Estupidez Artificial
– Nunca parei para pensar no processo que cria vida artificial (ou sentimento, ou inteligência) a partir da carne (ou barro, ou silício).
Acho que foi a última resposta que dei na entrevista na antesala do laboratório.
A última lembrança é que não fui perdoada por alguém. E nesse estado foi fácil me entregar aos experimentos de um cientista decadente e ignorado pela comunidade. Seu objetivo era me transformar num objeto, num ser sem medo de cair, uma criatura de Frankenstein invertida, comatosa, cujo contato mais sutil com a vida seria especificamente delimitado.
Ao fim do experimento (que envolvia sedativos, lobotomias e detonação de redes neuronais específicas), fui colocada numa prateleira.
Muito tempo depois, fui pendurada num gancho e entendi que poderia ficar ali por uma eternidade. Entendi, também, que o cientista que me modificara não era ignorado sem razão.
Com o pouco de afetividade e cognição que me restara, criei uma nova razão para viver, totalmente louvável, perfeita! Com as pernas balançando como sempre, articulei um sorriso num movimento labial intermitente e abri um olho. O cientista decadente, nada descabelado, detectou o sinal que aguardara por anos no laboratório empoeirado.
– Está pronta para sair?
Meu sorriso cresceu, num deslocamento muscular ainda não contínuo.
O gancho foi virado. Bati no chão com tudo, como um saco de areia. Não duvidei que, de fato, houvesse areia dentro de mim. Enquanto levantava, vi a tatuagem acima do tornozelo. Um nome, possivelmente um apelido, e uma espécie de logotipo: um planeta Terra num formato que lembrava, de leve, um coração.
Saí para a rua, dando passos aos trancos e a cabeça ainda compensando a oscilação pendular que embalara minhas pernas durante tempo indiscriminado.
A nova vida que eu criara consistia em seguir andando e perdoar todas as pessoas e todas as coisas. Comecei perdoando o cientista que anulara meu rico mundo interior, que reduziu minha individualidade a um ser humano menos capaz e a um ciborgue ridiculamente obsoleto. Grande sorriso estroboscópico.
Se algum dia encontrarem uma razão para me perdoar, talvez eu crie uma nova razão para viver.
Junho 6, 2008 at 10:51 pm
Hey! Ho! Let’s Go! Muito bom Ludimila, me lembrou um pouco Laranja Mecânica e o conto Back to URSS do Fábio.
Junho 7, 2008 at 3:19 am
Lindo ludi! E depois vc vem me falar que vc nao utiliza um ritmo suave e feminino!!
Muito bom! parabens
Junho 7, 2008 at 11:06 pm
Ludi, agora entendi aquela história do Frankenstein. Mas eu gostei muito desse seu conto, não tem nada a ver com aquilo que a gente estava falando.
Junho 8, 2008 at 1:59 am
É, Fábio, acho que só achei uma coincidência engraçada porque o timing foi bem em cima: enviei aqui, li lá.
Mas não tem nada a ver mesmo. Dã
Que bom que gostou deste ramoneano.
Junho 8, 2008 at 5:43 pm
Back in the USSR? Caramba, eu também achei, até falei pra ele. Só que li o conto algumas horas depois de escrever o textinho. O Fábio é influência pra muita gente, com certeza.
Junho 8, 2008 at 7:03 pm
(o comentário acima de dirige ao Rafael) Lupo, mas o próprio Fábio achou que não tem nada a ver. Vide comentário dele acima. Pelo menos não serei processada
(E não tem nada a ver mesmo, mas eu li Interface com o Vampiro, então….)
Junho 13, 2008 at 7:44 pm
Ludi, não te acusei de plágio não.
Só falei que seu conto me lembrou o do Fábio, o tema é parecido. Mas o seu conto é bom por seus próprios méritos!
Junho 14, 2008 at 3:10 am
Ah, isso ficou claro, Rafael. Eu tava só brincando mesmo
Junho 22, 2008 at 9:01 am
Ludi:
O conto ficou legal, mas eu fiquei meio no ar. Acho que você devia ter desenvolvido melhor a idéia. Sei lá.
Abraço!
Junho 24, 2008 at 8:00 pm
Aurisson:
Valeu pelo comentário!
Acho que ficou vago porque pensei que tava escrevendo um roteiro pro clipe da música, algo assim.
Abraço!