“I’m losin some sleep No company I’d rather keep”
The Supreme Beings of Leisure
Sozinha como sempre e para sempre.
Assim espero!
Pois o homem é uma ilha. Com pontes. Ilha ligada ao continente. A mulher é uma ilha com naus que só saem para visitar a terra firme flutuando sobre a água, que tocam a água. Partem em contato com e conduzidas pela leveza, pela instabilidade de correntes marinhas desavisadas, ventos violentos e eventuais coberturas de gelo.
A ponte foi criada porque a água era um empecilho. A nau foi inventada devido à existência da água, única possibilidade de contato.
A água aceita o ritmo que os diversos fatores externos impõem. Se molda ao corpo arredondado da nau. Flui e faz fluir. É capaz de fluir até os níveis perigosos da psicose. A ponte parece rígida ou resistente e por isso se salva, não quebra. É capaz de se manter normal.
Agora o fogo destrói o navio que mal saiu da garrafa. (Era daquelas miniaturas construídas com exatidão de detalhes, velas, mastros delgados como fios de cabelo, timão do tamanho de uma unha, e erigido com o delicado puxar de uma linha que atravessa o gargalo.) Havia partido da ludimilha ainda dentro da garrafa, vidro embaçado boiando nas marolas. Agora a perda pode ser total, dependendo da velocidade dos ventos em meio caminho até a ponte mais distante, mas prestes a chegar.
A ponte se concentra na própria reconstrução, por precaução, antes mesmo da iminência do desastre. Com a certeza de que, após uma eventual reforma, sua nova versão será ainda mais forte, resistente e à prova de ondas impetuosas em tempos de maré alta. Ausência de flexibilidade: falha de engenharia detectada.
Esse é um retrato barroco do equilíbrio dinâmico entre o homem e a mulher, com tudo o que há de bom e de ruim no conjunto da obra. Reflete as impossibilidades, as distâncias e não tem lugar para promessas.
FIM
O simbolismo ficaria mais misterioso se considerássemos que, como defendia Jung, há o lado masculino na mulher e vice-versa, mas, depois de um pastel de queijo com coca, não tenho mais estômago para mistérios.
Julho 27, 2008 at 3:56 pm
Você está na profissão errada ! Large as traduções e começe a escrever seu livro já !!!
Muito bom, nota dez, genial mesmo ! Adorei o seu texto, uma analogia perfeita de como homens e mulheres vêem e vivem relacionamentos de formas diferentes. Um tanto pessimista, mas devido ao o que nos mostra a história… Valeu, Ludi !
Julho 27, 2008 at 5:52 pm
Ludi, querida, maravilhoso como sempre. Uma inteligente e sensível análise simbólica da relação masculino/feminino. Amei, me identifiquei, me emocionei. ” Não tem lugar para promessas”
Quando for publicado meu conto vai ver outro curioso efeito free, embora eu seja menos sutil hehe
beijão, parabéns,
Merrel
PS – Adorei o seu PS hehe humor é fundamental
Julho 27, 2008 at 7:01 pm
Marcelo, traduzir não é a melhor forma de ler, e ler não é a melhor forma de se escrever?
Bom, gostei de tudo no seu comentário, inclusive da atenção ao pessimismo. Não sou pessimista, mas o pessimismo é mais amigo da estética que me é acessível.
Valeuzão,
beijos!
Julho 27, 2008 at 7:03 pm
Merrel, que bom!! Estava quase com vergonha de ter mandado esse (depois do do Romeu e na frente do teu).
Mas se vc curtiu, valeu totalmente a pena.
Aguardo ansiosamente o nosso próximo efeito free menos sutil.
beijo e muito obrigada
Julho 27, 2008 at 7:45 pm
Como nos nossos oceanos as marolas só existem na superfície. Para evitá-las há que se ir bem ao fundo do leito oceânico, base de comuicação de todas as ilhas, aonde o espelho marinho e suas cambiantes e ilusórias mudanças de humor encobrem o fato de que todas as “ilhas” são apenas pináculos de um mesmo fundamento humano.
O homem (ou a mulher) só parece ser uma ilha na medida que uma espelhada ou turbulenta ilusão de separatividade oculta as ligações reais.
Mesmo as pontes podendo começar em uma das margens só se terminam se a outra também iniciar a construção de seu lado. Já a ligação por navegação pode ser unilateral, mas pode alcançar bem mais longe.
Grandes e poéticas analogias, Ludi. Todos queremos, tenho certeza, que você continue mandando suas frágeis chalupas-de-garrafa para varrer os novos mundos com suas visões (que são melhores veículos que só “messages in a bottle”).
Ricardo França
Julho 27, 2008 at 7:52 pm
Bravo, Ricardo! clap, clap, clap
Seu comment foi praticamente uma seqüência pro meu.
Adoro quando seus comentários ampliam muito mais o frágil recorte apresentado por mim, isso revela um leitor de alto nível.
beijo, obrigada…
…message in a bottle oh-oh…
Julho 27, 2008 at 9:53 pm
Ah, que surpresa!!!
Adorei, Ludi!!!!
Só fico imaginando se, ao abrir aquela garrafa de coca-cola achada na praia, uma gênia furiosa e louca para azarar (de “dar azar”) alguém fosse libertada por um pobre e incauto transeunte…
Mulheres! O melhor de todos os homens.
Julho 27, 2008 at 11:14 pm
Ois!
Ludi, acho que você gosta de poesia
Muito, muito bonito… mas cá entre nós, teu final “entrega” demais, não acha? Preferia que ficasse mais “sonhado”… Opinião pessoal, claro.
Engraçado que ontem mesmo, eu estava… bem, encantando uma amiga, e falei do amor dos homens, que é fogo, ardente e devorador, e o amor das mulheres, é como uma árvore, algo que cresce devagar, que se constrói e cresce, para o alto e para baixo. E depois, admiramos juntos um belo incêndio na mata…
Brincadeirinha.
Adorei teu conto-poema. Prometo me esforçar, quando chegar minha vez…
abraços,
Chryz (Ernesto, por procuração)
Julho 27, 2008 at 11:26 pm
Meu Deus, vc é o papai?! (parece fala de novela mexicana)
Tu é muito doido, papai marco.
Obrigada pelo parecer!!
Julho 28, 2008 at 9:14 am
Ernesto, não sei se gosto de poesia, minha atitude em relação a ela se refletiu onde, segundo você, me entrego demais: escrevi esse texto comendo pastel, fazendo pouco caso de mim mesma e das metáforas “barrocas”.
Adorei teu comentário, especialmente a “opinião pessoal”.
Espero que chegue logo a sua vez, seu comentário revela uma vontade grande de fazer poesia.
gde abraço!
Julho 28, 2008 at 12:25 pm
Muito bom, muito bom mesmo. Acachapante.
Isso só prova que o talento verdadeiro pode ser incrementado até mesmo por um pastel com coca (prefiro o pastel de bauru, mas o de queijo também é uma boa pedida).
Julho 28, 2008 at 1:47 pm
peraí, aurélio eletrônico, acachapante, acaçapante…opa, muito obrigada, Fábio, estás convidado pra um pastel de bauru com coca. Assim que o mundo, quer dizer, a correria acabar.
Julho 29, 2008 at 3:36 am
Eu adoro pastel com caldo de cano! Mas o conto da Ludi é bom com qualquer acompanhamento
Julho 29, 2008 at 4:40 pm
Caldo de cano…hmm, vc mora em Robópolis?
Brigada, Lupo.
Julho 30, 2008 at 11:25 pm
QUAQUAQUAQUÁ!!!
Eu não gosto nem de cana nem de cano, mas aceito aquele pastel de bauru com coca assim que possível, Ludi!