QUEM SABE?
Catarina parecia inteira, apesar da palidez.
- Você está bem?
- Perdi parte do pulmão, um braço e metade do fígado. Mas estou melhor do que a maioria – respondi com voz ligeiramente ofegante – E você?
Tentou falar, sufocada pela respiração curta, os olhos azuis afundados nas órbitas enegrecidas:
- Fui atingida no coração. Cardiopatia grave. Situação de risco para edema agudo.
- Merda! – Sibilei agarrando com raiva os controles da realidade virtual.
Poderia usar o programa hacker que criei para salvá-la daquela situação, mas se fosse descoberto estaria expulso de todas os Clubes S & Ex do planeta. Os sistemas antivírus funcionavam de maneira muito eficiente em nossa comunidade
- Merda – repeti, consultando o painel do telão.
Franceses, italianos e israelenses estavam mortos. Em frente à réplica das Torres Gêmeas do WTC, restava apenas um americano com a perna ferida e sem um braço.
Neste instante de distração, um dos australianos me enviou seu leão de Neméia.
Consegui me desviar e o animal se espatifou sobre o Cristo Redentor na praia de Copacabana atrás de mim. Irritado, lancei sobre o desgraçado o disco ninja dentado que estilhaçou seu estômago. As vísceras caíram sobre as flores do jardim ao lado do canguru gigante.
Antes que se recuperasse joguei mais dois discos destruindo a cabeça. O outro se descuidou um segundo olhando as tripas expostas e levou um dardo envenenado com curare no pescoço. Paralisado, não tinha como reagir e os australianos saíram do combate.
Éramos nós e o americano.
Catarina nada podia fazer, exceto rezar, enquanto aquela réplica de Schwarzenegger futurista me enviava seus cães raivosos.
Cai, atingido no ombro, uma dor terrível me estilhaçando a cabeça. Com as últimas forças que me restavam, empurrei Catarina para o chão e acionei os aviões. Ele não conseguiu ligar os jatos defensores a tempo. O WTC desmoronou sobre sua cabeça (americanos nunca tiveram muita sorte com ele).
Sem defesa, foi atingido pela minha sucuri que o derrubou no chão imobilizando e esmagando seus ossos.
Nós vencemos, oh Yeah! Nós vencemos!
Catarina resfolegou ao meu lado. Não posso verificar se morreu, tenho que me livrar do equipamento para receber o prêmio.
Antes de me dar a taça de campeão virtual do Clube de Suicídios & Extermínio, o diretor, um chinês com longa barba em duas pontas, fez um pequeno discurso.
Rebatia as críticas sobre a violência dos nossos jogos em RV, explicando, com números e dados, numa tela holográfica, que os suicídios e assassinatos reais tinham caído consideravelmente em todos os pontos da Terra.
Foi delirantemente aplaudido pelos seqüelados de sempre. Resisti ao desejo de vomitar sobre a taça.
Sabia que era tudo mentira: no mundo virtual de agora, ninguém tem controle sobre o que é real ou imaginário.
Antes que terminasse este pensamento profundo, me virei para desarmar o australiano que tentava me atingir com a cimitarra.
Seria o jogo ainda? Os rostos sorridentes e amarelos ao meu redor não tinham expressão.
Julho 5, 2008 at 1:53 pm
NNNOOOSSSSSSAAA !!!!!! MATOU A PAU !!! excelente, MH, nota 1000 ! Estou com uma baita inveja de você, como não tive essa idéia antes ? Parabéns, detonou, detonou !!!
Julho 5, 2008 at 5:40 pm
Mhel,
Um conto fantástico e hipercriativo. Tem até um pouco de humor sombrio, na brincadeira com o WTC.
Parabéns.
Beijos
Rita
Julho 6, 2008 at 1:30 am
Excelente conceito e ótima execução. Sinceramente, dentre os seus textos que li, esse foi o que eu mais gostei até agora.:)
Julho 6, 2008 at 3:56 am
Mhel, parabéns pelo texto colorido e inusitado.
Beijos de admiração e afinidade,
Ludi.
Julho 6, 2008 at 4:18 am
Surreal, animal, tri-legal. Essa é a Mhel de sempre, sempre melhor.
Extra-beijo do Maguinho.
Julho 6, 2008 at 8:03 pm
Uau!!
Fantástica esta luta virtual pela vida! Tão bem escrita que eu me senti participando.
Adorei a sucuri auri-verde nos dando uma vitória surpreendente.
Parabéns pela beleza e pelo ineditismo do texto.
Nédier
Julho 8, 2008 at 4:16 am
Realmente, este conto é que merecia um vídeo próprio.
Julho 9, 2008 at 8:27 pm
Mais um ‘disco’ especularmente arremessado e surreal de Merrel. “Tombei” novamente de admiração.
Beijos grandes
tanatus