Maio 2008


Amuleto Paleolítico

Talvez sobre a minha cabeça se abra aquele vórtex de realidade que tanto persegui nesses anos de incessante loucura. Talvez nesse minuto de agora, eu esteja acordando na minha cama e vendo que esta realidade que construí como um castelinho de areia na beira do mar está finalmente desmoronando.
Eu nunca soube, eu nunca notei que na verdade, pelas costas, todos esperavam que eu caísse, que me sujasse, que minha loucura fosse conspurcada pela realidade maciça que cultivavam em estufas de veneno. Eu nunca soube que os sorrisos eram verdes de musgo.
Cansada demais para me lamentar, cansada demais de lamentar, sentir aquela agonia familiar, aquele toque gelado no peito, aquele sufocar suave do real, da idéia de que tudo aquilo era uma criação de um roteirista incompetente. O sonho era muito melhor, assistir seriados, chorar sobre livros, desejar estar lá, sair daqui, estar lá…
Todo mundo sabe que eu estou no meu limite, na linha tênue, a realidade não me basta mais, a chuva na cara não acorda minha mente desejosa por fantasia.
Caminho devagar até o dique, coloco os dedos na água suja da Baía, e me imagino sentada com meu único amor, em frente à um mar límpido, onde ondulam as memórias e ecoam nossas risadas. Sorrio de leve com o plástico sujo que bóia na água escura, mas que para mim é um peixe palhaço que beija meu dedão. Se fosse possível que a pintura formada nos ladrilhos da minha mente se montasse também na sua, poderíamos nos desligar por completo deste lugar de sacos e viver para sempre junto aos peixes.
Sinto o cheiro do esgoto e penso nos eucaliptos que nos rodeiam, pinto desenhos no céu, caminho entre pedras e vejo que as nuvens e o mundo ao redor se movem com o toque dos meus dedos.
- Todo mundo sabe que você está no limite. – confidencia a senhora garça ao pé do meu ouvido.
Seguro sua mão de leve e fecho os olhos, voamos hoje, voamos ontem, sobre a minha cabeça pesam as nuvens escuras da preocupação, mas a turbulência que elas causam no nosso vôo é pequena, não faz sacudir nossas sólidas estruturas.
Pinto seu rosto com aquarela, esculpo seus quadris em argila, passo os dedos por ela toda vez que sinto sua falta, amuleto paleolítico. Como salvar minha vida? Como salvar nossa vida? Me deixa tatuar em você meus poemas? Me deixa apagá-los com a língua? Me deixa amá-la até sufocar? O amor de lá é igual ao daqui, a realidade não me alimenta, mas o amor me satisfaz, me completa.
- O texto é lindo! – sussurra para mim. Peço mais, peço muito mais. – Maravilhoso! – sussurra de novo. Sinto seu ondular, penso no gramado, no vento, lembro dos sonhos rodopiando no roda-roda infantil, bandeiras coloridas de carmim, como as flores do jardim da rainha, girando as cores borradas.
- Todo mundo sabe que você está no limite. – assevera a senhora garça.
Choro sentada no banheiro, deixo a água cair sobre minha nuca e descer colorida, tingida pelas cores que exalo de cada poro.
- Eu vivo mais do que todos aqui! – grito para as paredes.
Você se achega, se aconchega, pede colo e dorme no meu peito que fica coberto de fios negros, olhinhos rasgados na madrugada. Me acalmo.
- Nós vivemos mais do que todos aqui… nós vivemos mais do que todos aqui…
- Todo mundo sabe que você está no limite – diz a senhora garça antes de voar.

Como nos tornamos Fogo?

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Como foi que me perdi do caminho escolhido, por ver em tua boca a promessa de algo mais?

Em que momento tua presença tornou-se mais importante do que qualquer coisa?

Em que encruzilhada do destino eu vi os teus cabelos ruivos?

Disseste ser salamandra, dona do Fogo e dos seus domínios. E amei-te mesmo assim. No meu estúdio alquímico, conjurava demônios, e atravessei os limites do Plano flamejante onde moravas.

De início, fez-me promessas e aumentou meu conhecimento. Eras espectro de chamas nas sombras do meu feitiço de invocação.

Encantaste-me. Com teus olhos de fogo, teus cabelos como o cobre, a voz que queimava minh’alma. Tua visão brilhava em meus sonhos, perseguia-me enquanto estava acordado. Sequer tentei resistir, forçar-me a desvanecer tua figura. Joguei meu espírito em tuas chamas.

Queria mais, desejava possuir teu corpo que não existia. Incorporal, etérea, eras Salamandra, rainha e espírito do Fogo.

Dediquei meus estudos, meu tempo, minha riqueza a meu único objetivo. Abraçar teu corpo e consumir meu desejo em tua carne quente. Deveria criá-la, fazer tua essência imaterial passar dos planos elementais e tornar-se matéria.

Dias, meses, anos. Consumi minha vida na vontade insana de saciar minha vontade de ti.

Não foi em vão.

Uma noite de chuva opressora, calor sufocante. Moldei as formas no barro, fiz os encantamentos devidos. Convoquei-te e fiz a proposta. Teu sorriso faiscou a tua resposta. Porém, antes de me deixar começar, fizeste uma advertência. Tua estada no meu plano seria curta. Em seis meses, deixarias de ser barro e tornarias ao fogo, que era tua casa.

Vivi esses dias imerso no queimar da matéria que fiz para ti. O desejo ardia nos dois, tornando-nos escravos e senhores um do outro.

Hoje, o prazo findou-se. Teu último beijo ainda estava quente nos meus lábios, meus braços guardavam a sensação do teu calor. Vi a frágil existência que eu criara sendo consumida pelas chamas que te reclamavam.

As chamas consumiam os últimos fios do teu cabelo.

Por que saí do caminho escolhido, ao ver em tua boca a promessa de algo mais?

Quando senti tua presença mais importante do que minha vida?

Em que encruzilhada do destino eu segui os teus cabelos ruivos?

No meio do meu estúdio, o fogo era glorioso. Tua face refletida nele. Dei os passos necessários, e novamente nos abraçamos.

Mas já não era a essência do fogo que se fazia carne. Era meu corpo que se entregava às chamas.

Foi assim que nos tornamos Fogo.

Parte da instalação de Ravana era composta por corpos. Outra parte era o processo. Corria atrás dos clones, deixava que vissem sugestões de um rosto. Algo naquela genética, ou algo na sua estética, provocava um efeito imediato e particularmente fotogênico. Despencavam maduros, vítimas de uma loucura aguda que crescia raízes suficientemente profundas para interromper a decadência. A permanência do corpo após a brevidade da vida, leu um dia, e tomou como inspiração.

Era artista de detalhes. Calculava o percurso das marchas, media a velocidade dos passos, até que cada um dos alvos estivesse sob o foco de vigilantes lentes de cristal. Cada ângulo, cada membro enquadrado em digital. Se ainda havia alguém por trás das câmeras, se havia ainda alguém vivo em frente às telas, nem importava. Arte não necessita de olhos fugazes.

Meia hora correndo e a matéria prima começou a rarear. Menos um, menos dois, menos cinco corpos caindo e a execução já estava comprometida. Estava em uma rua perto do centro da instalação e, por alguma razão, acreditava, Ravana sentia que alguém o sabotava. Dobrou a esquina e teve certeza. Espalhados pela estrada, corpos largados numa repugnante displicência. “Esta é minha arte. Minha!”, protestou entre os dentes. “Minha exposição. Minha matéria prima. Meu direito de criar e destruir.”

Mas os corpos não pareciam mortos. Estavam, sim, ausentes. Vazios.

Calçou um par de luvas, enojado que estava. Um por um, em mais de mil, só viu cascas. Por trás das pálpebras, até onde alcançava a vista dentro das órbitas, havia nada além de nada.

“São uma linda platéia. Até simulam compreensão, mas travam quando o estímulo pede mais processamento.” Tinha o riso mais infantil que a voz. Poseur, por certo. Ravana avistou o que achava ser a fonte do comentário. Um diletante, por certo. Ou melhor, uma pequena diletante, correndo sem fuga. “Vem, vem! Vem ver meu jardim”, gritou a pequena e desapareceu no fim da via.

Ravana tirou as luvas, levantou e pintou com a mente um grafitti com aquele pequeno coração ainda em pulso, esguichando o sangue da criança. Podia aumentar o volume da música e improvisar a performance. Inspiração é uma puta sorte, mas que só acontece para quem sabe o que fazer com ela.

Correu fora da zona de conforto. Além da linha da ferrovia. Depois até da esquina, das palmeiras e do conjunto de casas, graças aos deuses, vazias. E um zunido, um berro, umas pancadas agressivas já tomavam conta do lugar quando alcançou a menina.

Apontava o horizonte.

Na ponta do dedo, distante, um jardim de almas vivas encasuladas. E eram lindas aquelas rosas, tão cálidas. E era câncer aquela inveja. Era mágica. Seco como uma galha e com os olhos igualmente tomados de nada, caiu aos pés da artista na estréia.

“Poseur. Diletante”, foi seu último pensamento. Morreu tomado pela beleza que não era sua. Mas não admitiu que morria, superado, tornado história.

Puta que me pariu, é a primeira coisa que Tom pensa ao chegar em Purgatório. Um calor do caralho e um cheiro de esgoto a céu aberto que lhe embrulha o estômago depois do ar parado da nave que acabou de pousar depois de semanas no espaço.

-         Count your blessings, Major Tom – é o que lhe diz o Homem Azul ao seu lado, como se tivesse lido seus pensamentos. – A coisa sempre pode ser pior.

De fato, podia. Purgatório foi construída para ser uma cidade-dormitório, nos arredores do Teleporto provisório, a fim de abrigar apenas algumas centenas de pessoas, algumas décadas atrás. O planeta de Dama Rigel por pouco não ficava fora da Faixa de Habitabilidade de seu sistema estelar; a temperatura devia ser mais fria, segundo o pouco que ele aprendeu na escola, mas era um mundo pequeno, quase um planetóide, e a quantidade de humanos ali já superou qualquer previsão de boas condições de vida há tempos. Hoje a cidade abriga duzentas mil pessoas e não há nada de provisório ali, a não ser os barracos do grande favelódromo, que parece estar sempre em vias de desabar.

O Homem Azul parte na direção da cidade a passos largos. Tom o acompanha; não há outro jeito. O sujeito foi o único que se dispôs a ajudá-lo quando ele foi abandonado no espaço.

 

*

 

O nome oficial atual do Homem Azul é Azul-de-Krishna. A certidão de nascimento original, perdida num cartório que já deve ter deixado de existir há séculos na Velha Terra, diz outra coisa, mas ele jurou que nunca mais pronunciaria esse nome.

Ele parte do princípio que a maneira mais segura para se esconder é se destacar no meio da multidão como quem não quer se ocultar. É por isso que seu corpo inteiro é azul – tintura nanodérmica – e ele não tem um pêlo no corpo. Veste calças de um modelo muito antigo, de metafibra imitando jeans preto. uma camiseta branca de algodão com gola em v e uma jaqueta de aviador com gola de pêlo completam o conjunto. Coturnos pretos de solado alto, que o deixa no total com dois metros e treze centímetros, a pessoa mais alta em Purgatório no presente momento.  Mesmo assim, ninguém olha para ele. Neguinho sabe que não se encara desconhecido em Purgatório.

Ele está ali em busca de uma utopia.

O Coletivo Mahavira.

 

*

 

O Coletivo Mahavira foi uma das primeiras coletividades a se separar do continuum trans-humano.

As naves-geração já haviam saído da Terra havia quarenta anos. Os veículos gigantescos tinham capacidade para milhares de pessoas cada e muito material genético e de bioengenharia. Seções inteiras das naves eram dedicadas à pesquisa aplicada.

Mas as coisas não foram tão simples assim no começo. O caso da Polidori, por exemplo, foi trágico. Junto com ela, foram destruídas outras três naves, cada qual levando cerca de quatro mil pessoas em criossono.

Mas, na confusão, muita gente jura que uma das naves, a Avalovara, simplesmente sumiu. Não há provas de que ela não tenha simplesmente sido destruída pelo empuxo gravitacional da anã branca para a qual a Polidori liderou escrotamente parte da frota, mas lenda e lenda, e chega um momento em que lenda urbana vira lenda galática, por pura e simples ordem de grandeza da exploração humana.

A Avalovara era uma nave improvável desde o começo: um consórcio de indianos e lusobrasileiros, um coletivo carnavalesco que incentivou grande parte das naves com suas experiências de modificação corporal. Foi talvez a única contribuição da Avalovara para o continuum trans-humano.

Os anos se passaram e as outras naves seguiram o planejamento original: colonizar todos os mundos possíveis das Faixas de Viabilidade num raio de cinco anos-luz da Terra. Ao longo do século XXII, os astrônomos descobriram, com observatórios orbitais cada vez mais sofisticados, que mesmo num raio tão limitado, a quantidade de mundos terraformes originais era suficiente para uma colonização de primeiro grau. Só nos sistemas de Eridani havia quatro. Rigel e Centauri forneceram mais cinco. Era mais que o suficiente.

A Frota Frankenstein – como foi apelidada pela imprensa – partiu entre os anos de 2209 e 2222.

 

*

Azul-de-Krishna entra num mercado. É uma das poucas construções de alvenaria: tijolos de cinza hiperleves se entrelaçam a vergalhões de ferrosopor formando as paredes e tábuas de aramadeira para compor o piso. São três andares com o melhor que Purgatório tem para oferecer: comidas como arroz-de-cristal e fava-de-mar da Velha África (e subitamente o Homem Azul se lembra com carinho de seu último jantar na Terra, mas já faz muito tempo), humanware como explantes temporários para comunicação e tradução, medicinais como frankinina-B para aumentar a longevidade, e um catálogo cheio de coisas que teriam feito a alegria de Borges. Mas ninguém se lembra mais de quem foi Borges. Não no século trinta e um.

O Homem Azul paga por dois pratos pequenos de um peixe cru cortado em fatias finas que Tom identifica vagamente como arenque, e dois copos de cerveja (a única coisa que Tom consegue realmente identificar nesse emaranhado de culturas insuportável para ele).

Enquanto Tom come ou tenta, O Homem Azul conversa com um homem troncudo, peludo e bigodudo que parece o dono do estabelecimento. Conversam em um idioma do qual Tom não entende picas; ali, naquela cidade infernal que só recebeu o nome de purgatório porque algum burocrata não quis pegar pesado, a maioria das pessoas fala em algo que o Major Tom entende como sendo katalawn. O Homem Azul nem precisa consultar nenhum implante: ele conhece bem o idioma. Teve chance de aprender no tempo em que passou embarcado na Passus Plau. A mesma nave que recolheu Tom meses atrás.

Tom não entende porra nenhuma. Ele fala apenas inglês, e ainda acha difícil estar tão distante assim no futuro.

Pois ele foi abduzido por alienígenas.

Há muito tempo. Na Terra. No século vinte.

Naturalmente, ninguém acredita nele. Mais de mil anos colonizando a galáxia e, tirando um fungo aqui ou uma espécie animal incomível ali, ninguém ainda viu um puto de um alienígena.

Mas o Major Tom sabe o que foi que viu. E, de qualquer maneira, ele não tem nada que o associe a essa gente. Não tem um único implante no corpo branco, magro e liso feito um lagarto.

Tudo o que ele quer é voltar para casa. Mas o Homem Azul disse para ele que a Velha Terra é apenas um retrato na parede, o que o fez ficar mais confuso ainda, porque ele não entendeu o que o sujeito quis dizer com isso. Só entendeu uma coisa: tão cedo ele não vai pisar no solo da sua velha Inglaterra. E ele está com muito medo do que vem pela frente. Só espera que seja mesmo pela frente.

Transgressão e Castigo  

Tenho pressa. Ninguém tem tanta pressa quanto eu. O banco vai fechar em um minuto. Convidados, noivo e padre aguardam desconfortáveis na igreja. Uma sala de aula lotada com um só pensamento: fugir antes que a professora chegue. Filho faminto chorando à espera do meu leite. Nada disso é motivo para pressa. Isso é viver e viver implica em precipitação, em urgências que conhecem sua solução.

Tenho pressa porque estou sozinho na borda do deserto onde sei que assistirei a todos os meus erros. No filme mais bem produzido de toda a história. Porque produzido pela existência. Existir é uma fatalidade e eu cometi as barbaridades mais cruéis que nem você é capaz de imaginar. De um pequeno erro humano parti para injustiças imensas e destruí vidas. Muitas vidas? Regra número um da orla do deserto: os números só têm importância se você for pitagórico e capaz de entender que o universo é feito de números, a harmonia musical depende deles e seu corpo é constituído por uma quantidade finita de átomos.

Aqui onde estou, amarrado numa nau no fim dos oceanos, não se ouve a música das esferas, e eu ouço o coro dolorosamente desafinado das vítimas da minha maldade. Mas depois de milhares de anos assistindo repetidas vezes a tudo o que fiz, hoje me veio uma luz, daí a pressa. Condenado a ler os meus diários para procurar em vão uma frase de remorso, um sinal de dúvida acima do gatilho acionado pela inteligência que é a única herança que me foi deixada, pude conhecer o destino da maldade. É para aqui, exatamente no espaço que ocupam meus membros e minha cabeça, que vêm os resultados de todos os erros conscientes e crimes relevados pela ingenuidade friamente cultivada. Muitos me perdoaram. Eu não perdoei ninguém. Mas quando me veio a luz meu corpo tremeu e eu não páro de tremer enquanto não sofrer todas as conseqüências de ser. A verdadeira urgência é a de refazer o tempo jogado no lixo da indiferença calculada. Aqui neste barco jogado sobre as mais selvagens ondas, não me ajuda a retórica explicativa, não ajuda a justificativa acolhida pela piedade. Quem construiu estas ondas fui eu e minha mente dispara na busca do único castigo capaz de redimir minha transgressão: o castigo é compreender. Entender muito bem o que fui, o que fiz, o que destruí com os pés, o que sufoquei com as mãos. Só eu entenderei, daí a inutilidade de relatar o que fiz diante de um tribunal. Por mais que desejem, não me podem auxiliar os anjos. Se eu lhe contasse agora, você cuspiria em mim. E eu poderia rir e continuar entendendo nada, mas depois da luz…pela primeira vez…estremeço cada pequena parte da sombra do meu corpo, sombra sem corpo, e desejo, pela primeira vez, compreender. Quero conhecer, quero saber por quê, quero pesquisar para comprovar, ver e ouvir para ter mais informação, ler todos os livros da biblioteca monstruosa que aparece em flashes no filme nítido da minha vida sem medo, saber o que argumentei não saber como causa dos meus atos sórdidos. Quero. E saber o que se quer com o tremor do corpo sem frio e sem fome é o único motivo para se ter pressa. Tenho pressa.   

 

 

 

Base Estelar Luna 1 – Aposentos 1145 – KM

25 de Abril de 2125, 50o. Da Exploração

 

Julian,

 

Meu querido amigo…

 

Recebi sua última comunicação. Estou feliz por saber que decidiu casar-se com Alanna. Sinceramente. Acho que você tinha toda a razão. Ainda gosto…não, ainda amo você, como naquele dia em que nos despedimos na Base Estelar, quando finalmente confessei meus sentimentos e a minha vontade de ser sua mulher. Você disse que também gostava de mim, mas a distância entre a Terra e Júpiter impediria, que não deveriamos canalizar sentimentos em rótulos. Quando eu voltasse, veriamos.

 

E agora estou de volta à atmosfera artificial da Base, depois de ter ido às luas de Júpiter. Foi uma viagem longa, onde conheci minha alma. Onde eu vi o que tinha perdido.

 

 Não poderia imaginar uma vida sem galinha frita nos imensos baldes que dividiamos nos sábados a tarde, na frente da holo-visão. Ou em que não existissem nossas conversas de cinco horas de holo-fone, quando você foi estudar Tecnologia Espacial, e aquele café com leite de soja na Cafeteria da sua universidade, o melhor latte que eu já tive…Em que não tivessemos dançado juntos pela primeira vez, no final dos Estudos Elementares.

 

Sem amor, orgulho…ou meu melhor amigo, sempre ao meu lado, mesmo sabendo que eu estava errada.

 

E ela existe. Não vale o esforço, mas existe.

 

Os ventos de Júpiter tiraram-me dos meus pés. Flutuei por longos minutos, dançando no dia difuso formado pela claridade de suas luas. Minha cabeça voltada para a Via Láctea, naveguei por detrás do Sol, vi as luzes que se apagavam. E você estava certo. O céu é superestimado.

 

Não, não acho que você seja um covarde, com tanto medo de voar que jamais se atreveria a pousar e depois decolar de novo. Você fez a escolha certa. Para que uns possam ir, outros precisam ficar no solo.

 

Ouvi durante toda a viagem o holo-disco com obras escolhidas de Mozart…lembrando de você. E vou responder as suas duas últimas perguntas.

 

Senti sua falta, lá fora, procurando por mim mesma… A sua ausência fez-me perceber o quanto eu estava sozinha… o quanto eu precisava de você.

 

Quinze anos. E ainda lembro do seu sorriso quando voltei do treinamento na Lua, dizendo que  eu havia trocado as estações, agindo como o Verão, caminhando como a chuva… ouvindo como a Primavera e falando como Junho.

 

Dentro de uma semana, iremos partir para a Nuvem de Magalhães. Uma nova galáxia, onde eu poderei dançar de novo. Amo mover o corpo com a música, pois cada passo traz um pouco do que vivemos de volta para mim, do momento da primeira dança e do único beijo. Que carregarei comigo para outra galáxia, junto com as gotas de Júpiter que trouxe como presente…e prova do meu amor.

 

Porém, agora tem a Alanna. E digo, sejam felizes. Sempre que eu olhar na direção do Sol, pensarei em vocês.

 

Sempre sua,

 

Karmina.