Novembro 2008


Lucy

Em homenagem a uns meninos ingleses

que conheci há pouco tempo, mas já admiro muito.

Dedicado ao Lorde Samael Darcângelo,

pela inspiração.

Diego acabou suas obrigações e olhou o relógio. Três horas! Eram apenas três horas, e ele já não tinha o que fazer até a hora de dormir. Olhou para a aliança de noivado em seu dedo e lamentou que a gêmea dela estivesse a quilômetros de distância, em outra cidade.

“Cristina…”

Sem Cristina, as horas passavam como um sistema de cinco incógnitas e cinco equações, como um período tortuoso, comprido e cheio de preciosismos, como um interminável e dissonante intermezzo.

Um tédio.

Era em horas como aquela que ele sentia saudades de estar com ela, conversar com ela, tocá-la, aborrecê-la, fazê-la sorrir… E logo que se lembrava da distância entre os dois, ele via que aquilo era impossível.

Se ao menos tivesse algo para fazer… Mas não tinha.

Tinha apenas a saudade e uma necessidade profunda e imediata de dar e receber afeto. Uma idéia travessa cruzou-lhe a mente, e ele a dispensou. Cristina não iria gostar. Porém, já dizia o grande escritor, idéias são da família das moscas. A idéia voltou e voltou, até que ele cedeu. Só havia um jeito de aliviar aquela saudade, aquele desejo.

“Lucy.”

Sua tentação e sua perdição.

Diego levantou-se da cama e cruzou, cuidadosamente, os longos corredores daquele que acabou se tornando seu lar. Parou diante da porta trancada e, com a habilidade que vem da reincidência, arrombou a fechadura.

Lá estavam elas, trancadas para serem protegidas dos homens que as buscavam, ávidos. “Como se elas não quisessem o que quero tanto quanto eu.” As mais novinhas pareciam ansiosas, mas ele as ignorou. Procurava um leito especial. No mesmo lugar onde, num saudoso passado, já estiveram Julia, Penny, Pepper e Hill, Lucy repousava tranqüila.

A mais velha de todas.

Não podia ouvir, nem falar, mas ele percebia que ela mal podia se conter. Isso aumentou a ansiedade de Diego, que, naquele dia, já estava muito grande. Agarrou o braço de Lucy sem cerimônias e levou-a consigo para o quarto dele, sem dar nenhuma explicação. Ela seguiu-o, dócil.

Quando chegaram ao quarto, ele abraçou-a forte e se atirou na cama com ela. Houve um pequenino som de protesto, e o garoto apressou-se em colocá-la em posição mais confortável. Após um rápido afago, um zíper foi puxado e o vestido preto e justo de Lucy foi atirado displicentemente para o lado.

Agora sim!

Como eram belas aquelas curvas! Como aquela visão o encantava!

Diego começou tocando levemente os cabelos dela. Lucy gemeu melodiosamente. Aquilo fez o corpo todo do garoto tremer de satisfação. Um novo toque e o mesmo som. “Você gosta de me provocar, não gosta? Sabe bem que a Cris não está aqui. Bobo daquele que diz que você não percebe nada…” Sentou Lucy em seu colo e passou a fazer-lhe cócegas leves na barriga. O gemido se tornou ainda mais suave, quase um ronrom. “Sua malandra! Sabe que a Cris tem muito ciúme de você? O que ela diria se nos visse agora? Ou melhor, o que faria? Ela não é do tipo de ladrar muito… Ela morde, Lucy.” Alheia aos pensamentos de Diego, Lucy continuava abandonada a suas carícias, correspondendo com os sons que o garoto tanto adorava.

Com Lucy, o tempo e o espaço pareciam se distorcer aos poucos. A cama e o quarto eram tão grandes quanto o Universo, o tempo fluía em velocidades diferentes para cada momento. Céus de marmelada. Flores de celofane. Táxis de jornal.

Caleidoscópio. Um grande caleidoscópio.

Os minutos com ela logo se converteram em horas, e não foi sem alarme que Diego constatou que já eram seis horas. “Ficamos até tarde hoje! Logo darão por sua falta!” Ainda acariciou-a, deitada em seu colo. Sem pressa, o vestido foi reposto e eles voltaram se arrastando para o quarto de Lucy.

“Cris não vai ficar brava comigo, se descobrir, vai? Sei que vai entender. Faço isso porque a amo. E, sem ela aqui, só passando muito tempo com a Lucy para suportar sua ausência. Lucy não é concorrente da Cris. É sua suplente.”

Deitou Lucy muito suavemente em seu lugar, jurando que ainda encontraria um modo de não permitir que outras mãos, que não as dele, tocassem-na. “Você é minha, Lucy. Sabe disso.” Ele não queria as outras que o esperavam, cheias de desejo de trabalhar. Nem chegavam aos pés da mais velha. Seus nomes não lhe diziam nada. Elas não eram nada para ele.

A porta foi trancada novamente e Diego se afastou. Os pensamentos com a noiva se alternavam com os pensamentos com ela.

Lucy.

Sua companheira de solidão.

O alívio de seus desejos.

Sua eterna amante.

Lucy.

A melhor guitarra do Conservatório.

Ao luar, Mileva chorava. Seu grande amor, Rinaldo, morrera na guerra que ainda se travava nas colinas da Moldávia. “Malditos sejam os mamelucos!”

O Dragão lutava com toda sua audácia, coragem e bravura para defender aquela terra dos muçulmanos. Seu amor lutara lado a lado com ele, arrancando membros e espalhando vísceras pagãs sobre a terra da Europa. O Dragão o exaltava, por sua sede de sangue e bravura.

Quando com ela, Rinaldo era terno e doce, e lhe contava dos empalamentos com uma paixão que a deixava tonta, não de medo ou terror, mas de um prazer secreto, uma excitação que aflorava com uma ânsia por ele e suas mãos fortes e calejadas, mãos que estrangulavam e estripavam, mãos que ela amava.

Mileva chorava. Suas lágrimas eram amargas e doces, carregadas de um amor infinito, que ela ansiava superar a própria Morte.

Aquela lua, brilhante e fria, doía muito mais em seu coração que a ferida causada pelo sofrimento pelo amado. Doía tão profundamente, que seu maior desejo era dissolver-se naquela dor, transformar-se em luar que fosse, como nas histórias de amores trágicos que ouvira quando menina.

Agora a menina era quase uma mulher, e já viúva, sem nunca ter tido suas núpcias. O desejo que fora despertado por Rinaldo lhe queimava mais que nunca, afogando-lhe os sentidos e a razão. Ardia e se consumia no ardor de um desejo não satisfeito, soluçava de dor angustiante pela morte de seu querido, gritava de paixão, ódio e pela sexualidade recém despertada e reprimida.

Na beira do lago em que deitara para chorar, uma luz fria como a neve do inverno invadia todo seu ser e reclamava o fogo que a incendiava. Um brado angustiante evadiu-se de sua garganta, e a Lua parecia oferecer-lhe sua compaixão.

- Quero meu amado, morto ou vivo, seja eu morta ou viva! Se a vida é tamanha dor, a morte me é bem-vinda. Seja eu mais um espírito a vagar, desde que com meu amado! Que eu seja uma daquelas que sugam o calor dos amantes como tu, Lua, que suga minha vida agora! Me leve para o reino das Sombras! Não quero viver assim!

Levantando-se, encarou o luar, sentindo a força mágica das palavras reverberarem na noite silenciosa. Sabia que era um caminho sem volta, amaldiçoada por si mesma, uma igual àquelas vampyr que ouvia nos contos da avó.

- Sou tua para onde me levares, Lua dos seres da Noite, Lua dos Condenados a vagar nas Trevas! Que tomar a vida seja minha sina, para apagar minha fome de amor! Que me sejam companheiros teus filhos sombrios! Possa eu reinar contigo, na Sombra de todas as sombras!

Como em resposta à sua invocação, um vento congelante fustigou-a, levantando folhas e tomando a face de Rinaldo.

-Meu amado!

Atirou-se a seus braços, gélidos, e viu que a face amada transfigurava-se na do Dragão, Vlad Tepes.

- Posso te dar muito mais que a morte que desejas. Posso te fazer uma Rainha nas Trevas que sirvo. Sê minha, e terás o mundo para te alimentares!

Mileva deu uma gargalhada enlouquecida. Maldição por maldição, já estava separada daquele que amava por um abismo intransponível. O que lhe era oferecido era mais que uma reparação, agora entendia isso. O desejo que a consumia ardia forte, sabendo que a decisão já havia sido tomada, sem que tivesse tido consciência do fato.

- Sou tua, agora e sempre, meu amado, tenha tu a face que tiveres. Toma meu corpo, minha alma e minha vida.

O ensandecido ser avidamente abocanhou seu pescoço desnudo, enquanto a arriava no chão. Sentiu seu sangue jorrar para a boca do monstro que agora amava. Placidamente, deixou-se deitar e violar, com um sorriso no rosto, sentindo estranhamente que a morte já deveria ter ocorrido.

No lugar dela, apenas uma grande alegria, um triunfo infinito, e um desejo por um pescoço quente e vivo para sugar.


 

A sereia Catarina e o pescador Rafael

Diário de Rafael - Quarta-feira de cinzas.

 

Querido diário. Me sinto abençoado. Hoje é o dia mais feliz de minha vida! Algo maravilhoso me aconteceu! Eu fiz amor com uma sereia! Estou cheirando a peixe até agora, mas foi muito bom. Foi um presente de Deus para este romântico incurável. Mesmo que meus primos digam sempre que sou fantasioso, sei que Deus ajuda aqueles que se dedicam de corpo e alma a sua devoção.

O dia não começou bem. Meu tio estava arrasado porque havia matado um golfinho na pescaria de ontem. O pobre animal ficou preso na rede junto com os peixes. Dá azar matar golfinhos, e eu propus que rezássemos para as divindades do mar.

Quando todos foram aproveitar o carnaval na cidade, eu preferi ficar e tomar conta do barco. Bebi um pouquinho de vinho enquanto olhava para o oceano e pedia perdão, sempre rezando, louvando ao senhor. Foi quando aquele ser emergiu do mar. Ela estava totalmente nua e tinha os seios divinos. Sabia que ela estava lá por causa do golfinho.

Eu comecei a chorar e pedi desculpas. No alto de sua sabedoria, ela perdoou nossos pecados.

- Os deuses me abençoaram! – falei para a sereia.

Ela levou minhas mãos até seus seios, depois me beijou. Eu me senti caindo por entre as nuvens. Quando dei por mim, estava deitado sobre algo macio como as nuvens do céu, e ela estava sobre mim. Senti sua pele lisa e macia. Apesar de ser peixe da cintura para baixo, aquele ser sobrenatural possuía uma vagina.

- Estou aqui! Sou toda sua! – sussurrava ela.

Percebi a dádiva que estava recebendo e fizemos amor a noite inteira!

Logo que acordei vim para cá escrever! Quanta emoção, só estou cheirando a peixe. Mas isto é um detalhe insignificante diante desta bênção!

 

Diário de Katarina – um dia antes…

 

19:35

Ele era um deus Grego, um filezão! Fiquei louquinha para ficar com ele. Nossa! Como ele é gatinho. Está lá no outro barco. Estou olhando ele direto, dando idéia mesmo! Mas ele fica lá, bebendo e bebendo! Está fazendo jogo duro. Mas eu sei o que vou fazer. Vou pular na água e ir nadando até lá, antes que ele caia de tanto beber. Seja o que Deus quiser! Afinal, o carnaval está acabando e ainda não fiquei com ninguém.

 

20:30

Voltei. Foi um fracasso! Ele era um completo idiota! Quando cheguei ao barco, descobri que meu sutiã desaparecera. Mesmo assim resolvi subir no barco dele. Ele ficou me olhando com cara de bobo, depois pediu desculpas sei lá por que, veio com um papo de perdão divino. Resolvi que ele estava muito bêbado para conversar e decidi ir direto ao assunto. Levei a mão dele até meus seios. Ele pareceu entender finalmente. Me chamou de sereia e eu lhe disse que seria sua sereia se ele quisesse.

Então ele me beijou meio desajeitado. Tentei suportar seu bafo de vinho, mas ele arrotou na minha boca. Fiquei com tanto nojo que o empurrei, fazendo com que ele caísse pelo buraco que dava para o porão do barco. Caiu em cima de um amontoado de peixes. Um golfinho morto, que estava pendurado por uma corda, se soltou e caiu sobre meu deus grego. Ele então começou a beijar o animal. Eu ainda gritei para ele, dizendo que eu estava lá em cima, mas o acéfalo não me escutou e começou a transar com o golfinho.

Diante daquela cena, preferi voltar nadando para meu barco. Amanhã cedo vou começar a arrumar as malas para voltar para casa. Vou entrar numa academia de ginastica assim que voltar! Quem sabe assim, não perca mais homens para golfinhos mortos!

A vencedora da primeira edição do Desafio Letra & Vídeo foi a Ludimila Hashimoto, com seu ‘WeWillRockYou’ falando de prostitutas gladiadoras. Ludi, seu prêmio será decidido em breve.

A relação dos autores:

Desafio I.1 – Tibor Moricz

Desafio I.2 – Mariana Gouvin

Desafio I.3 – Carolina Vigna-Marú

Desafio !.4 – Ludimila Hashimoto