
- …mim. Eu quero…- disse a mulher
- …tudo que você…- a criança
- …tem, agora.- e o homem outra vez.
Sônia pensou que, se a entidade dominava todas aquelas pessoas, por que não a ela? E por que o ataque? O que ela teria que alguém capaz de acessar tantas mentes ao mesmo tempo poderia querer?
Essas eram perguntas que permaneceriam sem resposta se ela não se livrasse das unhas sujas, do bafo coletivo, do elenco de marionetes do esgoto. Para uma mulher pequena, até que era forte, uma pernada aqui e um empurrão, caem os peões entorpecidos.
Os jornais falaram a respeito dos distúrbios no Centro, mas Sônia não acreditou. Como assim, os mendigos reunidos em levante depredaram a Candelaria? A polícia chegou e distribuiu cacetadas nos invisíveis até tingirem o mar de roupas cor-de-burro-quando-foge com degradés rôxo-hematoma. A massa humana dispersou, voltando à catatonia lamurienta vítima de chacinas mis, mas que sempre volta e volta e volta, arrastando os pés elefantísicos num recordatório das desigualdades criminosas.
Os expurgos diziam que o Andarilho das Almas os possuiu. Uma entidade capaz de pular de mente em mente, causando um efeito de maré, uma revolução instantânea, sem manifestos ou cartas de intenções, sem discursos ou decálogos. Apenas o cheiro de suor de semanas e as dezenas de mãos agarrando, rasgando. Longe os dias de pedintes, eles pegavam.
O levante do dia seguinte, que atingiu Sônia distraída olhando uma vitrine, foi pior. Num momento crucial, não adiantava fingir que não se via os danados correndo pelo cruzamento. O truque não funcionava porque a presença deles se impunha em punhos e não há quem ignore um murro, uma prensa no muro. A reação imediata, mais por nojo que por medo, levava a um afogamento na cor que nunca existiu das roupas folgadas. Gente folgada.
As viaturas policiais, já preparadas, viraram a esquina, uivando. Sônia nadou até eles pela caatinga, cortando o mau-cheiro com as mãos em cutelo, desferindo golpes certeiros, mas sem efeito, já que para cada um que caía, três voltavam à carga. Ainda assim, deu para ouvir o som dos tiros, quando os policiais dispararam contra a turba turbilhonante, desaparecendo sob a areia humana.
Prestes a desmaiar, Sônia perguntou “por que eu?” e, momentos antes de sentir a boca inundada por trapos e dedos, o Andarilho de Almas, calmo e sem um pingo de ironia, explicou dentro da caixa craniana:
Diego acabou suas obrigações e olhou o relógio. Três horas! Eram apenas três horas, e ele já não tinha o que fazer até a hora de dormir. Olhou para a aliança de noivado em seu dedo e lamentou que a gêmea dela estivesse a quilômetros de distância, em outra cidade.
“Cristina…”
Sem Cristina, as horas passavam como um sistema de cinco incógnitas e cinco equações, como um período tortuoso, comprido e cheio de preciosismos, como um interminável e dissonante intermezzo.
Um tédio.
Era em horas como aquela que ele sentia saudades de estar com ela, conversar com ela, tocá-la, aborrecê-la, fazê-la sorrir… E logo que se lembrava da distância entre os dois, ele via que aquilo era impossível.
Se ao menos tivesse algo para fazer… Mas não tinha.
Tinha apenas a saudade e uma necessidade profunda e imediata de dar e receber afeto. Uma idéia travessa cruzou-lhe a mente, e ele a dispensou. Cristina não iria gostar. Porém, já dizia o grande escritor, idéias são da família das moscas. A idéia voltou e voltou, até que ele cedeu. Só havia um jeito de aliviar aquela saudade, aquele desejo.
“Lucy.”
Sua tentação e sua perdição.
Diego levantou-se da cama e cruzou, cuidadosamente, os longos corredores daquele que acabou se tornando seu lar. Parou diante da porta trancada e, com a habilidade que vem da reincidência, arrombou a fechadura.
Lá estavam elas, trancadas para serem protegidas dos homens que as buscavam, ávidos. “Como se elas não quisessem o que quero tanto quanto eu.” As mais novinhas pareciam ansiosas, mas ele as ignorou. Procurava um leito especial. No mesmo lugar onde, num saudoso passado, já estiveram Julia, Penny, Pepper e Hill, Lucy repousava tranqüila.
A mais velha de todas.
Não podia ouvir, nem falar, mas ele percebia que ela mal podia se conter. Isso aumentou a ansiedade de Diego, que, naquele dia, já estava muito grande. Agarrou o braço de Lucy sem cerimônias e levou-a consigo para o quarto dele, sem dar nenhuma explicação. Ela seguiu-o, dócil.
Quando chegaram ao quarto, ele abraçou-a forte e se atirou na cama com ela. Houve um pequenino som de protesto, e o garoto apressou-se em colocá-la em posição mais confortável. Após um rápido afago, um zíper foi puxado e o vestido preto e justo de Lucy foi atirado displicentemente para o lado.
Agora sim!
Como eram belas aquelas curvas! Como aquela visão o encantava!
Diego começou tocando levemente os cabelos dela. Lucy gemeu melodiosamente. Aquilo fez o corpo todo do garoto tremer de satisfação. Um novo toque e o mesmo som. “Você gosta de me provocar, não gosta? Sabe bem que a Cris não está aqui. Bobo daquele que diz que você não percebe nada…” Sentou Lucy em seu colo e passou a fazer-lhe cócegas leves na barriga. O gemido se tornou ainda mais suave, quase um ronrom. “Sua malandra! Sabe que a Cris tem muito ciúme de você? O que ela diria se nos visse agora? Ou melhor, o que faria? Ela não é do tipo de ladrar muito… Ela morde, Lucy.” Alheia aos pensamentos de Diego, Lucy continuava abandonada a suas carícias, correspondendo com os sons que o garoto tanto adorava.
Com Lucy, o tempo e o espaço pareciam se distorcer aos poucos. A cama e o quarto eram tão grandes quanto o Universo, o tempo fluía em velocidades diferentes para cada momento. Céus de marmelada. Flores de celofane. Táxis de jornal.
Caleidoscópio. Um grande caleidoscópio.
Os minutos com ela logo se converteram em horas, e não foi sem alarme que Diego constatou que já eram seis horas. “Ficamos até tarde hoje! Logo darão por sua falta!” Ainda acariciou-a, deitada em seu colo. Sem pressa, o vestido foi reposto e eles voltaram se arrastando para o quarto de Lucy.
“Cris não vai ficar brava comigo, se descobrir, vai? Sei que vai entender. Faço isso porque a amo. E, sem ela aqui, só passando muito tempo com a Lucy para suportar sua ausência. Lucy não é concorrente da Cris. É sua suplente.”
Deitou Lucy muito suavemente em seu lugar, jurando que ainda encontraria um modo de não permitir que outras mãos, que não as dele, tocassem-na. “Você é minha, Lucy. Sabe disso.” Ele não queria as outras que o esperavam, cheias de desejo de trabalhar. Nem chegavam aos pés da mais velha. Seus nomes não lhe diziam nada. Elas não eram nada para ele.
A porta foi trancada novamente e Diego se afastou. Os pensamentos com a noiva se alternavam com os pensamentos com ela.
Ao luar, Mileva chorava. Seu grande amor, Rinaldo, morrera na guerra que ainda se travava nas colinas da Moldávia. “Malditos sejam os mamelucos!”
O Dragão lutava com toda sua audácia, coragem e bravura para defender aquela terra dos muçulmanos. Seu amor lutara lado a lado com ele, arrancando membros e espalhando vísceras pagãs sobre a terra da Europa. O Dragão o exaltava, por sua sede de sangue e bravura.
Quando com ela, Rinaldo era terno e doce, e lhe contava dos empalamentos com uma paixão que a deixava tonta, não de medo ou terror, mas de um prazer secreto, uma excitação que aflorava com uma ânsia por ele e suas mãos fortes e calejadas, mãos que estrangulavam e estripavam, mãos que ela amava.
Mileva chorava. Suas lágrimas eram amargas e doces, carregadas de um amor infinito, que ela ansiava superar a própria Morte.
Aquela lua, brilhante e fria, doía muito mais em seu coração que a ferida causada pelo sofrimento pelo amado. Doía tão profundamente, que seu maior desejo era dissolver-se naquela dor, transformar-se em luar que fosse, como nas histórias de amores trágicos que ouvira quando menina.
Agora a menina era quase uma mulher, e já viúva, sem nunca ter tido suas núpcias. O desejo que fora despertado por Rinaldo lhe queimava mais que nunca, afogando-lhe os sentidos e a razão. Ardia e se consumia no ardor de um desejo não satisfeito, soluçava de dor angustiante pela morte de seu querido, gritava de paixão, ódio e pela sexualidade recém despertada e reprimida.
Na beira do lago em que deitara para chorar, uma luz fria como a neve do inverno invadia todo seu ser e reclamava o fogo que a incendiava. Um brado angustiante evadiu-se de sua garganta, e a Lua parecia oferecer-lhe sua compaixão.
- Quero meu amado, morto ou vivo, seja eu morta ou viva! Se a vida é tamanha dor, a morte me é bem-vinda. Seja eu mais um espírito a vagar, desde que com meu amado! Que eu seja uma daquelas que sugam o calor dos amantes como tu, Lua, que suga minha vida agora! Me leve para o reino das Sombras! Não quero viver assim!
Levantando-se, encarou o luar, sentindo a força mágica das palavras reverberarem na noite silenciosa. Sabia que era um caminho sem volta, amaldiçoada por si mesma, uma igual àquelas vampyr que ouvia nos contos da avó.
- Sou tua para onde me levares, Lua dos seres da Noite, Lua dos Condenados a vagar nas Trevas! Que tomar a vida seja minha sina, para apagar minha fome de amor! Que me sejam companheiros teus filhos sombrios! Possa eu reinar contigo, na Sombra de todas as sombras!
Como em resposta à sua invocação, um vento congelante fustigou-a, levantando folhas e tomando a face de Rinaldo.
-Meu amado!
Atirou-se a seus braços, gélidos, e viu que a face amada transfigurava-se na do Dragão, Vlad Tepes.
- Posso te dar muito mais que a morte que desejas. Posso te fazer uma Rainha nas Trevas que sirvo. Sê minha, e terás o mundo para te alimentares!
Mileva deu uma gargalhada enlouquecida. Maldição por maldição, já estava separada daquele que amava por um abismo intransponível. O que lhe era oferecido era mais que uma reparação, agora entendia isso. O desejo que a consumia ardia forte, sabendo que a decisão já havia sido tomada, sem que tivesse tido consciência do fato.
- Sou tua, agora e sempre, meu amado, tenha tu a face que tiveres. Toma meu corpo, minha alma e minha vida.
O ensandecido ser avidamente abocanhou seu pescoço desnudo, enquanto a arriava no chão. Sentiu seu sangue jorrar para a boca do monstro que agora amava. Placidamente, deixou-se deitar e violar, com um sorriso no rosto, sentindo estranhamente que a morte já deveria ter ocorrido.
No lugar dela, apenas uma grande alegria, um triunfo infinito, e um desejo por um pescoço quente e vivo para sugar.
Querido diário. Me sinto abençoado. Hoje é o dia mais feliz de minha vida! Algo maravilhoso me aconteceu! Eu fiz amor com uma sereia! Estou cheirando a peixe até agora, mas foi muito bom. Foi um presente de Deus para este romântico incurável. Mesmo que meus primos digam sempre que sou fantasioso, sei que Deus ajuda aqueles que se dedicam de corpo e alma a sua devoção.
O dia não começou bem. Meu tio estava arrasado porque havia matado um golfinho na pescaria de ontem. O pobre animal ficou preso na rede junto com os peixes. Dá azar matar golfinhos, e eu propus que rezássemos para as divindades do mar.
Quando todos foram aproveitar o carnaval na cidade, eu preferi ficar e tomar conta do barco. Bebi um pouquinho de vinho enquanto olhava para o oceano e pedia perdão, sempre rezando, louvando ao senhor. Foi quando aquele ser emergiu do mar. Ela estava totalmente nua e tinha os seios divinos. Sabia que ela estava lá por causa do golfinho.
Eu comecei a chorar e pedi desculpas. No alto de sua sabedoria, ela perdoou nossos pecados.
- Os deuses me abençoaram! – falei para a sereia.
Ela levou minhas mãos até seus seios, depois me beijou. Eu me senti caindo por entre as nuvens. Quando dei por mim, estava deitado sobre algo macio como as nuvens do céu, e ela estava sobre mim. Senti sua pele lisa e macia. Apesar de ser peixe da cintura para baixo, aquele ser sobrenatural possuía uma vagina.
- Estou aqui! Sou toda sua! – sussurrava ela.
Percebi a dádiva que estava recebendo e fizemos amor a noite inteira!
Logo que acordei vim para cá escrever! Quanta emoção, só estou cheirando a peixe. Mas isto é um detalhe insignificante diante desta bênção!
Diário de Katarina – um dia antes…
19:35
Ele era um deus Grego, um filezão! Fiquei louquinha para ficar com ele. Nossa! Como ele é gatinho. Está lá no outro barco. Estou olhando ele direto, dando idéia mesmo! Mas ele fica lá, bebendo e bebendo! Está fazendo jogo duro. Mas eu sei o que vou fazer. Vou pular na água e ir nadando até lá, antes que ele caia de tanto beber. Seja o que Deus quiser! Afinal, o carnaval está acabando e ainda não fiquei com ninguém.
20:30
Voltei. Foi um fracasso! Ele era um completo idiota! Quando cheguei ao barco, descobri que meu sutiã desaparecera. Mesmo assim resolvi subir no barco dele. Ele ficou me olhando com cara de bobo, depois pediu desculpas sei lá por que, veio com um papo de perdão divino. Resolvi que ele estava muito bêbado para conversar e decidi ir direto ao assunto. Levei a mão dele até meus seios. Ele pareceu entender finalmente. Me chamou de sereia e eu lhe disse que seria sua sereia se ele quisesse.
Então ele me beijou meio desajeitado. Tentei suportar seu bafo de vinho, mas ele arrotou na minha boca. Fiquei com tanto nojo que o empurrei, fazendo com que ele caísse pelo buraco que dava para o porão do barco. Caiu em cima de um amontoado de peixes. Um golfinho morto, que estava pendurado por uma corda, se soltou e caiu sobre meu deus grego. Ele então começou a beijar o animal. Eu ainda gritei para ele, dizendo que eu estava lá em cima, mas o acéfalo não me escutou e começou a transar com o golfinho.
Diante daquela cena, preferi voltar nadando para meu barco. Amanhã cedo vou começar a arrumar as malas para voltar para casa. Vou entrar numa academia de ginastica assim que voltar! Quem sabe assim, não perca mais homens para golfinhos mortos!
– Não, o sr. Iglesia é um administrador impecável! Nem parece dono de bordel. Não perdoaria a gente por provocar um fim de carreira tão humilhante.
– Detesto quando você chama o circo de bordel. Você sabe que detesto.
– Não importa a produção, a pompa, a forma de pagamento. O que as pessoas fazem aqui é…
– Sexo.
– E fazem em troca de…
– Dinheiro.
Enquanto tramavam o plano, Tib e Nib estavam louras, bem maquiadas e vestidas de empregada doméstica. Quando conversavam assim, não importava quem dizia o quê. Não eram inconfundíveis nem para si mesmas.
Isso porque era sexta. Às quartas, usavam chapéu de cowboy, botas e só. Às quintas, a fantasia de gueixa se resumia na maquiagem branca com boquinha vermelha. Aos sábados, abriam a caixa de sugestões dos clientes.
– O tiro dele vai sair pela culatra – resumiu Nib. Ou Tib.
– Você vai causar tudo isso – respondeu a outra.
– O que você queria? Cansei dessa vida.
Uma das duas tinha razão de estar cansada de dar muito e receber muito pouco. De fato, tudo começou quando uma das 14 garotas do sr. Iglesia convenceu duas colegas a pregar uma peça em milhares de clientes, de uma só vez.
Quando era num quarto luxuosamente gótico numa mansão neo-vitoriana, tudo bem. Quando o filho chapado de Iglesia teve a idéia mefistofélica de colocar esse mesmo quarto, sem as paredes, na arena do anfiteatro, tudo não tão bem.
Um mês de prostituição coletiva, de intimidades escancaradas a milhares de voyeurs e voyeuses gritando para alguém puxar o lençol, que não pagaram para ver a mesma posição da semana passada, o trabalho das garotas ficou insalubre.
– Qual a fantasia de hoje?! – perguntou Iglesias nos bastidores.
– Gladiadoras lolitas.
– Vai rolar porrada? – ele riu.
– Só se for na tua cara, com todo respeito, senhor – respondeu Tib, segurando o bastão tridentado que deu apoio a seu comentário precipitado.
Iglesia foi para o camarote. Ansioso, não suspeitava que o fim das atividades lucrativas aconteceria em rede nacional ao vivo e, em tempo real, na Internet.
Em vez de executarem o prometido no ingresso, o espetáculo com o vencedor da promoção “No boudoir da garota do mês, ela é sua”, as três gladiadoras douradas, Nib, Tib e Rosalina, apresentaram apenas uma dancinha patética, uma presepada para humilhar o patrão e revoltar a platéia irascível.
As vaias ecoaram como um trovão entre as estruturas de concreto. Um grupo de nerds desvairados invadiu a arena correndo, reclamando aos berros da falta de veracidade das fantasias. A polícia feminina tomou as dores das putas rebeldes e colocou ordem no tumulto, dando voadoras no peito dos invasores, xingando a platéia e atirando bombas de gás em quem fizesse cara de bobo.
Em defesa da sua honra profissional, o sr. Iglesia desceu para tentar separar algum dos focos da briga. Ofegante, Iglesia sentiu um tapa na nuca e rolou pelo chão de terra, atracando-se com o estudante de história antiga.
– Não valeu a pena? – disse Tib no banco da delegacia.
– É. Graças ao representante da torcida organizada, Abutres de Baco. – concordou Nib, cobrindo com um lençol o que não sobrara da fantasia. – Se ele não tivesse registrado queixa, nunca que a gente conseguia largar essa vida.