Junho 2008


 

            A primeira vez que ouvi a canção “A Beira do Pantanal”, de Raul Seixas, achei o ritmo hipnótico e desconfiei que aquela cadência monótona escondia mais coisa por trás dela. É o tipo de música que é escrita propositalmente pra combinar com uma letra e não ao contrário. Então suspeitei que o ideal seria ouvi-la a meia-luz, com um trago forte. Foi o que fiz. Absorvi a canção como um gim amargo, mas encorpado pela produção. Foi impossível não terminar de ouvi-la e correr os dedos pelo teclado para retratar o que descobri ali.

 

 

            À Beira do Pantanal

 

          

            Sol ardido em minha nuca. Preciso do meu chapéu. Mas o esqueci quando te abandonei. Agora é tarde. Não volto mais. Nunca mais. Tenho que remar para esquecer. Remar para te esquecer.

            Onde está o gim? Procuro, encontro e entorno. Prefiro uísque, mas você não tinha na cabana, peguei gim mesmo. Amargo demais, mas não tanto quanto meu peito. Não tanto quanto o nó em minha garganta ao te dar as costas e partir. Vou remando para esquecer. Bebendo e remando, deixando você para trás.

            Um crocodilo passa preguiçoso, fazendo a água calma do Pantanal serpentear. Lembro como criança de doces, do balanço de seu quadril. Cintura perfeita. Pilão talhado à mão. Corpo belo e singelo, como poesia parnasiana. Que droga, onde está o gim?

            Os mosquitos assoviam no meu ouvido, picam, furam, melam depois de espalmados. Sangue meu devolvido a tapa. Mas isso não incomoda. Incomoda é o zumbido persistente. Incomoda é a sua voz que na lembrança eu guardei:

            “Por que meu querido, por que meu amor, cravaste em mim seu punhal? Meu peito tão jovem sangrando assim, por que este golpe mortal?”

            Frase figurativa, mas de impacto. Sei que não ligou pro punhal. Ignorou e deixou de lado. Ouço mais atrás, na curva que deixei há pouco, o som de remos. É você que vem atrás de mim. Não entende que não te quero. Remo mais forte. Remo pra te deixar para trás. Bebo o gim amargo. Remo com vigor deixando você se tornar passado.

            Mais de dois anos vivi na cabana a teu lado. Não sei como nos encontraram. Fora o marido traído ou você mesma contou a alguém nosso paradeiro? Não sei pouco me importa. Não te quero mais. Fique agora no meu passado. Deixo-te pra trás.

            O jardim que plantei para você nos fundos da cabana. Jardim belo que todos os dias reguei com meu amor e devoção é a única lembrança que terá de mim. Ele e meu chapéu que deixei caído em algum recanto da cabana. Lembrar de você regando a terra onde preparei o jardim é uma bela visão. Trabalhamos juntos e fui feliz aquele dia. Fiz-te um gesto sagrado de amor e por ele a terra você regou.

            Como posso olhar para trás e esquecer que já te amei com devoção. Nem lembro o que foi que me fez calar teu coração. O meu se calou algum tempo atrás, quando me encontraram e vi que não era tu quem remava atrás de mim.

            Estou aqui em minha cela, revivendo agora o que passei, escrevendo o que senti e pensei. Revendo o Pantanal na tela fictícia de minha memória. Rememorando o que me trouxe para esta prisão. Julgado. Condenado. Culpado. Culpa de amor, por amar errado. Eu e você pegamos perpétuas. Eu no concreto e aço, você deitada em seu regaço à beira do Pantanal. A lei dos homens me condenou: “Perpétua será tua prisão”. Porque fui eu mesmo quem calou, com aço o teu coração.

            E eu preso aqui nesta cela, deixando minha vida passar, escuto a tua voz, no vento que vem perguntar:

            “Por que meu querido, por que meu amor, cravaste em mim seu punhal? Meu peito tão jovem sangrando assim, por que este golpe mortal?”

            Queria apenas que parasse de me visitar todos os dias. Que não cruzasse as paredes de minha cela, figura passiva e etérea. Que nunca mais me despertasse com beijos antes de retornar para tua morada. Dei-te paz, um jardim, uma morada. De ti não quero mais nada, mesmo que teu espírito ainda clame por mim. Mas você ainda assim me ama, me segue, não me deixa, pela minha alma aguarda, enquanto chama.

 

A internet é cheia de ‘memes’, coisas que passam e você participa e repassa e outra pessoa participa e re-repassa e… bem, deu pra entender.:)

O Jacques, meu co-editor e parceiro do Fábio no Pos-Weird Thoughts, me passou esse meme. E como foi o próprio Fábio, nosso co-editor, que lhe passou o encargo, sobrou pra mim!

Pegue o livro mais próximo, abra na página 123 e copie a 5a linha.

E como acabei The Scar do China Mieville por esses dias, foi ele o escolhido do destino:

“Even when I’m uptown, you know?”

Proooooooonto. E continuando, vamos mandar pra uma colaboradora do blog, a Ludimila e sua Argamassa Gorda

 

 

                                                Realidade Paralela

 

 

 

                       A estrada descia, vertiginosamente, em curvas, sobre a vegetação que margeia o lago. Como se todo o mercado das flores do miserável New Bexiga se espalhasse ao longo da água. E sem os vendedores, os gritos, apenas o barulho do motor.

                             Acelerou ainda mais, o pé colado ao pedal.

                             Sentia o vento entrando através das frestas do casaco e, de certa forma, os carros que cruzavam a Via Expressa do outro lado.

                             Na outra realidade. Paralela. 

                             Concentrou-se na paisagem  dentro do visor. Gostava do cheiro de couro da moto. Mas desligou o que restava do ambiente real.

                             Maresia, o ar úmido dos campos ao amanhecer, saturado de perfumes.

 

                            Pouco a pouco a noite se esvai…

                            

                             O sol ainda estava baixo no horizonte, ligeiramente avermelhado.

                             Lá fora, as fábricas começavam a expelir seus detritos negros. O perfil de vidro dos edifícios, a vasta muralha ao longo da Via Expressa. Os primeiros ambulantes iam armando as barracas na calçada, acordando os mendigo. Panelas eram colocadas sobre fogareiros improvisados. A fumaça que saia dos caldeirões sujos ia se juntar ao escapamento dos carros que passavam, subindo em direção ao céu cinzento.

                             Diminuiu um pouco a aceleração e atravessou, com um pequeno solavanco, a ponte sobre o riacho.

                             Tinha vontade de parar junto à água que corria, formando pequenas cachoeiras cristalinas, descansar sob os pinheiros que ondulavam ao vento, sombreando as margens do regato.

                             Era um desejo impossível.

                             Estava condenado a correr através da paisagem, incessantemente, enquanto o mundo explodia lá fora.

                             Alguns pardais  pousaram nos fios molhados pela chuva.

                             Nas calçadas, os primeiros transeuntes juntavam-se aos mendigos e ambulantes que atravancavam a passagem, resmungando imprecações, enquanto a Via Expressa ia se enchendo de carros e motos velozes, vidros fechados, rosto crispado pelo medo. Da emboscada, do assalto, do seqüestro – o encontro da classe privilegiada com a marginália que se espraiava ao longo da cidade sitiada.

                             Ele subia a colina, agora mais lentamente, atravessando os campos cultivados.

 

                            Lótus se apóiam em outras, ansiando por algo…

 
 
 

 

                             No vale pastavam bois que pareciam de brinquedo. Feixes de trigo brilhavam ao sol e a temperatura aumentou.

 

                           

Estabeleça os controles para o centro do sol
 
 
 

 

                             Debaixo do capacete, começou a suar e programou uma ligeira brisa.

                             A vista era deslumbrante. Pequenos morros iam se tornando cada vez menores até se confundir com o azulado do céu à distância. O vento entrava pelos seus ouvidos nas frestas entre o pescoço e o capacete.

                             Lá fora, a chuva aumentou de intensidade.

 

                            quebrando a escuridão, acordando a videira…
 
 
 

 

                             O assaltante encostou a submetralhadora na nuca do motorista do carro azul. Sua voz era ríspida. Ele comandava a barricada logo após a ponte verdadeira.

                             Pedágio clandestino, o terror das estradas. Quando avistavam os caminhões atravessados, impedindo a passagem, alguns tentavam manobras arriscadas, voltar pela contramão. E suicídio quase certo. Melhor pagar.

                             Com o carro, os códigos dos cartões bancários.

                             A arma na nuca, os músculos endurecidos do pescoço, à espera do impacto que, às vezes, vinha. Ninguém sabia do que os periféricos eram capazes.

                             Para escapar, mesmo que por poucos momentos, do jugo da miséria. O poder absoluto, ainda que só por algumas horas de tensão.

                             Ver todos aqueles executivos, nos seus blindados cavalos de aço, estômagos contraídos e intestinos revoltados, sob a mira das armas pesadas.

                             Mas ele estava em RV e apostava. Começou a descer a colina.

                             Agora!

                             Desligou o comando e manteve a realidade virtual.

                             A moto fez um cavalo de pau e embicou para baixo. Os morros, as flores, o céu, corriam vertiginosamente através do visor do capacete.

                             Na tela, as letra vermelhas piscaram:

                             “Piloto automático desligado. Piloto automático desligado.”

                             Por entre os cedros, os vales, o sol brilhante, ele descia cada vez mais rápido.

                             Comandando a moto.

                             Comandando a vida.

                             Na Via Expressa, molhada e escorregadia, as rodas deslizavam perigosamente nas poças de chuva.

 

                            quebrando a escuridão, acordando a videira…

 

                             Através do visor, o caminho saltava e ondulava, os campos corriam, sempre mais depressa, em direção aos morros.

                             Até se espatifarem contra o caminhão atravessado.

                               Na paisagem estilhaçada do capacete, os edifícios surgiram entre a fumaça e o céu nublado.

                             O sol oscilou,  desapareceu e  finalmente se fixou.

                               Para sempre.

 

 

A Árvore de Trinta Centímetros 

Certas coisas são mais fáceis de se resolver com uma conversa ou duas. Veja por exemplo essa cena. Imagine um nerd largado A encontrando um nerd largado B em uma seção de quadrinhos de megastore, em um shopping center. O nerd largado A olha para o nerd largado B, que folheia uma edição definitiva do Cavaleiro das Trevas do Frank Miller. Como a edição em questão inclui tanto a obra clássica quanto a continuação que é puro lixo, o nerd B decide colocar de volta na estante e deixar pra lá. O nerd A estica a mão e pergunta “posso ver?” ‐ pegando o material sem problemas.

Rapidamente uma garota muito bonitinha passa por eles. O nerd B não a notou, por estar folheando já outra coisa. Então o nerd A simplesmente dá um toque. “Olha aquela menina.”

De repente os dois estavam olhando. Ela era uma graça. E para surpresa do nerd B, o nerd A diz simplesmente. “Ainda bem que não estou namorando uma menina assim.” Antes de que o nerd B pensasse que o nerd A é algum tipo de viado, o nerd B simplesmente emenda:

‐ Já pensou o quanto custa ter uma namorada assim?

‐ Como?

‐ Verdade. Essas aí, só com carro. Eu não tenho, você tem?

‐ Não…

‐ Pois é. Essa é a idéia. Ela tem cara de baladeira. Precisa sair, ir para os lugares, ver, ser vista… viu o decote dela?

‐ Vi…

‐ Realisticamente, acha que qualquer um de nós dois tem chance de pôr as mãos ali?

O nerd B hesitou ‐ era péssimo para a auto-estima dele, mas já que era para ele responder realisticamente…

‐ Não. Acho que não.

‐ Ah, menina como essa já tem namorado. Fêmeas dessa espécie não ficam às traças. Terminou um, outro já pôs a mão. E é um com grana, que a leve para os lugares… Bom, eu olho de forma positiva. Quer dizer, imagina o tipo de postura que eu deveria ter para pegar uma menina como essa, porque senão ela me colocaria um par de chifres e partiria com o primeiro sujeito com mais grana no bolso. Como é que você acha que essas meninas olham para gente? “Ah, ele lê revistinha…” ‐ respirou fundo, com um pouco de enfado. “Melhor pegar uma menina mais simples e que não dá tanta dor de cabeça, não é?”

‐ É…

Fez-se um silêncio. O nerd largado A pegou um volume de “Os Supremos” em capa dura e disse “bom, vou lá para o caixa. Até.”

O nerd largado B ficou com aqueles pensamentos na cabeça. 

 

 

Agora vamos observar outra cena, na mesma megastore. Seção de cds. A menina que passou por eles ‐ vamos chamá-la de Patricinha A ‐ começa a fuçar alguma coisa que interesse à ela. James Blunt, Ivete Sangalo, essas coisas que tocam em rádio. Então outra menina, que vamos chamar de Patricinha B, estica a mão e pergunta “posso ver?” ‐ pegando o cd que a Patricinha A já estava pondo de volta na prateleira sem problemas. Olha para a capa do cd. Depois olha diretamente ‐ é visível, daquela parte da loja ‐ para a seção de livros e quadrinhos. “Ah, droga. Lembrei que tenho que arrumar um presente para o meu primo.” Fez um sinal de cabeça apontando para os dois. A Patricinha A, que não estava nem aí para eles, os olha. Os dois acima do peso. Um estava com a barba rala por fazer. A Patricinha B continuou: “Pensando bem, o melhor presente que ele precisa é uma namorada, não é?”

A Patricinha A olhou para eles. “É.” Mas algo lhe passou pela cabeça: Quem iria namorar com aqueles caras largados? Como se pudesse ler sua mente, a Patricinha B rebateu: “Eu é que não entrava nessa. Mais fácil comprar um gibi daqueles caros para ele, mesmo. Você entrava?”

‐ Eu? Eu é que não.

‐ Não é pelo gibi, claro. Não julgo as pessoas assim. É pela falta de auto-estima. Você malha, não é?

‐ Malho.

‐ Pois é. A gente se cuida, quer ficar bonita, quer se tratar… a gente gosta de si mesma. Como é que dá pra ficar com um cara que nem gosta de si mesmo? Claro, eu não sou de julgar os outros também, mas se uma amiga minha anda com um cara assim, eu mesmo dou um toque para ela. A gente precisa se valorizar. Minhas amigas também pensariam que tem algo errado comigo se meu passe valesse tão pouco, não?

‐ Claro, lógico, tá mais do que certo.

‐ Bom, a sorte é que eles não são de tomar muito a iniciativa. Você pode sair da frente do gol que eles medram e chutam pra fora…

A Patricinha A acabou rindo, enquanto a Patricinha B fechou a conversa com um “Bom, deixa eu ir lá e pegar alguma coisa pra ele. Tchau!” ‐ deixando a moça sozinha com seus cds. Ela ainda não havia escolhido o que iria levar. 

 

 

Bem mais tarde, o Nerd largado A e a Patricinha B se encontraram longe dali, em um lugar onde poderiam ter discrição total. E riram muito. Por que todos os filmes sobre viagem no tempo complicam tanto para se resolver uma coisa simples?

Cadáveres deixam rastros complicados. Mortes são facilmente perceptíveis. Porque os cineastas ficam pensando em andróides assassinos, que exigem recursos para serem produzidos, ou agentes mortais com armas até os dentes? Quem quiser ‐ ou puder ‐ desfazer qualquer alteração o fará facilmente; é só localizar quem saiu bancando o exterminador e cortar o mal pela raiz antes que ele o faça.

Contar com a natureza humana é bem mais fácil. Poucas horas depois, o casal fatalmente se encontraria: ele por ter pego um volume com dois cadernos fora de ordem na encadernação interna; ela por ter pego um cd prensado por engano com as faixas de outro artista. Os dois ficariam no balcão ao mesmo tempo e como o atendente se demorou por algum motivo, ambos acabariam puxando conversa. Ele tomaria coragem e pegaria o seu msn. Ela, que achou o sujeito simpático, não veria problema em adicioná-lo. Nenhum dos dois imaginaria que desse encontro acidental nasceria um romance e, relativamente pouco tempo depois, uma criança ‐ o homem que descobriria a cura do câncer. Algo que não agradava muito à indústria farmacêutica ‐ tradicionalmente comandada por homens que entregariam as próprias filhas pequenas a uma horda de estupradores se sua posição estivesse em jogo.

Graças aos seus medos, porém, era duvidoso que essa conversa acontecesse. As pessoas tendem a se guiar demais pelas aparências. Tudo voaria como uma sombra em seus atos e ditos a partir daquele momento. Os dois ficariam calados, com todos aqueles pensamentos em mente. Dizem que se uma árvore de trinta metros de altura tivesse a mente de um ser humano, e acumulasse todas as inseguranças e paranóias que costumamos acumular sem razão, não cresceria mais do que trinta centímetros. Claro, mesmo que o destino fizesse das suas e permitisse que ambos se reencontrassem e se entendessem em outro momento… bom, espermatozóides tem uma vida útil muito curta. Não haveria como o mesmo bebê ser concebido em datas diferentes.

Naquela noite, o Nerd largado A e a Patricinha B voltaram à sua época e racharam a grana do serviço, felizes e contentes. A indústria farmacêutica costuma pagar bem aos seus executores. Enquanto isso ‐ melhor seria dizer paralelamente a isso, já que “enquanto” é um termo muito relativo quando viagens no tempo estão envolvidas ‐ o Nerd largado B leu seu volume de quadrinhos e a Patricinha A ouviu seu cd enquanto falava com as amigas no msn. E dormiriam tranquilos, sem saber o que perderam.

Como não custa repetir, certas coisas são mais fáceis de se resolver com uma conversa ou duas. Para o melhor ou para o pior.

Escondido debaixo da mesa? Refugiado nos escombros da Casa Branca?

Levante-se!

Encare meus olhos, criatura.

Veja bem os restos do mundo em que você viveu. A terra que você governou. O que ganhou?

Cinzas e radiação.

Desolação e morte.

Dos homens? Sobrou apenas um. Você. Que teve posses, dinheiro, títulos. Presidente. Líder.

Morreram todos.

Eram quantos?

Bilhões?

Importa pouco agora.

Guerra… Bombas nucleares. Destruição em massa.

É. Vocês chamaram. E eu vim.

Qual meu nome?

Chame de Apocalipse. Ragnarok. Fim do Mundo. Kali Yuga. Armageddon. Últimos Dias.

Pouco importa, pois eu vou virar para você e dizer no meu melhor sotaque texano.

It´s Evolution, baby!

                                           O Clube dos Demônios

                                                    (Parte 1)

 

 

- Eu gostaria de por minha boca aí. – pediu.

- Nem tudo que mostro pode ser desfrutado. – respondi.

Segurou minha mão, giramos. Meu cabelo pendia em cachos abertos nas laterais do rosto. Era uma noite de risadas. Eu queria. Ele também. Dancei mais rápido. O salão cheirava a whisky e cigarros caros. Eu gostava dos dois. O vestido verde escuro caía como uma luva. Os sapatos não machucavam.

- Você sempre dança assim?

- Assim como?

- Como se quisesse dormir comigo.

- Eu só danço com quem quero dormir.

Sorri. Minhas bochechas doíam de tantos sorrisos. Essa noite eu era uma rainha. Todos me desejavam, eu sabia disso. Se eu fosse feita de chamas, todos queimariam seus braços só para me tocar. Sempre gostei de ser o centro das atenções e se eles me desejam, que babem por mim, que me ofereçam o mundo que eu mereço, o mundo que eu desejo e pertenço.

Peguei minha taça de champanhe, borbulhante como somente eu sabia que alguém poderia ser. Olhei para os cantos do salão, cada porta levando a um quarto, cada quarto levando a um mundo, um pequeno mundo secreto e privado, com seus segredos e perversões.

Essa é a noite perfeita. Eu enxergo no escuro muito melhor do que todos eles juntos, vejo silhuetas que aumentam meu desejo, eles me querem, mas eu quero elas. Pequenas e grandes, com curvas e concavidades, tristes e felizes. Quero o brilho nos olhos e os lábios macios. Essa noite eu tenho quem eu quiser. Não preciso me preocupar, o contrato assinado na entrada nos garante segurança, privacidade.

Meus dedos formigam de desejo, sufoco de necessidade. Olho ao redor procurando. Eles me seguem, pedem, imploram. Eu jogo. Eu desfruto. Eu brinco. Com eles só isso me interessa hoje.

- Meu quarto tem jóias que pendem do teto. Todas podem ser suas. Todas.

- Você sabe muito bem que mesmo que seu bastão fosse de diamante eu não o tocaria.

- Você muito me maltrata essa noite.

- Eu sei que você gosta. Mas hoje você não provará meus chicotes.

Perco o interesse muito rápido. Nenhum deles consegue me entreter. Olho para a esquerda e os olhos negros como a escuridão que tanto me apraz me encontram. Sorrio de leve, um meio sorriso. Ela anda até mim, meu estômago afunda.

- Percebi que hoje você quer um novo tipo de diversão.- diz ela deliciada com minha palidez.

- E eu notei que ela pode muito bem ser você.

- Eu me ofereci?

- Não precisou.

Passo meu braço por sua cintura, meu corpo inteiro está em choque, arde minha boca com minha saliva ácida. O mundo que me prometeram. O mundo que me pertence.

- Você já escolheu seu nome hoje?

- Súcubo.

- Deveria eu então ser Íncubo?

- A escolha é sua.

Ela abriu sua porta, a quarta da direita para esquerda. O quarto era espaçoso, com almofadas macias e uma cama grande, garrafas de vinho esperavam em um criado mudo, um par de algemas em outro, a janela dando para o rio caudaloso que nos cercava com a lua emoldurada no centro. Não tive muito tempo para expressar qualquer reação. Sua boca, nervosa e agressiva já mordia meu pescoço, seus lábios volumosos arrastavam-se por minha nuca arrepiada, tinha mãos fortes que me envolviam pela cintura, e uma voz ofegante que queimava ao chegar aos meus ouvidos.

- Este é o mundo que desejas? Então essa noite te concedo o seu desejo.

Não consigo manter a confiança inicial, ela me envolve com apenas um movimento. Ali naquele lugar quem manda não sou eu, quem domina não sou eu. Ela sorri com minha rendição, mas só vejo a metade de seu rosto. Ela retira os cabelos escuros e lisos do rosto, seus olhos rasgados brincam comigo, faíscando, brilhando, vasculhando meu corpo inteiro.

Percebo que ela se move melhor do que eu no escuro, sinto medo por ela dominar meu elemento, meu habitat, com tanta facilidade. Ela nota.

- Hoje eu sou Íncubo por sua causa, mas não é esse meu nome, você bem o sabe. Eu sou mais do que você imaginar e ser desejada por mim mudará sua vida para sempre. Se você quiser partir, eu te liberto. Mas se você ficar, saiba que nunca mais sentirá outro gosto a não ser o meu, que eu tomarei toda faculdade que lhe resta, e que nenhum demônio nesta casa ousará toca-la novamente, pois eu, dona deste lugar, a escolhi para me pertencer e mortais me pertencem até perecerem, e depois disto por toda a eternidade.

- Não existe mais escolha quando se passa por essa porta, a minha decisão está tomada.

 

 

 

 

A coisa toda aconteceu daquele jeito que você sabe, de repente, inesperada.
Eu estava tomando café do lado de fora do Departamento de Biofísica quando vi o clarão com o canto do olho. Só tive tempo de me atirar no chão e gritar. Quer dizer, acho que gritei. A explosão, os destroços, e o pior, a metade do prédio tinha sido moída pelo meteoro. Bem, eu achava que era um meteoro, mas só até dar uma boa olhada naquilo. Uma esfera, vermelho-sangue, cheia de arabescos indecifráveis que podiam ser tanto chinês quanto árabe – seria uma satélite espião? – mas eu na hora já tinha sacado que estávamos fodidos. Mesmo. Um ‘tssssss’ acompanhado de uma nuvem de vapor aumentou meu desespero: a bola estava abrindo. Um ser de cerca de dois metros de altura, esguio, pele negra brilhante como se tivesse tomado um banho de petróleo, com caroços e cicatrizes simétricas de alguma tribo muito do mal, saiu da carcaça esférica que estava aninhada nos escombros do que há menos de cinco minutos era chamado de Departamento de Biofísica da UFRGS.
Olhos brilhantes, verdadeiras chamas cor de rubi vasculhavam o entorno. Ele me viu, senti seu olhar penetrando nos meus átomos como se contasse a cada um dos meus quarks que eles iriam sofrer muito antes de ele acabar com o serviço. O serviço, claro, era destruir a Humanidade.
O nome dele não lembro direito. Chernobog? Onslaught? Godslayer? Um troço desses. Ele veio até mim e acho que me caguei. Devo ter me cagado, pois mais tarde me vi completamente sujo. O ser falou comigo.
- VIM DESTRUIR SUA CIVILIZAÇÃO.
Algo estalou dentro de mim, meu eu normal morreu e um tipo de exu Zé Pelintra se apossou do meu corpo.
- Ah, tá, pensei que só tinha perdido o freio!
A criatura me olhou perplexa.
- EU DISSE…
-Tá, tá, mas podia ter feito menos bagunça? Ou melhor, se veio para destruir, porque não arrasou tudo de uma vez?
Eu acho que o Destruidor de Mundos nunca tinha encontrado esse tipo de reação antes. Nos seus milhares de anos de existência, programado para destruir civilizações preparando a invasão dos seus mestres, ele deve ter encontrado apenas lágrimas de desespero, choro e pedidos de clemência. Não uma demonstração de irritação como se sente quando alguém do quarto andar joga um balde de água na nossa cabeça.
- A SUA ESPÉCIE SERÁ ELIMINADA…
- Olha, bicho, entra na fila. Acabar com a civilização? Que civilização? Acha mesmo que precisa nos destruir com alguma coisa que a gente mesmo já não esteja fazendo? E conosco mesmos? Queimamos hidrocarbonetos e jogamos o lixo no próprio ar que respiramos; mijamos e cagamos na água que vamos beber; envenenamos a própria comida; anulamos a própria inteligência; acabamos com o próprio sistema imune; jogamos bombas atômicas no próprio planeta em que vivemos; destruímos a própria camada de ozônio; eliminamos as geleiras que nos fornecem água potável. Meu, se liga. Precisa mesmo vir alguém para nos destruir? Não lê jornal, não?
O Destruidor piscou várias vezes. Parecia consumido pela dúvida.
- MAS MINHA MISSÃO…
- Ao diabo com isso. Vai tirar umas férias. Vai surfar na Polinésia antes que ela suma do mapa. Pega uma nativa gostosa e dá uns amassos por mim.
Uma sombra tomou conta da face do Destruidor. Ele suspirou, exalando muito monóxido de carbono. Felizmente eu estava a alguns metros de distância dele.
- TANTOS MILÊNIOS… ESTOU CANSADO.

Tomou de súbito um ar decidido. Aí eu posso ter me cagado de verdade ou de novo, porque pensei “Ih, fui longe demais e agora ele ficou uma fera. Tamos lascados!”. Ele rugiu para mim:
- DISSE-ME PARA TIRAR FÉRIAS E SURFAR. FAREI ISSO.
E desapareceu.
O resto é simples. Houve sobreviventes na chegada do Destruidor, e os putos ficaram de longe, olhando. Tudo que ouviram foi eu xingar o cara, e ele ir embora. Recebi medalhas, comendas. Mulheres dão pra mim de graça, agradecidas. “O Herói da Humanidade”. Legal.
Mas ontem de tarde chegou um postal de Fiji. Um crioulão de olhos vermelhos com uma puta duma body modification me agradecia o conselho de surfar, e disse que estava tão feliz que chamou uma turma para visitá-lo. Me tranformou em cicerone, e pediu-me para receber os parceiros dele pruma cervejada.
O convite já foi mandado, e estou com a impressão de que agora sim, estamos mesmo fodidos.

 

Quando ele começou a lamber sua boceta, você se lembrou do sucesso que fizera quinze anos atrás: teatro, televisão, capas de revistas. Era uma das mulheres mais desejadas do país. O que aconteceu para que de repente fosse esquecida?  Não foi só porque o tempo passou, o que se comprovou por sua bunda durinha e empinada sendo acariciada com tanta empolgação pelo garotão forte de pau duro por sua causa.

Você então ficou de quatro. Com a mão direita pegou no pênis dele, e com sua língua fez movimentos contínuos até o engolir por completo. Ele gritava palavrões e te chamava de gostosa, o que te fazia pensar em como é bom voltar a se sentir desejada.

Agora ele ficou por cima de você, penetrando-a com afinco e vontade. Você começou a gritar, pediu pra que ele enfiasse tudo e não parasse porque estava bom demais. O motel de primeira em que estava lembrava os hotéis que freqüentava no passado. E as festas, onde sempre chamava a atenção de todos. Você sabia que era a mais desejada, todas as suas amigas eram lindas, mas nenhuma chegava aos seus pés.

Ele te botou de quatro novamente. Enquanto dava tapas na sua bunda, te comia, gritando de tesão. Você não fez por menos e também se empolgou, rebolando enquanto o sentia por dentro. Até que ele chegou ao êxtase, se levantou e gozou na sua cara. Vários jatos de porra te deixaram toda lambuzada. Você ainda o chupou mais uma vez, para que nenhuma gota fosse desperdiçada.

- Corta! – gritou o diretor.

Logo vieram te limpar, te vestiram num roupão e a levaram pro camarim para que você pudesse tomar um banho. Durante o trajeto, pensou no sucesso que seu filme faria, em como muitos ainda te desejariam, mesmo que já estivesse perto dos quarenta. Você então sorriu, pois sabia que era mais do que mulher, sabia que era feita de sonhos, que transcendia a carne e vivia no inconsciente coletivo. Era um avatar da Deusa, e cada gozo que fosse vertido em sua homenagem seria uma oração à Grande Mãe que a todos acolhe e dá amparo.

 

 

 

Eram 22h13 GMT. A cosmonave Explorer 2-B aproximava-se velozmente da parte exterior da atmosfera de Saturno.  Sérgio estava em sua cabine, sozinho, registrando informações no seu diário de bordo. Programou o hipercomputador para que o mesmo transmitisse aquelas informações para a Terra.

“Querida Vanessa,”

“Sei que a incomodo mais uma vez com esta mensagem, mas julguei necessária. Estamos nos aproximando cada vez mais de Saturno. Toda a tripulação do Explorer 2-B está apavorada. É a primeira vez que uma cosmonave tripulada se aproxima tanto deste planeta gigante. Nós não queríamos bater um recorde, nem tampouco entrar para a história. Após meses de viagem desde o espaçoporto de Phobos, em Marte, estávamos preparados para a aerofrenagem. Talvez eu não devesse perder tempo explicando isso. No entanto, sei que não está familiarizada com viagens espaciais. Sendo assim, creio que posso perder alguns momentos explicando-lhe o que está acontecendo.”

“Ao partirmos para Saturno, fomos lançados ao espaço em grande velocidade. Chegando por fim ao nosso destino, iniciamos o processo de aerofrenagem da cosmonave, visando colocá-la em uma órbita suave em torno do planeta. Tudo é matemática. Caso a aerofrenagem não seja calculada de maneira adequada, a cosmonave pode ser lançada para além da órbita do planeta, utilizando a gravidade de Saturno como uma espécie de catapulta, seguindo sua viagem sem destino certo. Ou então, podemos ser capturados pela gravidade deste monstro e cair no planeta. Só para que entenda, a técnica de aerofrenagem utiliza a atmosfera de um planeta para diminuir a velocidade de um veículo espacial, através do atrito com as moléculas de ar, possibilitando colocar o veículo espacial em determinada órbita pré-estabelecida.”

“É o que tentamos fazer. Mas não conseguimos.”

“As mais de 40 almas a bordo desta cosmonave preparavam-se para descer na base espacial em Titã. Todos estávamos ansiosos, afinal não é fácil ficar trancado nesta lata de sardinha por tanto tempo.”

“Ontem pela manhã cruzamos as órbitas das luas interiores do planeta. Os satélites Mimas e Encéladus forneceram-nos fantásticas visões de suas superfícies esburacadas em um melancólico azul glacial. E assim iniciamos assim a aerofrenagem, calculando nossa rota através dos instrumentos de bordo de modo a não sermos pegos pela grande força gravitacional de Saturno. Olho-o agora pela escotilha e tenho calafrios. Nem o magnífico sistema de anéis que tanto embeleza o planeta são o suficiente para tirar essa sensação de vazio que começo a sentir…”

“Tudo era controlado minuciosamente, até a falha geral em nossos sistemas acontecer. O hipercomputador não respondia aos comandos. Maldita Inteligência Artificial! Acionou os propulsores termonucleares e nos lançou sem rumo no espaço. Tentamos resolver a situação, e confesso que isso realmente nos apavorou, afinal, já estávamos em pleno processo de aerofrenagem, como já falei, entrando na atmosfera externa deste gigante gasoso. Mas, tudo foi em vão. Ficamos as cegas.”

“Quando finalmente conseguimos restabelecer o sistema constatamos que era tarde demais. Nossos instrumentos, agora já funcionando, indicavam-nos que estávamos em plena rota de colisão com Saturno. A gravidade havia nos pego de vez e não havia nada que nossos recursos pudessem fazer.”

“Ah, Vanessa. Conseguimos contato com a base em Titã, e aguardamos a chegada de um veículo de resgate, mas creio que a essa altura não há nada que possamos fazer. O resgate não chegará a tempo, e mesmo que chegue, o que poderá ele fazer a uma cosmonave condenada? Correriam eles o mesmo risco de serem apanhados como nós fomos?”

“Malditas máquinas! Ficamos tão dependentes delas! Confiamos tanto nelas e quando mais precisamos, elas nos traem”.

“Desculpe-me, minha querida Vanessa. Eu tinha que mandar esta mensagem a alguém. Achei que você seria a melhor pessoa a ouvi-la. Talvez quando receber esta transmissão, já tenha sido tarde demais”.

“Estou olhando pela escotilha. Saturno ocupa quase 90% do campo de visão e continua crescendo frente aos meus olhos. Vejo o turbilhão de nuvens de sua atmosfera sendo destroçadas pela alta velocidade de rotação daquele mundo. Tempestades e raios. E a sombra negra dos anéis. Temo que estamos indo direto para a sombra.”

“Ah, Vanessa… Sempre fomos amigos, não fomos? Desde o colégio. Aprendi a gostar de você… E eu sempre quis sair com você. Sempre quis levá-la para assistir a um holodrama comigo ou a um luxuoso restaurante. Mas você sempre me rejeitou. Assumiu depois compromisso com o seu atual noivo e nunca me considerou mais do que um mero amigo. Eu entendia, mas não conseguia aceitar. E assim, mantinha essa esperança de tê-la junto a mim em meu coração.”

“Nunca interferi em sua vida. Jamais quis forçá-la a algo que provavelmente seria contra a sua vontade. Sempre a respeitei. Por vezes tinha medo de tocá-la pois… pois eu não sabia o que pensaria de mim. Ah, Vanessa! Quantas noites passei sozinho, sonhando em acariciá-la, em tê-la para mim… mas… esqueça! Esqueça o que eu disse!”

“Saturno já cobre toda a visão da minha escotilha. Ouço gritos pelos corredores. Definitivamente é tarde. Tenho em mãos uma fotografia sua. Tento me consolar com o seu sorriso, mas o medo toma conta de mim, meu amor. As luzes de emergência foram acionadas e uma irritante sirene está anunciando nosso fim! Não tenho muito mais tempo, minha querida.”

“Vanessa… Apesar de tudo, apesar do seu desprezo… eu sempre a amei. E sempre a amarei.”

“Quem dera se todos nós, simples seres humanos e mortais, pudéssemos amar mais e exigir menos o amor dos que nos cercam. Se Deus nos criou para sermos felizes, por que me sinto tão infeliz agora? Por quê tinha que ser assim?”

“Estou me sentindo sufocado. O calor da minha cabine está aumentando gradativamente. Estamos caindo no planeta. A pressão no casco da cosmonave é cada vez mais intensa. Consigo ouvir o ranger dos metais cedendo. Logo o casco se romperá! Oh! Meu Deus! Seremos esmagados pela gravidade do planeta!”

“Preciso me despedir agora, minha querida Vanessa. Preciso partir… para sempre…”

“Beijos carinhosos para você, meu grande amor. Minha querida Vanessa. A mulher que sempre sonhei e desejei. A mulher a qual sempre amei… mas que nunca me amou. Aquela que poderia ter sido… mas não foi… e nunca será… Você foi a minha outra parte… uma parte que não tinha…”

Primeiro o Homem Azul procurou por Narud Narud, o Velho. Eles já se conheciam da Velha Terra, de muito tempo antes. Começaram a conversar numa mistura de farsi com hindustani e páli; o Homem Azul tentou introduzir inglês e katalawn na conversa, mas Narud Narud não entendia, ou fez que não entendia (o que às vezes vem a dar no mesmo).

Narud Narud ofereceu comida para que conversassem em Galimatar. Mas o Homem Azul não entendeu. Ou fez que não entendeu.

À distância, o Major Tom tentava entender alguma coisa e tirar algum sentido.

Nada.

Olhou para cima. O céu era branco com nuvens cor de chumbo. O próprio sol parecia branco, o que dava às pessoas um aspecto meio fantasmagórico, meio surreal.

Sem perceber, começou a se afastar da tenda do turco (ou árabe, ou iraniano, ou indiano, para Tom todas essas etnias eram a mesma merda) para olhar o que havia mais adiante daquela balbúrdia que parecia um mercado persa dos filmes que ele via quando criança na televisão (será que ainda existia televisão?, ele se perguntou).

Começou a olhar para as tendas e os prédios de madeira e alvenaria na ruela onde estavam. Não viu nada que se assemelhasse a antenas, ou sequer a fios ou cabos. As pessoas nas ruas usavam todos os tipos de roupas, mas não usavam relógios, nem telefones, nem nada que ele reconhecesse como tecnologia.

À medida que caminhava, as cores das construções iam adquirindo um aspecto mais vívido. Algumas pareciam ter acabado de ser pintadas. Tons de verde, de amarelo, de vermelho em sua maioria. Aqui e ali um tom de azul. Quase nenhum branco. E definitivamente nada de preto.

Subitamente Tom sentiu um cheiro.

O impacto foi tão violento que o cheiro parecia ter sido carimbado, espremido, esmagado direto para dentro do cérebro de Tom. Era um cheiro, um aroma, um odor, um olor, algo que ele nunca tinha sentido na vida.

Ficou completamente arrepiado.

Tão arrepiado que tudo parou naquele instante. Não conseguia ver nada à sua frente a não ser a entrada de um beco, reluzente como se tivesse sido emolduradas por guirlandas de ouro puro.
Era de lá que vinha o cheiro. E era exatamente para lá que ele ia.

Até sentir a mão pesada no seu ombro.

- Não vá para os Surúrbios – ele disse a Tom. – você não tem dinheiro para tanto.
- Você quer dizer subúrbios – Tom disse depois de um segundo, ainda bêbado de sensações.
- Não – disse o Homem Azul. – Nos subúrbios você paga para se foder. Nos surúrbios você paga para foder. Ou ser fodido. É diferente.

Tom parou para pensar. Fazia sentido.

Mas se lembrou das sondas. A lembrança ainda estava fresca. E doía.

- Seu senso de humor é estranho – disse Tom.
- Na minha vida passada ele era melhor – responde o Homem Azul.

O Homem Azul era um TR. Os Tábula-Rasa eram um grupo que decidiu seguir os costumes dos escritores japoneses do período medieval Edo; de tantos em tantos anos, quando passavam por alguma mudança grande em suas vidas, esses escritores costumavam mudar de nome, e passavam a refletir em suas vidas e seus escritos suas mudanças. Os TR fazem o mesmo: consideram que cada ressurreição é uma oportunidade de começar tudo de novo. mudam seus nomes, mudam de lares, abandonam suas famílias, não raro mudam até de planeta.

TRs só não escapam do sistema judiciário – que não segue os costumes deles. Se algum indivíduo é condenado a prisão perpétua, nenhuma ressurreição pode mudar isso. Só faz ampliar a duração da sentença.

Por isso cada planeta tem leis de imigração muito rígidas. A vida pregressa de cada pessoa é cuidadosamente investigada. Cada novo chegante é sondado de forma bastante completa antes de ser liberado – ou deportado.

No começo, a idéia era de que essas pessoas em estado de espera, esses desterritorializados, ficassem nos próprios espaçoportos ou teleportos. Mas a coisa foi crescendo. Hoje, espaçoportos, por maiores que sejam, não comportam tanta gente. Para isso foram criadas as Cidades de Espera.
Purgatório é uma Cidade de Espera.

Foi para lá que o Homem Azul foi quando chegou a Dama Rigel.

E é lá que ele vai encontrar seu destino.

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