– Não, o sr. Iglesia é um administrador impecável! Nem parece dono de bordel. Não perdoaria a gente por provocar um fim de carreira tão humilhante.
– Detesto quando você chama o circo de bordel. Você sabe que detesto.
– Não importa a produção, a pompa, a forma de pagamento. O que as pessoas fazem aqui é…
– Sexo.
– E fazem em troca de…
– Dinheiro.
Enquanto tramavam o plano, Tib e Nib estavam louras, bem maquiadas e vestidas de empregada doméstica. Quando conversavam assim, não importava quem dizia o quê. Não eram inconfundíveis nem para si mesmas.
Isso porque era sexta. Às quartas, usavam chapéu de cowboy, botas e só. Às quintas, a fantasia de gueixa se resumia na maquiagem branca com boquinha vermelha. Aos sábados, abriam a caixa de sugestões dos clientes.
– O tiro dele vai sair pela culatra – resumiu Nib. Ou Tib.
– Você vai causar tudo isso – respondeu a outra.
– O que você queria? Cansei dessa vida.
Uma das duas tinha razão de estar cansada de dar muito e receber muito pouco. De fato, tudo começou quando uma das 14 garotas do sr. Iglesia convenceu duas colegas a pregar uma peça em milhares de clientes, de uma só vez.
Quando era num quarto luxuosamente gótico numa mansão neo-vitoriana, tudo bem. Quando o filho chapado de Iglesia teve a idéia mefistofélica de colocar esse mesmo quarto, sem as paredes, na arena do anfiteatro, tudo não tão bem.
Um mês de prostituição coletiva, de intimidades escancaradas a milhares de voyeurs e voyeuses gritando para alguém puxar o lençol, que não pagaram para ver a mesma posição da semana passada, o trabalho das garotas ficou insalubre.
– Qual a fantasia de hoje?! – perguntou Iglesias nos bastidores.
– Gladiadoras lolitas.
– Vai rolar porrada? – ele riu.
– Só se for na tua cara, com todo respeito, senhor – respondeu Tib, segurando o bastão tridentado que deu apoio a seu comentário precipitado.
Iglesia foi para o camarote. Ansioso, não suspeitava que o fim das atividades lucrativas aconteceria em rede nacional ao vivo e, em tempo real, na Internet.
Em vez de executarem o prometido no ingresso, o espetáculo com o vencedor da promoção “No boudoir da garota do mês, ela é sua”, as três gladiadoras douradas, Nib, Tib e Rosalina, apresentaram apenas uma dancinha patética, uma presepada para humilhar o patrão e revoltar a platéia irascível.
As vaias ecoaram como um trovão entre as estruturas de concreto. Um grupo de nerds desvairados invadiu a arena correndo, reclamando aos berros da falta de veracidade das fantasias. A polícia feminina tomou as dores das putas rebeldes e colocou ordem no tumulto, dando voadoras no peito dos invasores, xingando a platéia e atirando bombas de gás em quem fizesse cara de bobo.
Em defesa da sua honra profissional, o sr. Iglesia desceu para tentar separar algum dos focos da briga. Ofegante, Iglesia sentiu um tapa na nuca e rolou pelo chão de terra, atracando-se com o estudante de história antiga.
– Não valeu a pena? – disse Tib no banco da delegacia.
– É. Graças ao representante da torcida organizada, Abutres de Baco. – concordou Nib, cobrindo com um lençol o que não sobrara da fantasia. – Se ele não tivesse registrado queixa, nunca que a gente conseguia largar essa vida.
Outubro 8, 2008 at 2:07 am
Estou rindo até agora. XD
Novembro 23, 2008 at 2:49 pm
Excelente !
Novembro 25, 2008 at 5:12 pm
Valeu, rapazes.