Ele me recebeu com o desdém dos que sabem que não precisam ouvir aqueles que nem deveriam estar vivos. Eu me pergunto se deveria ter vindo. As chances de conseguir qualquer coisa… um farrapo de informação ou fragmentos de ossinhos que fariam a felicidade de qualquer arqueólogo, são mínimas.
A expedição para as terras do círculo de chamas estava para partir e eu queria uma vaga, precisava de uma vaga. Minha aparente obssessão era tolerada como qualquer interesse acadêmico parecia ser pelo nosso déspota esclarecido. Tinha mesmo que investir nessa impressão, mesmo que os reais motivos tivessem que ficar recobertos sob as camadas de salamaleques sutis, os quais me franqueariam os dados que me faltavam.
- Meu caro Vorparashu, eu não entendo porque você precisa arriscar sua vida. Monte e alugue uma trupe. Quando a infraestrutura estiver arrumada aí você pode comandar as operações.
Meu colega de sala já me aturava há dois ciclos acadêmicos completos e só as tempestades de poeira que agora sobrenadavam as fímbrias de nossa pequena comunidade de pesquisa o impediam sair pela cortina afora e me deixar falando sozinho quando eu entrava nos “modos do delírio”. Eu sabia que ele nunca entenderia, mas acho que ele intimamente percebia que eu levava mortalmente a sério uma posição que muitos só usavam como mero trampolim para ter acesso os círculos das benesses. Ele se ocupava por vezes de favores que eu lhe pedia, pois suas atribuições não requeriam sua constante presença e supervisão. Uma sondagem aqui, uma compra acolá, e eu ia montando meu quebra-cabeça de forma imperceptível a todos inclusive a meu amigo. Por sua vez ele tinha acesso livre às minhas contas de paralelismo encéfalo-concatenantes o que fazia para me sentir equilibrado em amizade e respeito. Ele usou até parcamente os direitos que lhe fraqueei, mas também teve seu quinhão de vantagens. Foi uma boa simbiose.
Um dia eu mostrara a ele um estranho artefato que por vezes, ao ser colocado no sol acendia umas pintas azuis e laranjas, emitindo um fraco zumbido de inseto-melífero, para pouco depois entrar em hibernação. Algo assim ter sido desencavado dos fundamentos de um antigo templo à divindade oscilante era um tipo de configuração que não batia com as expectativas das publicações oficiais.
- Ei, Shikander, você se incomoda de gravar esta imagem para mim?_ Ele estava dando mais uma volta em seu laçarote de bandagens em preparação para encontrar sua parceira da semana. Provavelmente eu estava para ouvir um sonoro palavrão quando, ao se aproximar ele mesmo já carregando a manopla de reprodução, estacou em meio ao habitual chute que iria desferir sobre meu traseiro e, boquiaberto, rapidamente deduziu o que parecia ser o primeiro conjunto de dados imagéticos da sonda recém-posicionada nas brenhas mais fundas da vasta depressão salgada de Kiys.
- Vor, isto não é o que eu estou pensando que é?
- A lendária estátua perdida de Varthor? Os ícones não deixam dúvidas. Os textos não dizem que o complexo de cidades-moradias do Ser-Deus Keyin era encimado pela estátua da primeira exploradora? Pois lá estão as cidades. Tenho que me infiltrar no grupo de prováveis escolhidos pelo sumo-déspota.
- Você não acha que vai ter que oferecer uma motivação melhor do que um “eu quero muito”? Os acólitos sempre têm seus preferidos…
E foi assim que eu decidi descer do pedestal do orgulho e solicitar uma audiência. Fiz a mias seca alocução gravada nos formantes de acesso do secretariado. Já me preparava para um longo ordálio de esperas, negociações e trocas prospectivas de favores quando recebi a confirmação menos de um dia após meu pedido. Tinha que aproveitar a oportunidade de celeridade única e cravar uma cunha de determinação entre as decisões e as procrastinações dos decisores do palácio. Após colocar o traje respeitoso minimamente necessário enfrentei a tempestade da tarde e consegui chegar na hora do ante-repasto palaciano.
A expressão constantemente desdenhosa do sumo-déspota se desvaneceu num largo meio sorriso quando ele me viu e, para espanto meu, dispensou o acólito ouvinte que ditava um de seus barrocos discursos e se aproximou de minha empoeirada figura, em passos de dançarino
- E quem vem trazido dos ciclos? Hohoho! _ Um tapinha amigável com os nós dos dedos quase me atira de volta para a eclusa de decantação de pó. A força do líder era bem conhecida, mas ele parecia sempre saber quando parar e, antes que me desse conta, guiou minha desconjuntada figura ao hall dos contempladores na sacada secundária do pátio.
- Você me parece ter bons motivos para ser tão direto, hem? Hohoho! Não fique com essa cara de quem não sabe o que dizer a seguir. Eu gosto de vez em quando de me livrar destas mascaradas e cerimoniais. E como você foi refrescantemente direto em seus formantes (que, por incrível que pareça, foram lidos por mim antes que pelos meus acólitos filtradores) eu também o vou ser: Nós estamos em comunhão de interesses, meu caro pesquisador. Não, eu não sou arqueólogo amador nem estou querendo mais uma validação dinástica. Eu quero a mesma resposta que você!
Enquanto eu dava tratos à bola para decidir se devia dar suporte ao monólogo com alguma anuência ou muxoxo ele, percebendo minhas hesitações, ligou um canal imagético particular. Qual não foi a minha surpresa quando vi uma planta completa do complexo de cidade de Keyin no abstrator. E mais uma imagem me deixou alarmado: Minhas suspeitas tornadas reais. Uma imagem celeste com linhas brilhantes ligando nosso orbe a uns poucos e esses a outros tantos poucos, com os ícones sagrados disseminados pelos localizações das diferentes girândolas de fogo do céu.
- É meu caro… - Me dizia o agora quase-íntimo déspota. Se tuas pesquisas estão certas amanhã de manhã mesmo estaremos respirando ares menos empoeirados. Hohohoho!
Julho 2008
Julho 30, 2008
Cities in Dust – Siouxsie and the Banshees (Ricado França)
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Julho 28, 2008
Dance Me to the End Of Love – Leonard Cohen (Maria Helena Bandeira)
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De muito longe, entre as bétulas
“Porque eu te amo e porque eu não te amo é que nos amamos” ( Mheta Thet Agar – livro das Contradições, volume 3 , página 8.045 )
Eu te matei mil vezes. Em Órion, Em Alpha, em Vehr. Traspassei teu corpo nu com a espada flamejante em Ângelus e o crucifiquei no antigo carvalho druida da Cornualha. Eu atirei uma flecha em ti entre os índios Navajos e peguei teu coração palpitante no ritual secreto das mulheres de Elêusis. Destruíste meu corpo outras mil, nas cavalgadas e lutas, entre as silenciosas estrelas de Luthor, nas planícies geladas de Alhambra. Incontáveis anos. Mas estou cansada.
Aqui, no alto, com a mão na arma, vejo tua pele brilhando e não sinto nada. Nenhum desejo de destruição, nenhuma sede de teu sangue quente, nenhuma fome de tua carne branca. Somente um cansaço imenso, abissal, um cansaço que percorre os astros indiferentes, que me faz adejar sobre todas as coisas – navio celeste desgovernado, estrela velha prestes a se extinguir.
Nosso jogo durou tanto tempo que esqueci onde começou. Se é que começou e não foi sempre assim, nos destruindo infinitamente, renascendo para morrer, matar, devorar.
A mão está firme, mas eu hesito. Teu vulto se destaca entre as mulheres que não são – aquelas que acabarão – cinza espalhada sobre campos ao amanhecer.
À luz da lua elas dançam, bailarinas delicadas num teatro de sombras, passam girando e eu as destruo uma a uma e te mantenho vivo. Sinto teu desespero, a marca de tua esperança de que continue nosso jogo perverso e o sentimento é como a água escura da piscina inerte. Parado. Embalsamado por perfumes que vem de longe, muito longe, onde não estamos mais.
Tu não entendes porque desrespeito nosso jogo, porque deixo de te matar já que é minha vez, porque te poupo e estrago os milhares de anos em que nos perseguimos com amor e ódio. Tudo que não pode haver é esta indiferença opaca, este tédio vazio com que olho para as dançarinas que abati. Todas.
Menos a ti..
Quando as sombras se esgotam, quando apenas um vulto permanece sobre o chão úmido, entre o perfume das bétulas, eu, lentamente, viro a arma para o meu peito.
E atiro.
Teu grito ecoa em meus ouvidos, mas é muito tarde para nós.
Perdemos o jogo, querido e ontem será, finalmente, eterno.
Julho 27, 2008
Never the Same – The Supreme Beings of Leisure (Ludimila Hashimoto)
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“I’m losin some sleep No company I’d rather keep”
The Supreme Beings of Leisure
Sozinha como sempre e para sempre.
Assim espero!
Pois o homem é uma ilha. Com pontes. Ilha ligada ao continente. A mulher é uma ilha com naus que só saem para visitar a terra firme flutuando sobre a água, que tocam a água. Partem em contato com e conduzidas pela leveza, pela instabilidade de correntes marinhas desavisadas, ventos violentos e eventuais coberturas de gelo.
A ponte foi criada porque a água era um empecilho. A nau foi inventada devido à existência da água, única possibilidade de contato.
A água aceita o ritmo que os diversos fatores externos impõem. Se molda ao corpo arredondado da nau. Flui e faz fluir. É capaz de fluir até os níveis perigosos da psicose. A ponte parece rígida ou resistente e por isso se salva, não quebra. É capaz de se manter normal.
Agora o fogo destrói o navio que mal saiu da garrafa. (Era daquelas miniaturas construídas com exatidão de detalhes, velas, mastros delgados como fios de cabelo, timão do tamanho de uma unha, e erigido com o delicado puxar de uma linha que atravessa o gargalo.) Havia partido da ludimilha ainda dentro da garrafa, vidro embaçado boiando nas marolas. Agora a perda pode ser total, dependendo da velocidade dos ventos em meio caminho até a ponte mais distante, mas prestes a chegar.
A ponte se concentra na própria reconstrução, por precaução, antes mesmo da iminência do desastre. Com a certeza de que, após uma eventual reforma, sua nova versão será ainda mais forte, resistente e à prova de ondas impetuosas em tempos de maré alta. Ausência de flexibilidade: falha de engenharia detectada.
Esse é um retrato barroco do equilíbrio dinâmico entre o homem e a mulher, com tudo o que há de bom e de ruim no conjunto da obra. Reflete as impossibilidades, as distâncias e não tem lugar para promessas.
FIM
O simbolismo ficaria mais misterioso se considerássemos que, como defendia Jung, há o lado masculino na mulher e vice-versa, mas, depois de um pastel de queijo com coca, não tenho mais estômago para mistérios.
Julho 26, 2008
Ave, Lúcifer – Mutantes (Romeu Martins)
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A Diabólica Comédia
- Nunca mais um eunuco do senhor!
Aquilo foi dito com tamanha determinação, ainda no interior do palácio real, que não deixou dúvidas quanto à seriedade do momento. O guerreiro deu as costas a seu antigo comandante e mais à frente, quase na saída daquele ambiente opressor, se voltou para tornar a gritar, agora batendo o punho direito contra o peito largo:
- Deste dia em diante exerço a força em meu nome, estás ouvindo? Apenas em meu nome.
Já na rua, não houve necessidade de outras demonstrações tão enérgicas. Aos descontentes que o esperavam só um sinal de cabeça já bastou; eles o seguiriam para onde quer que fosse, sem hesitações. Assim foi feito. Das mãos de um serviçal que o aguardava subserviente, o guerreiro pegou a espada flamejante, a mesma que tanta desgraça e destruição causou em nome do mestre que acabara de abandonar.
Novamente armado, ele rumou com passadas largas às estrebarias do reino. A multidão de seus seguidores se limitou a observá-lo de longe. O soldado amotinado escolheu entre os garanhões ali guardados o de cor vermelha, o mais vigoroso e indócil de todos. O cavaleiro, dono daquele animal, se aproximou para tentar entender a situação e ouviu a voz que não pode ser desobedecida.
- Vou levar sua montaria como símbolo dos meus intentos. Mas esperai, tu e teus irmãos, pois voltarei aqui em breve para pôr fim a essa ociosidade que atormenta a todos que não suportam mais os desmandos deste déspota. Este vai ser o dia em que a guerra saciará a fome e a sede com recompensas por tanto tempo adiadas em nome da covardia.
O cavaleiro não demosntrou nenhuma objeção, pelo contrário; abriu passagem ao revoltoso com um sorriso nos lábios, só escondido pela barba grossa, e tomou o caminho de casa para avisar os três outros gêmeos que os dias de glória, há tanto anunciados, não tardariam a chegar.
Espada nas costas, montaria entre as pernas, o soldado se retirou do reino escoltado pela legião de seus guerreiros fiéis. Muitos outros o teriam seguido, mas o temor de desagradar a ira do senhor daqueles domínios não permitiu tamanha ousadia. Porém, mesmo o mais inocente dos querubins sabia que os dias nunca mais seriam os mesmos e que a semente da dúvida naquele momento semeada logo geraria frutos.
A jornada dos revolucionários que abandonaram as Terras Altas não seria rápida nem seria fácil. Antes de chegar a seu objetivo, eles passaram por cidades intermediárias, na nação em eterno litígio entre as duas potências da época. Mesmo sabendo da importância da disciplina entre as tropas, o general do exército rebelado permitiu o saque àqueles lugares durante a longa passagem. Pilhagem, bebidas e mulheres fariam bem ao moral da soldadesca, há tanto tempo vivendo sobre regras que a todos incomodavam e que, ao fim e ao cabo, foram o motivo fundamental para que seguissem o novo líder. O intervalo seria útil também para que o guerreiro pudesse mandar batedores avançados ao destino final da marcha, para adiantar os planos que tinha em mente e que compartilhara com bem poucos de seus legionários.
Quando finalmente chegaram às portas do Reino Inferior, para a surpresa de muitos dos comandados, já havia um exército para recepcioná-los. As forças locais excediam em muito o contingente dos visitantes, tanto em número de soldados, quanto na força das armas. Além disso, os defensores estavam muito mais bem posicionados, num ponto elevado de uma escarpa inexpugnável. Tantas vantagens deram coragem ao soberano para acompanhar pessoalmente esta campanha, ao contrário do que era de se esperar de um ser conhecido por operar nos bastidores e por evitar, sempre que possível, embates físicos. Lá estava ele, à frente de seus muitos generais, olhando com ar zombeteiro os recém-chegados. Certamente, ele iria exigir que todos depusessem armas e lhe jurassem fidelidade e lhe prestassem honras para só então serem admitidos em seus domínios.
Porém, antes que qualquer um dos dois comandantes das frentes antagônicas pudesse proferir palavra, uma voz se fez ouvir vinda da liteira de aspecto frágil que seguia os defensores do Reino Inferior. Era a voz da mulher que já era rainha de lá antes mesmo da chegada do atual mandatário, o usurpador que matou seu primeiro marido, tomou a coroa ensanguentada e ela mesma como despojos de batalha.
- Tragam a cabeça de Lúcifer em uma bandeja, para mim.
Acostumado a trair, o Príncipe das Mentiras não esperava por aquele golpe. Não teve nem tempo de esboçar reação quando as mãos daqueles que ele esperava fossem seus mais fiéis servidores o agarraram e o puxaram para uma sessão de torturas cruéis. Garras rasgaram a carne que não é carne e fizeram jorrar o sangue que não é sangue. Muitas vinganças ansiosamente aguardadas foram saciadas naqueles momentos de fúria.
Foi Belzebu o demônio encarregado de cumprir os detalhes da ordem pronunciada a partir daquela liteira. Mas Perséfone não se encontrava mais no objeto luxuosamente decorado. A rainha estava agora ao lado de seu novo amante, montada com ele no cavalo encarnado que se excitava com o cheiro de sangue vindo da cabeça de olhos arregalados e boca entreaberta que jazia entre seus cascos. Não se sabe ao certo quem puxou o coro, mas ele logo foi acompanhado pelas milhares de vozes dos anjos e demônios ali reunidos, a tal ponto de o brado ser ouvido nitidamente por todos os habitantes dos três reinos:
- Ave, Gabriel, o novo Imperador do Inferno! Nos guie na vitória final contra Deus e a Humanidade!
Julho 23, 2008
She Wants Revenge – True Romance (Marcelo Jacinto Ribeiro)
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ROMANCE DE VERDADE
A melhor expressão para definir o estado de espírito de Rose era “radiante”. Ela tinha vivido um final de semana maravilhoso ao lado de Peter, com direito a café de manhã da cama, flores por toda a casa e outras coisas mais… Fazei meses que não se sentia tão bem, tão feliz, tão amada por um homem. Peter tinha saído de seu apartamento contrariado por ter que ficar algumas horas longe de sua amada, mas alguém precisava trabalhar para pagar as contas. Foi nessa hora que Rose recolheu os poucos fios de cabelo que Peter tinha deixado cair no seu banheiro e colocou em um saco plástico. Guardou o saco dentro de sua bolsa, arrumou-se com um vestido leve e saiu para a cidade.
Depois de sair do metrô seguiu em direção a um edifico baixo e encardido pela poluição. Era um prédio velho e meio decadente, mas por opção dos seus proprietários e não por falta de recursos. Cada andar tinha apenas duas salas, cada sala uma empresa especial, No segundo andar a porta de vidro à esquerda tinha as seguintes letras escritas em suave tinta dourada: “Oráculo S/A”. Do lado oposto uma pesada porta de madeira parecia emoldurar a placa de metal escura: “Benção Moderna – Prestação de serviços”. Rose sabia muito bem o que acontecia na porta à sua direita, e sabia que nunca teria necessidade de cruzá-la. Confiante e alegre abriu a porta de vidro e entrou na sala aconchegante e bem iluminada. Havia apenas uma mesa, atrás da qual um homem baixo e careca estava sentado olhando através de grossos óculos uma placa de cristal cuidadosamente esculpida, com seus delicados símbolos parecendo flutuar no ar. Ele levantou os olhos e sorriu alegremente para sua visita.
- Bom dia, senhorita, em que posso ajudá-la?
Rose retribuiu o sorriso e sentou-se na cadeira a sua frente. Tirou o saco plástico da bolsa e o entregou ao homem.
- Gostaria de testar meu futuro com esse homem. Poderia ser agora?
- Sim, sim, nesse horário temos poucos clientes. Será um prazer ajudar. Vamos em frente?
Rose acenou a cabeça em concordância e observou atentamente o que acontecia. O homem baixo tirou os fios de cabelo e os colocou sobre a placa de cristal. Depois pediu para que Rose colocar sua mão sobre a placa e fizesse silêncio. Após alguns instantes um calor agradável começou a subir pela mão de Rose enquanto uma nuvem tênue surgiu bem diante dos seus olhos. Ela admirava fascinada o que via. O homem baixo apertou os olhos e começou a dizer quase num sussurro:
- Sim, posso vê-lo… Peter, não? Trabalha com engenharia, com obras… Não fuma, pratica esportes… Sim, um bom homem. Ele a trata muito bem, respeita suas opiniões… Gosta da sua comida, isso é importante!
Rose sorria como uma criança numa loja de brinquedos. Mas esse era o presente, o que o futuro lhe reservava? O homem baixo continuou a falar:
- Vejo uma grande festa, cheia de convidados, de comida, de alegria… O casamento de vocês! Vejo uma relação cheia de calor, de vida… Vocês são felizes, tudo corre muito bem… Uma criança… Sim, uma menina, com os seus olhos e o sorriso do pai, meus parabéns! Vocês se mudam… Seu trabalho pede isso… Uma casa grande, com piscina, uma boa vizinhança… Mais uma criança, um menino dessa vez. Muita alegria a felicidade…
Lágrimas rolavam pelo rosto de Rose. Ela não conseguia contar o júbilo que fervilhava no seu coração. Ouvia tudo o que queria, seus sonhos se materializavam bem a sua frente. Estava pronta para tirar sua mão da placa de cristal e pagar os serviços do Oráculo quando o homem baixo retesou-se na cadeira e abriu os olhos assustado. Sua expressão fez com que Rose ficasse imediatamente alerta.
- O que aconteceu? O que o senhor viu? Diga-me, por favor!
O homem baixo mordeu nervosamente o lábio inferior e olhou com piedade para Rose, Soltando lentamente o ar ele voltou seus olhos para a nuvem.
- No futuro, com seus filhos já crescidos… Uma outra mulher, jovem, esguia, cheia de vida… Um romance passageiro que cresce… Você descobre e não suporta a traição. Dor, tristeza, sofrimento. Você se refugia no álcool e se afasta cada vez mais de Peter… Ele tenta voltar atrás mas é muito tarde para vocês. Separação, divórcio… Tudo está escuro agora… Escuro, frio e triste… É tarde, tarde demais para você… Sinto muito.
O choque foi tão forte que Rose sentiu o chão desaparecer sob seus pés. As lágrimas que antes eram de alegria se transformaram em dolorosas lágrimas de tristeza e dor. Como ele poderia fazer isso com ela, como? Ela daria tudo o que ele precisaria na vida, e ainda assim ele a trairia! Como ela pode escolher um homem tão baixo a ponto de trair e enganar uma mulher que lhe daria os seus melhores anos de vida? O homem baixo sabia o que se passava com Rose e depositou gentilmente sua mão sobre a dela.
- Você precisa saber que tudo o que vi está muito distante no futuro, minha jovem. Mais de 20 anos a partir de hoje. Nesse tempo muita coisa pode acontecer… E vi que vocês serão muito felizes por muitos, muitos anos. Não deixe que uma probabilidade estrague o que você sente hoje por este jovem.
Mas Rose não ouvia nada do que ele falava. Seu coração antes cheio de amor e esperança agora se transformara numa pedra fria e sombria. Tirou a carteira da bolsa e jogou algumas notas para o homem baixo. Ele suspirou e pegou o dinheiro. Tirou os fios de cabelo de Peter da placa e os colocou de volta no saco plástico, mas Rose recusou-se a pegá-los. Virou as costas para o Oráculo e saiu apressadamente da sala. Ao chegar ao corredor sentiu como se toda a dor e sofrimento do mundo caíssem sobre sua cabeça e desejou nunca ter encontrado Peter antes. Como ele poderia fazer aquilo! Rose sabia que a dor passaria um dia, que ela encontraria seu verdadeiro amor um dia, mas isso não era de nenhuma ajuda agora. Levantou os olhos e viu bem a sua frente a pesada porta de madeira da outra empresa do andar, “Benção Moderna – Prestação de serviços”. Ela sabia o que acontecia naquela sala mesmo sem nunca ter estado lá. Era o lugar aonde pessoas desesperadas iam para ter suas memórias apagadas, para tirar de dentro de si a dor que não ia embora. Era o lugar onde se conseguia a benção moderna: a ignorância da realidade. Rose sabia que essa dor – de uma traição que ainda nem acontecera – seria muito difícil de enfrentar e num instante tomou sua decisão. Peter precisava desaparecer de sua memória, de seu coração. Respirando fundo Rose deus passos rápidos para atravessar o corredor e com um movimento brusco abriu a porta e entrou na sala decorada com móveis pesados e rústicos. Várias pessoas escuras e tristes estavam sentadas em sofás escuros e tristes, enquanto uma mulher idosa conferia pilhas de papéis sobre uma velha mesa metálica. A mulher levantou seus olhos e sorriu maliciosamente para Rose. Ela sentiu um calafrio percorrer seu corpo quando ouviu sua voz áspera e fria:
- Olá, Rose. Não esperava vê-la tão cedo…
Julho 18, 2008
Sheep go to Heaven – CAKE (Rafael Monteiro)
Posted by letraevideo under Conto | Tags: cake, Rafael Monteiro, sheep go to heaven |[10] Comments
Hoje é o dia da vingança de George. Ele decidiu isso enquanto assistia TV comendo pipoca e bebendo coca-cola. Estava entediado, pois a vida dele era um saco. Haviam lhe prometido cheerleaders gostosas, mas ele não conseguia comer ninguém, nem as góticas que se vestiam como vadias estavam interessadas nele. Considerava-se um sujeito inteligente, mas ninguém parecia valorizar isso: tudo o que importava era ser popular, ser bom em esportes. George sempre seguiu a cartilha, fez tudo o que sempre lhe mandaram, só que ainda assim ninguém o notava. Havia cansado de ser um nada ambulante.
Comprou uma metralhadora automática pela internet usando o nome do pai. Demorou alguns dias, mas finalmente chegou. Esperou pelo baile de formatura, para o qual ninguém o chamou para ser par. Era o grande dia para todo estudante, todos estariam felizes e usando suas melhores roupas. George resolveu que faria este dia ser realmente inesquecível, à sua maneira.
Uma bandinha de garagem tocava pop-rocks que tocam na rádio para todos dançarem. Foi quando George entrou no salão, vestindo sua camisa do Justiceiro. Apertou o gatilho com gosto, fazendo seus colegas de classe virarem corpos espalhados pelo chão.
Susana, aquela vagabunda que lhe recusou um beijo: morta. Ralph, o gostosão que ria da cara de George: morto. Rita, que uma vez disse que tinha pena dele: agora vai pro caixão. Mister Sullivan, o professor de educação física que o humilhava nas aulas: virou cadáver com muito gosto.
George já havia produzido uma dúzia de cadáveres quando um policial, pai de uma das alunas, apareceu. Sacou sua pistola e deu um tiro certeiro no braço esquerdo de George, que caiu no chão chorando feito uma menininha. Ele só conseguia pensar que mais uma vez o destino o atrapalhara, estragando o que prometia ser o melhor momento de sua vida.
George foi preso e condenado à morte. Sua família o abandonou e nunca recebeu visitas na cadeia – na verdade só recebeu uma, de um jornalista que filmava um documentário. Foi só no presídio que descobriu o que era sofrimento de verdade: era currado, espancado e humilhado constantemente por todos. Era conhecido como “Pussy Girl” pelos presos.
Depois de alguns anos, George se arrependeu profundamente do que havia feito. Mas já era muito tarde: a data de sua injeção letal já estava marcada. Antes de morrer, pensou que ao menos conseguiria descanso.
Contudo, havia se enganado. Após morrer, a primeira coisa que viu foi o Diabo em pessoa. Era um cara fino e educado, pensou George. Não havia fogo eterno nem pessoas sendo torturadas, o Inferno era apenas um lugar calmo e bucólico. Foi quando percebeu onde realmente estava: em uma típica High School americana.
- Meu nome é Lúcifer, sou o diretor da escola. – disse o Diabo. – Asseguro-lhe que será aqui onde passará o resto da eternidade, e terá aulas de educação física todos os dias. Aproveite!
George então se ajoelhou e chorou compulsivamente. Foi quando os demônios usando uniformes de futebol americano e roupas de cheerleaders se reuniram em sua volta, rindo de sua cara e o chamando de “chorão” e “mulherzinha”.
Julho 16, 2008
Do the evolution – Pearl Jam (Ana Carolina Silveira)
Posted by letraevideo under Conto | Tags: Ana Carolina Silveira, Do the Evolution, Pearl Jam |1 Comment
Apocalipse Particular
Estava tudo milimetricamente preparado.
Olhava-se no espelho do banheiro, concentrando-se para o discurso dali a pouco. Repassava as palavras escritas magistralmente por sua assessoria: estaria ao vivo em todas as televisões, rádios e sites do planeta dentro de poucos minutos. Seria o anúncio mais importante de toda a sua vida, era um dia extremamente feliz, depois de planos feitos por todos os anos!
Logo todas as guerras terminariam e o mundo retornaria a um ciclo de paz e prosperidade!
Anunciaria que logo toda a humanidade seria salva! Afinal, toda a fome que dominava o mundo terminaria, os terroristas não tirariam a água e os alimentos da população de bem, as doenças que se proliferavam sem fim naquela massa humana pobre e faminta terminariam.
O povo que representava, os eleitos para desfrutarem do mundo, logo o teriam para si, purgado de todo o mal da humanidade! Tinha sido posto no poder por uma cadeia de sucessão sem fim, viera de um conglomerado industrial. Um dos cinco que controlavam 98% da economia mundial – que, na verdade, pertenciam ao mesmo pequeno e seleto grupo de pessoas.
Os exércitos dos países inimigos tinham sido destruídos de forma eficaz, um trabalho perfeito de seus antecessores e dos espiões infiltrados de seu governo. Sem inimigos, a paz estava implantada! Era o Supremo Chanceler, o governador do mundo, o zelar por aquelas bilhões de almas estava em suas mãos!
E claro, para que seus filhos e netos pudessem desfrutar do melhor pedaço de solo para construir sua casa ultratecnológica, ter os alimentos mais saudáveis, a água mais pura e estarem livres das doenças, precisava eliminar as pragas que se reproduziam como formigas, os terroristas.
Eles não podiam aceitar a tecnologia? O mundo era daquele jeito mesmo, era preciso se conformar que para o conforto de milhares de privilegiados, que podiam consumir produtos dos cinco grandes conglomerados, os outros milhões não poderiam ter o conforto que desejavam. Eram apenas pobres almas controlados por religiões fanáticas e líderes sanguinários! Como poderiam tentar ir contra instituições criadas já há séculos?
Mas é claro que eles não entendiam isso, nem depois das armas químicas instaladas – porque para que as crianças puras sobrevivam, é preciso destruí-los antes que as degolem -, dos bombardeios, do fim das pesquisas da cura das doenças que os afligiam. Precisavam entender que eram um entrave para o desenvolvimento do mundo!
Então, entraria em rede mundial naquele momento, a partir de uma das colônias espaciais, onde as pessoas que tinham dinheiro para pagar o traslado se refugiavam do mundo caótico.. Faria um discurso sobre como os próximos tempos seriam bons e plenos, como o progresso viria a passos largos.
Em seguida, das colônias, as cidades terrestres seriam bombardeadas. As chances eram de que as pobres almas que roubavam os recursos de seus escolhidos seriam eliminadas em praticamente sua totalidade.
E se faria a evolução.
Julho 15, 2008
Between the bars – Madeleine Peyroux (Mariana Gouvin)
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Eu estou bem
Eu estou bem. Eu juro que estou bem.
Eu queria que o tempo pudesse apagar as dores e cicatrizes. Mas eu estou bem.
Se lembra de nossas brincadeiras? Como rodávamos e sorríamos? Aquele quente no peito. Éramos um só.
Por que amar nos torna assim tão bobos? Por que nos rendemos aos devaneios e caprichos de nossa própria mente?
Se lembra quando lhe levei um buquê enorme e planejei colocar nossa aliança nele? E quando você surgiu com balões em forma de coração com mensagens dentro?
Os que não amam podem até gritar “brega!”. Mas só eu e você sabemos o que realmente é viver essa pieguice toda.
Mas eu estou bem. Mesmo. Juro. Você se foi? E daí?
Tudo é muito claro agora, muito branco.
As vezes, de madrugada, sinto seu gosto. Sinto seu peso. E dói, sabe?
Desculpa. Estou me lamentando de novo. Você deve ser feliz agora, com outra pessoa. Eu sou muito complicada. Mesmo quando eu fazia você gargalhar eu via o peso da minha complicação nas suas rugas.
Mas eu não acho outro caminho. E não consigo parar de falar de amor. Escrever também, é verdade. Mas falar mais ainda.
Ontem um igual a mim segurou minha mão. Ele toca piano de madrugada e às vezes, quando penso demais em você e não consigo dormir, sento próxima à ele e ouço. Acho que os anjos devem tocar piano.
Eu não sei mais porque escrevo essas cartas. (Será mesmo que são cartas?) Acho que mesmo que você quisesse, não leria nenhuma delas. Acho que tenho fé. Falando sobre nós talvez voltemos a existir.
Sinto o cheiro dos seus cabelos no meu nariz. Como quando eu enfiava meu rosto no seu pescoço. Ele me acalma. O pânico some.
Estou muito melancólica hoje. Me sinto doente.
Semana passada eles falaram que eu vou ficar aqui a vida toda se eu continuar a imaginar você dessa forma. Eles não entendem. Eu preciso de você.
Tive vontade de chorar. A cabeça zunia e meus olhos ardiam. Os coloridinhos todos na minha frente, azul para não chorar, vermelho para não gritar, verde para dormir, branco para relaxar. Cores. Soluções.
Não me deixam ver as estrelas. Dizem que eu posso alucinar, vendo você vindo de lá. Eles não enxergam o que eu enxergo. O bailado! Todo aquele bailado estelar, que se curva quando você passa, abre caminho para seu corpo.
Eles nunca sentiriam o formigamento. Eu vivo separada do resto, mas eu sei que você me observa.
Eu não esqueço nunca. Essa cidade é só metal. Não me deixam ver as estrelas. Alucinar? Eu? Queria poder beber aqui. Em embriagar de vinho com você, como nos velhos tempos.
Espero que você entenda o que estou escrevendo. É complicado, eu sei. Mas minha cabeça ficou toda fragmentada depois da nossa despedida. Eu penso assim, em pedaços. Acho que sinto em pedaços também, pois só sou capaz de viver um sentimento de cada vez. Na maioria das vezes é o amor e a tristeza. Acho que os dois são muito parecidos.
Ontem eu fugi da vigilância e sentei na varanda. O céu estava escuro e as estrelas se espalhavam por todos os cantos. Melancolia. Achei que a esquerda me lembrava seu sorriso.
“Como pode seu amor ter vindo do espaço?” _ eles perguntam.
Você sempre nos viu, não é verdade? E no meio de todos nós você me escolheu, não foi isso? E é aí que tudo se embola, porque se eu fui escolhida, porque fui abandonada? Não fui digna do seu amor? Ou será que…?
Será que realmente enlouqueci de amor? Serei eu realmente sozinha? Será que nunca nos beijamos no espaço? E aquele brilho todo? E os planetas que você me mostrou? Eu nunca sonharia tudo aquilo. Sempre fui muito limitada.
Não sei se você lerá essa carta, nem sei ao menos se conseguirei ouvir sua voz novamente, mas essa noite, enquanto eu estiver encolhida na minha cama, chorando até sufocar, eu tirarei forças de dentro de mim e pensarei em você. E você ouvirá. Daí. Das estrelas distantes, você ouvirá e me buscará. E se não for hoje, não tem problema, eu sei esperar.
Eu estou bem e não tenho pressa.
Espero a vida toda se for possível.
Julho 14, 2008
Ataegina – Moonspell (Ana Cristina Rodrigues)
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Tríade
Na Ara da Vida jaz uma morte
A ti te lanço a minha sorte
Ataegina tríade fatal
Pálida Deusa, doce é teu mal
Moonspell – Ataegin
Roma 410 AD
Roma fora rainha do mundo por tanto tempo. Agora sucumbia ante a horda de guerreiros vindos das florestas da Germânia. Barbaroi que sequer sabiam latim. Sequer falavam a mesma língua. No capitólio, Julia Augusta, filha do imperador, ouvia entristecida os sons distantes dos invasores derrubando as defesas romanas. Sabia que não teria muito tempo até chegarem ao palácio.
Ajoelhou-se aos pés de uma estátua de mármore branco, rosada pelos raios do sol. Representava uma mulher, vestida com panos simples e de expressão tranqüila. Ergueu a voz em um pedido.
- Virgem Mãe, ajuda-me! Faça com que eles não cheguem aqui!
Suas preces não foram atendidas. O mundo ainda era iluminado pelo carro de Apolo quando o palácio capitolino foi alcançado pelas hostes de Alarico, chefe das tribos godas. O saque foi tão terrível quando no resto da urbes. Tudo que os bárbaros achassem ter valor, era arrancado de seu lugar e amontoado. O resto era destruído. Assim anunciavam o cair da águia romana.
Não demorou para encontrarem o aposento escondido de Julia, guiados pelo próprio rex. O rosto guerreiro parecia uma máscara de ódio ao olhar a jovem romana ajoelhada. Em um latim rude, gritou.
- É verdade, até os chefes adoram a virgem que pariu o deus morto! A mulher é minha…meu filho vai ser neto do imperator!
Riram roucamente, e começaram a destruir o aposento, procurando tesouros escondidos nas paredes. Alarico arrancou a toga que cobria Julia com apenas um movimento. Ao tentar penetra-la, deu mais uma gargalhada.
- Não só adoram, como imitam…
E forçou-a, com violência. Entre a dor e a humilhação, contendo as lágrimas, a jovem gritou.
- Mãe, ajuda-me!
O germano deu-lhe um soco na boca.
- Cala-te, vadia! Como uma virgem morta pode ajudar?
Nesse mesmo instante, os outros guerreiros tiravam a pesada estátua de mármore do seu nicho. A descoberta paralisou-os.
- Por Odin, é Hécate, a Mãe da Lua Negra!
Uma estátua ricamente trabalhada de ônix negro representava uma mulher de idade, pisando em cobras, vestida com um manto dourado, o olhar maligno. Ao seu lado, oculta nas sombras, uma estátua pequena de quartzo rosa de uma grávida, o ventre cheio, expressão de plenitude.
- São as três. Ela é uma bruxa!
Apavorados, saíram aos tropeções. Só Alarico permaneceu paralisado, como que sob o efeito de um feitiço.
- Toda mulher tem um lado oculto. A Virgem pode ser a Mãe pode ser a Velha. Saia daqui, Alarico, e volte para as florestas. Ainda não chegou a hora da Cidade Eterna cair.
Dos que invadiram o palácio, apenas o rex saiu vivo do castelo. Os demais caíram fulminados ao deixarem o capitólio. O triunfo de Alarico foi curto, a ordem foi restaurada em Roma. Mesmo tendo sido esquecida pelos homens em detrimento da Virgem, a Velha manteve sua cidade enquanto pode.
Julho 11, 2008
Lips Like Sugar – Echo and the Bunnymen (Marcelo Jacinto Ribeiro)
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DOCES BEIJOS
Finalmente! Depois de tantos anos, de tanto sacrifício, de tanta busca! Eu a encontrei, bem onde as lendas diziam, aqui, perdida nessa imensidão inexplorada, a Lagoa das Esmeraldas, a fonte de riquezas ilimitadas! Esmeraldas? Não, muito mais que isso: diamantes, rubis safiras, prata, OURO! Centenas de homens deram suas vidas para atravessar a floresta impenetrável mas apenas eu consegui alcança-la. E agora você é minha! MINHA! Pode ser difícil retirar as suas riquezas, mas vou conseguir, nada me impedirá!
Mas antes vou me refrescar nas suas águas, limpar a sujeira do meu corpo. Mereço possuí-la por completo, tê-la como bem quiser e desejar. Ah, sim, como seu toque é refrescante e suave… Sim, leve meu suor para longe, limpa minha pele suja, esfrie meu corpo cansado… Sim, sim, faça as vontades do seu mestre… Sinto suas águas massageando meu corpo, desfazendo os nós em meus músculos doloridos, levando o cansaço dos meus ossos… Sim, seja uma boa escrava e me dê o que mereço… São como os dedos de uma mulher amada sobre o corpo do seu homem nu, não pare, não pare…
Mas… Mas… O que é isso? De onde veio você? Quem é você? Nenhum outro homem jamais esteve nessa lagoa, como você, mulher, chegou aqui antes? Como? E por que você está fazendo isso, me segurando desse modo, me tocando desse modo? Não sou seu amante, nunca a vi antes… Mas você me deseja tanto assim? Você me quer tanto assim?
E por que não consigo vê-la direito? Você parece uma miragem, uma criatura etérea… Não consigo manter os meus olhos sobre você, não consigo ver os detalhes, mas você… Seus cabelos negros e lisos flutuam tão suavemente nas águas… Não, são loiros, brilhantes como ouro e cheios de caracóis! Ou seriam curtos e ruivos, arrepiados pelo toque da água fria? Pouco importa, vou olhar apenas para seu rosto, admirar sua pela branca como as pérolas do mar… Mas agora ela se tornou negra, queimada pelo Sol das savanas africanas. Não, não! Ela é morena, suave e dourada…
Chega, chega de confusão! Seus olhos, sim! Disso tenho certeza! São verdes, faiscantes esmeraldas que brilham e hipnotizam, esculpidas por Deus no seu rosto perfeito, a única luz que brilha aqui, nas profundezas… Estou assim tão no fundo? Apenas me sentei na beirada da lagoa para refrescar meu corpo cansado, então você surgiu do nada, me arrastando para aqui, onde o Sol é uma vaga lembrança… Estou me sentindo fraco, estou me sentindo com sono, tanto sono… Ar, preciso de ar, preciso respirar para sentir a vida voltar ao meu corpo, mas o céu está tão longe… Sim, já sei o que fazer, vou sorver o ar de você. Minha amante, dê-me mais que prazer, dê-me a vida que preciso… Ah, seus lábios são tão suave, seu beijo tão doce, tão doce… Mas não sinto o ar invadir meu peito, encher meu corpo… Pouco importa, estou com você, não preciso de mais nada. Meu desejo por ouro, prata, diamantes, rubis, tudo se foi. Quero apenas as esmeraldas que brilham no seu rosto, quero apenas seu toque na minha pele… Essa é a verdadeira riqueza que homem algum jamais possuirá, apenas eu, eu…
Sim, minha amada, vamos descansar no seu leito de amor, viveremos juntos aqui, até o fim dos tempos, no seu lar, nas profundezas da lagoa. Deitemos na sua cama… Estranho, não parece uma cama, a lagoa parece cheia de estranhos galhos e rochas brancas… Lembra-me algo familiar, algo… Assustador… Parece que centenas de homens sorriem sem lábios para mim, olham para mim com órbitas vazias, apontam para mim mãos sem carne, esticam para mim seus braços mortos… Mas não, minha amada, você está certa. Não preciso me preocupar com nada, com o Sol, com o ar, com riquezas… Tenho você, eternamente… Você com seus olhos de esmeraldas e seus doces beijos…