- Mas eu quero! Eu preciso!
- Gabriel, eu sei muito bem o que você sente, eu entendo pelo o que está passando. Mas renegar a sua natureza não lhe fará bem algum. Isso já aconteceu antes, lembra-se? De que adiantou?
- Não acredito no que você diz, Metatron! Em nenhuma palavra! Eles têm tanto, tanto! Eles sentem a brisa do vento nos cabelos, o calor do Sol nos rostos, a água escorrendo pelos dedos! E o que temos? Nada! Somos etéreos como a brisa, invisíveis como o calor e transparentes como a água! Não sentimos, não vivemos! De que adianta ser eterno se tudo que existe nos é proibido? É por isso que você tanto anseia? Ser uma idéia, um pensamento? Eu quero sentir tudo o que eles sentem, Metatron! Tudo e muito mais!
- Gabriel, peço que reconsidere. Sua revolta não tem sentido algum. O preço que eles pagam pelo que você considera uma dádiva é tão alto que você não suportaria. Não há como conciliar nossos mundos. Siga sua natureza, não os seus sentimentos.
- Não, Metatron, NÃO! Lúcifer se rebelou pelo orgulho e desejo de poder, o que eu quero é diferente, busco apenas sentir o que é estar vivo, sentir o que é ter um corpo de carne e sangue. Eu quero experimentar a vida! Chega de viver nas sombras como um mito. Eles não precisam de nós, deixe que sigam seu caminho egoísta e sem sentido. Dê-me o direito de escolher, dê-me a liberdade!
- Você não vê o que está dizendo, Gabriel? Em um momento pede desesperadamente para ser como um deles, e no outro os renega e amaldiçoa. Como pode ser isso? Não há lógica em suas palavras. E não estou proibindo-o de seguir seus próprios pés, estou sim é implorando para que você siga a sua natureza. Seja o que o Criador o fez! Não caia na tentação de desejar o que não pode ter, não pode alcançar!
- Suas palavras é que não tem sentido, Metatron. Já estou decidido do que devo – não, preciso fazer! Dê-me a liberdade e saia do meu caminho.
- Pois bem, que assim seja, Gabriel. Saiba que estarei aqui a sua espera quando seu tempo terminar. Estarei esperando, pronto para ouvir o que tem a dizer.
- Pois eu já lhe digo, Metatron, que sou e serei o mais feliz de todos os anjos!
- Isso veremos, Gabriel. O tempo dirá.
- Tempo? O que é isso? Não conheço essa palavra, qual é seu significado?
- Algo que os seres de carne e sangue sabem muito bem, caro amigo. E você irá aprender também, do pior modo. Como muitas outras coisas. Adeus.
Naquele mesmo dia uma criança veio ao mundo, como tantas outras centenas de milhares. E como todas elas, chorou a plenos pulmões ao sair do ventre de sua mãe rumo a sua nova existência. Mas essa criança, disseram todo que a viram, era diferente. Nunca ninguém tinha visto uma criança nascer com uma expressão tão gritante de arrependimento no rosto.
Junho 15, 2008 at 1:51 am
Não acredito que vc mandou Los Hermanos antes de mim!! Rs…
Gostei do conto, principalmente do final, achei o final na medida certa.
Junho 15, 2008 at 12:31 pm
Excelente texto! Belos diálogos e um final marcante.Parabéns!
Junho 15, 2008 at 5:23 pm
Muito bom, Marcelo! O final realmente foi matador…
Julho 12, 2008 at 8:30 am
Gostei muito do conto, mas não consegui pescar (sem trocadilhos, please!) a relação dele com o clipe. Mas como gosto do clipe, tá valendo.
Abraço!