Dezembro 2008


Tinha apenas vinte anos, e toda a inconseqüência da juventude. Os amigos, desgraçados, choravam e faziam um escarcéu no velório: fungavam alto, se debulhavam em lágrimas, soluços e gemidos ensurdecedores. Gritavam aos céus que também queriam morrer, difamando Deus e perguntando a Ele como pudera ser tão cruel com uma de suas mais belas filhas. Os óculos escuros escondiam a vermelhidão das falsas lágrimas e as olheiras da ressaca verdadeira.

Malditos. Nem sequer se ofereceram para ajudá-la. Viram que não havia nenhuma condição para que ela dirigisse aquele carro, mas mesmo assim a deixaram ali, bêbada, dançando na pista com uma dose de tequila nas mãos. Não foram dignos, e agora chorava.

Hipócritas.


O único ali que realmente se importava com ela – além, é claro, dos pais e familiares próximos (porque até mesmo os parentes distantes pareciam estar ali mais por obrigação do que pesar) – era o namorado. O pobre coitado, sentado em um canto qualquer, sozinho, olhando para o chão e contando os azulejos, esperando o tempo passar. Remoia sentimentos bons. Remoia amor, brigas, sexo, frases e sonhos. Sonhos perdidos, despedaçados e destruídos, como o carro ficara após a capotagem. Rodava a aliança de noivado nas mãos, olhando para a pequena inscrição gravada do lado de dentro: Felipe e Helena. O anel custara as economias de quinze dias de trabalho, e seu par continuava escondido no fundo do armário dele, dentro da caixa envolta por camurça. Não tinha coragem de pegar naquela caixinha. Iria pedi-la em casamento, mas a coragem (ou a falta dela) não permitira. Agora era tarde.

Abaixou a cabeça, e deixou que as lágrimas escorressem.

Uma mão veio em sua direção, e não demorou muito para que Felipe se sentisse envolvido por braços quentes, gordos e aconchegantes. Quando levantou os olhos, viu que a mãe de Helena estava ao seu lado, compartilhando a dor. Era uma mulher gorda, com olhos claros e rosto vermelho pelo pranto. Mesmo com a dor da perda, a mulher tentou sorrir, encorajando Felipe a imitá-la. Mas ele não o fez.

- Vai ficar tudo bem… – ela sussurrou, abraçando o garoto, envolvendo-o com o calor de seu grande corpo.

- Era eu quem deveria estar falando isso para você… – ele sussurrou. – Desculpe pelo meu egoísmo.

- Não se preocupe com isso, meu filho. Sentimos a mesma dor.

- Não. A sua é mais… forte.

Ela deu um sorriso.

- É tão forte quanto a que você sente.

Ele permaneceu calado. Sua alma estava despedaçada, em cacos, como o vidro reluzente que, ao chão do asfalto, parecia um tapete de estrelas caídas.

Nunca mais sentiria aquele calor, aquela pele, aqueles beijos. Nunca mais poderia dizer boa noite a ela.

Agora, só podia dizer adeus.

Ninguém sabe de onde vem a voz, se do negro esfarrapado, da mulher enrolada no cobertor ou da criança nua. O fato era que os mendigos pareciam agir em uníssono, completando as frases uns dos outros enquanto a chuva de mãos cai sobre a vítima em sua glória multiforme.

- Dá pra… - disse o homem

- …mim. Eu quero…- disse a mulher

- …tudo que você…- a criança

- …tem, agora.- e o homem outra vez.

Sônia pensou que, se a entidade dominava todas aquelas pessoas, por que não a ela? E por que o ataque? O que ela teria que alguém capaz de acessar tantas mentes ao mesmo tempo poderia querer?

Essas eram perguntas que permaneceriam sem resposta se ela não se livrasse das unhas sujas, do bafo coletivo, do elenco de marionetes do esgoto. Para uma mulher pequena, até que era forte, uma pernada aqui e um empurrão, caem os peões entorpecidos.

Os jornais falaram a respeito dos distúrbios no Centro, mas Sônia não acreditou. Como assim, os mendigos reunidos em levante depredaram a Candelaria? A polícia chegou e distribuiu cacetadas nos invisíveis até tingirem o mar de roupas cor-de-burro-quando-foge com degradés rôxo-hematoma. A massa humana dispersou, voltando à catatonia lamurienta vítima de chacinas mis, mas que sempre volta e volta e volta, arrastando os pés elefantísicos num recordatório das desigualdades criminosas.

Os expurgos diziam que o Andarilho das Almas os possuiu. Uma entidade capaz de pular de mente em mente, causando um efeito de maré, uma revolução instantânea, sem manifestos ou cartas de intenções, sem discursos ou decálogos. Apenas o cheiro de suor de semanas e as dezenas de mãos agarrando, rasgando. Longe os dias de pedintes, eles pegavam.

O levante do dia seguinte, que atingiu Sônia distraída olhando uma vitrine, foi pior. Num momento crucial, não adiantava fingir que não se via os danados correndo pelo cruzamento. O truque não funcionava porque a presença deles se impunha em punhos e não há quem ignore um murro, uma prensa no muro. A reação imediata, mais por nojo que por medo, levava a um afogamento na cor que nunca existiu das roupas folgadas. Gente folgada.

As viaturas policiais, já preparadas, viraram a esquina, uivando. Sônia nadou até eles pela caatinga, cortando o mau-cheiro com as mãos em cutelo, desferindo golpes certeiros, mas sem efeito, já que para cada um que caía, três voltavam à carga. Ainda assim, deu para ouvir o som dos tiros, quando os policiais dispararam contra a turba turbilhonante, desaparecendo sob a areia humana.

Prestes a desmaiar, Sônia perguntou “por que eu?” e, momentos antes de sentir a boca inundada por trapos e dedos, o Andarilho de Almas, calmo e sem um pingo de ironia, explicou dentro da caixa craniana:

- Desculpe, filha. Eles não sabem o que fazem.