De muito longe, entre as bétulas
“Porque eu te amo e porque eu não te amo é que nos amamos” ( Mheta Thet Agar – livro das Contradições, volume 3 , página 8.045 )
Eu te matei mil vezes. Em Órion, Em Alpha, em Vehr. Traspassei teu corpo nu com a espada flamejante em Ângelus e o crucifiquei no antigo carvalho druida da Cornualha. Eu atirei uma flecha em ti entre os índios Navajos e peguei teu coração palpitante no ritual secreto das mulheres de Elêusis. Destruíste meu corpo outras mil, nas cavalgadas e lutas, entre as silenciosas estrelas de Luthor, nas planícies geladas de Alhambra. Incontáveis anos. Mas estou cansada.
Aqui, no alto, com a mão na arma, vejo tua pele brilhando e não sinto nada. Nenhum desejo de destruição, nenhuma sede de teu sangue quente, nenhuma fome de tua carne branca. Somente um cansaço imenso, abissal, um cansaço que percorre os astros indiferentes, que me faz adejar sobre todas as coisas – navio celeste desgovernado, estrela velha prestes a se extinguir.
Nosso jogo durou tanto tempo que esqueci onde começou. Se é que começou e não foi sempre assim, nos destruindo infinitamente, renascendo para morrer, matar, devorar.
A mão está firme, mas eu hesito. Teu vulto se destaca entre as mulheres que não são – aquelas que acabarão – cinza espalhada sobre campos ao amanhecer.
À luz da lua elas dançam, bailarinas delicadas num teatro de sombras, passam girando e eu as destruo uma a uma e te mantenho vivo. Sinto teu desespero, a marca de tua esperança de que continue nosso jogo perverso e o sentimento é como a água escura da piscina inerte. Parado. Embalsamado por perfumes que vem de longe, muito longe, onde não estamos mais.
Tu não entendes porque desrespeito nosso jogo, porque deixo de te matar já que é minha vez, porque te poupo e estrago os milhares de anos em que nos perseguimos com amor e ódio. Tudo que não pode haver é esta indiferença opaca, este tédio vazio com que olho para as dançarinas que abati. Todas.
Menos a ti..
Quando as sombras se esgotam, quando apenas um vulto permanece sobre o chão úmido, entre o perfume das bétulas, eu, lentamente, viro a arma para o meu peito.
E atiro.
Teu grito ecoa em meus ouvidos, mas é muito tarde para nós.
Perdemos o jogo, querido e ontem será, finalmente, eterno.
Julho 28, 2008 at 10:39 am
Lindo, Merreeeel (e deve ser por isso que causa emoção insuportável).
Esse efeito free tá de matar (de matar “mil vezes”!)Enquanto o Jacques postava esse teu texto, eu escrevia no caderno um sobre “o excesso de despedidas”.
Parabéns pela intensidade e beleza complexa…
“navio celeste desgovernado, estrela velha prestes a se extinguir”. Perfeito, perfeito.
Beijos velhinhos,
Lud.
Julho 28, 2008 at 1:18 pm
Mais uma bela e delicada história de amor, mas um amor preso num jogo interminável, até que um dia ! Lindo, lindo, poesia em movimento como as bailarinas entre as bétulas… Adoro os contos que as meninas tem enviado, Ludi, Belly, DonAna, MHel, todas vocês são demais !
Julho 28, 2008 at 2:11 pm
Eu já não consigo mais tecer loas suficientes.
Vocês são demais.
Julho 28, 2008 at 2:41 pm
Ludi, querida, este nosso efeito free está estranho mesmo, quando li seu texto, me arrepiei.
Mil despedidas e nenhuma. Despedir-se tem que ser um soco ou um sopro, sei lá.
beijão e obrigada,
merrel
Julho 28, 2008 at 2:45 pm
Obrigada, Marcelo, as meninas do Orkut são mesmo danadas, é o poder de Lilith hehe Gostei muito da observação que fez lá no Orkut, me deu uma dica interessante.
beijão,
merrel
Julho 28, 2008 at 2:46 pm
Marco Alexandre, você é o papai? hehe Obrigada, obrigada,
merrel
Julho 29, 2008 at 4:55 pm
Um jogo, uma morte,uma dançarina, um amor e tudo volta mais vivo que nunca… é a dança das letras onde tudo gira…parabéns, adorei!
bj Luna
Julho 30, 2008 at 10:57 am
Como sempre, surpreendente. Me lembrei do namorado suicida da Arósio.
beijos
Julho 30, 2008 at 1:41 pm
Obrigada, Luna. Valeu.
beijos,
Helena
Julho 30, 2008 at 8:38 pm
Tanques, Tom Mix. Toda relação amorosa é um pouco suicida, o amor é um erro de programa, um absurdo do humano
beijão,
Mhel
Agosto 6, 2008 at 4:31 pm
Estive em Orion, por isso demorei a ler você e ouvir Cohen.
Duas perfeições ao mesmo tempo: suas letras e a música. Parabéns e, principalmente, obrigada por esse instante de beleza…dolorida beleza literária.
Grande beijo. Admiração sempre.
tanatus
Agosto 6, 2008 at 6:16 pm
Obrigada, Mintaka. Cohen é tudo, não? Dolorida beleza serve pra ele também.
grande beijo, saudades, não suma nas brumas malaias,
merrel
Setembro 8, 2008 at 8:39 pm
me dei a liberdade de publicar esse texto no meu blog. Belíssimo!