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Letra e Vídeo

Literatura musical

RENASCER

Sobre minha cabeça vejo o sol nascer
Infinitos raios de esperança
A glória dos deuses posso perceber
Runas serão escritas em minha lembrança

Um combate cruel se seguiu
Muitos eu ceifei, sobre minha montaria
Mas quando meu escudo enfim caiu
Só pude pensar na minha família

O quão ausente eu era, graças ao meu espírito de guerra
Nunca pude dizer ao meu filho que o amava
Não queria que ele seguisse meus passos
É triste abandonar tudo que lhe importa
Sabendo que uma hora não haverá volta

Não há glória na morte, como cantam os bardos
Percebi ao ver o rosto de minha amada esposa
Reprovando-me em lágrimas, decepcionado
Queria tanto dar-lhe a devida atenção, conforme merecia
Mas agora uma flecha cruzou-me o peito, eu não viveria

Coberto de feridas, sob meu próprio pranto vejo que nada me resta
Nenhuma valquíria veio me buscar, não há glória em minha queda
Ao meu redor a matança continua, gritam como se não houvesse outro dia
Impropérios, lâminas e sangue, desaparecem ao passo em que perco a vida
Ouço apenas meu filho chorar, enquanto minha esposa treme ao falar
“Eu lamento querido, mas seu pai não irá voltar”

Imerso no frio de meus próprios pecados, afogado em lamúrias sinto meu corpo perecer
Mas um milagre acontece, vejo sobre minha cabeça o sol nascer
A princípio ofuscado, sinto todos os cortes se fecharem
O calor invade meu interior, sinto as forças se renovarem
Olho minha esposa sorrir, e meu filho vêm até mim, alegre de me ver
“Eu te amo pai, estaremos sempre com você”

Vou junto deles em direção à luz, sem nada para me prender
Infinitos raios de esperança
A glória dos deuses posso perceber
Atravessando a ponte para Asgard, deixo para trás minha única honra
Runas serão escritas em minha lembrança

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:::Canções e uivos:::

Nas terras desertas ao norte de Aldrã, chovia torrencialmente há dias. Drielle estava encharcada, roupas, cabelos, até a sua alma parecia estar grudada sobre a pele. De nada adiantou o grosso tecido de sua capa, ou uma magia simples, invocando um escudo contra as grossas gotas que desabavam do céu.

O pequeno abrigo de viajantes surgiu e uma metáfora um tanto inadequada apareceu na mente da meio-elfa. “Como um oásis no meio de um deserto”. Riu de sua própria comparação e passou o quarto de hora seguinte convencendo o cavalo a tomar a direção certa.

Exausta, ensopada e dolorida, deixou o animal na pequena construção adequada para isso. Outros já estavam ali, parecendo igualmente cansados. Sinal de que havia outros viandantes no abrigo. Mais dois, para ser exata. Apesar de todos os seus poderes, treinamento e da aura de respeito que a herança élfica impunha, não gostou. Uma mulher sozinha, mesmo uma mercenária, hábil com adagas e encantamentos, ainda era vulnerável aos desejos de homens inescrupulosos. A chuva não lhe dava alternativa. Resignou-se e entrou no abrigo.

O calor do fogo misturava-se ao cheiro da madeira queimando, dando uma sensação de conforto. Drielle suspirou, com alívio, por sentir-se finalmente fora do manto de umidade que havia virado o mundo. Parou e observou o interior.

Era um abrigo de estrada como outro qualquer. Um espaço amplo, sem divisões, uma lareira grande o suficiente para aquecer toda a área, alguns cobertores, lenha empilhada em um canto e uma bacia com água forneciam o mínimo de conforto a quem procurasse refúgio na rota entre Aldrã e os reinos do Norte. Caminho que Drielle pouco percorria, a não ser em ocasiões especiais. Como esta, para participar de uma reunião de menestreis em Satúrnia, um concurso amistoso que servia mais para compartilhar as histórias e canções do que realmente para competir.

Observou seus companheiros. Sentado em um canto, olhos semi-cerrados, um homem bem vestido parecia refletir sobre algo. Não demonstrou ter percebido a entrada de Drielle no recinto. Mesmo assim, a meio-elfa ficou cismada com ele.

O outro ocupante do abrigo era um jovem, muito mal vestido. Virou-se para ela com olhos ansiosos, debaixo de sobrancelhas grossas. A barba cerrada e uma ferida no braço esquerdo davam ao jovem uma aparência de maltrapilho, que, paradoxalmente, não incomodava Drielle tanto quanto a riqueza exibida do outro. Sorriu, sendo respondida de forma igual.

Em silêncio, pois esta é a lei não escrita dos abrigos de viajantes, encaminhou-se para um dos cantos, o mais na sombra possível. Lá, estendeu uma coberta que a separou do resto do ambiente. Não poderia ficar com aquela roupa encharcada no corpo, porém não confiava o suficiente no respeito às normas de comportamento que obrigavam todos os viajantes a se irmanarem quando dentro desses refúgios antigos.

Lentamente, procurando fazer o menos barulho possível, despiu as peças encharcadas e trocou-as por uma túnica e uma saia, algo rústicas. Normalmente, não usaria trajes tão simples na presença de estranhos. A alternativa era usar as ricas vestimentas que mandara fazer para a reunião, por isso deixara a vaidade de lado. Colocou as roupas para secar perto do fogo, e começou a preparar, com as suas provisões, uma sopa improvisada. Ofereceu aos seus companheiros. O homem mais velho sequer respondeu, enquanto o jovem aceitou, com um assentimento de cabeça.

Comeram sem dizer palavra. Os olhos negros continuavam a fitar a meio-elfa com ansiedade. Drielle estava curiosa, mas não se sentia a vontade para perguntar qualquer coisa. No fim da refeição, guardou tudo e deitou-se. Se a chuva diminuísse, iria seguir seu caminho imediatamente. Algo naquele abrigo deixava-a desconfortável.

O frio de uma lâmina em sua pele acordou-a. O homem mais velho encostava uma faca em seu peito, começando a rasgar a túnica coma lâmina. Ela tinha que pensar rápido, suas adagas estavam embaixo de sua manta, mas um movimento brusco poderia ser o fim.

Não teve tempo para pensar. Um rosnado, primeiro baixo, mas que aumentou aos poucos. Sem entender nada, o atacante olhou ao seu redor. Uma bola de pêlos e fúria arremeteu contra a sua garganta. Enquanto o animal engalfinhava-se com o agressor, Drielle pegou as adagas.

Em pé, contemplou a cena a sua frente. Era uma espécie de lobo, preto, muito maior que qualquer um que ela já tivesse visto. Ergueu as duas lâminas gêmeas e ficou parada, aguardando o resultado.

Qualquer um que ganhasse, ela teria que ficar atenta. Não sabia exatamente de que lado o animal estava. Podia não ser o dela. Não durou muito. O bandido lutara bem, entretanto era seu o sangue que estava espalhado no chão. O lobo ofegava, ferido em diversos pontos. Mas ainda era muito maior do que Drielle. Ela preparou-se, adagas empunhadas, um ricto de concentração nos lábios.

Com um gemido triste, o lobo aproximou-se dela. Passo a passo, como se custasse muito. E desabou aos seus pés. Uma ferida na pata dianteira esquerda esclareceu tudo. O seu salvador era um licantropo, o rapaz maltrapilho com quem dividira a sopa era do antigo povo esquecido, que dominava a arte da transmutação.

Perante os olhos admirados de Drielle, o pêlo sumiu, patas viraram pernas e braços, garras tornaram-se unhas. Os ferimentos permaneceram sangrando profusamente. Depois de tirar o corpo do bandido do meio do refúgio, jogando-o em um canto, passou a cuidar de seu ‘salvador’. Parte de si reclamava. Não havia pedido ajuda, podia ter se defendido sozinha.

Mas sabia que o rapaz havia feito o que julgara ser necessário. Passou os três dias seguintes ouvindo os ruídos da tempestade que não amainava e tratando do desconhecido. Era bonito, a seu modo. Não era beleza elfica, de traços finos e delicados, e nem mesmo parecia com os humanos de Aldrã. Uma face marcante, nariz bem construído, boca delineada e sobrancelhas grossas, os traços levemente arredondados. Uma barba rala cobria a parte inferior do maxilar, sendo mais espessa no queixo. Drielle olhava-o absorta, perguntando-se quem seria, de onde viria e qual era o seu destino.

Na manhã do quarto dia, ele despertou sobressaltado. Drielle estava adormecida, ao lado da cama improvisada. Os dias de vigília finalmente cobraram seu preço, e a meio-elfa, encolhida debaixo de sua manta, ressonava levemente. Observou-a por algum tempo, acompanhando com os olhos os traços finos da meio-elfa, as orelhas levemente pontudas, e o cabelo fino, de um rosa muito pálido. Como se sentisse o peso daquele olhar, ela acordou.

- Você salvou minha vida, moça.

- Mas você tentou salvar a minha antes. Meu nome é Drielle. O seu?

Ele hesitou antes de responder.

- Você pode me chamar de…Mark. Você é…a Drielle de Aldrã?

- Sim, sou eu.

O olhar dele alterou-se. Da quase ternura de antes, passou a ser de reverência. A meio-elfa olhou para cima e suspirou. Por todos os caminhos, as suas desventuras espalhavam-se como atos heróicos e de bravura. Nada disso era verdade. Em grande parte das vezes, o Destino fora favorável. Pouco ela tinha de coragem ou heroísmo. Sempre fora uma trovadora mercenária, isso não mudara, e jamais iria mudar.

- Estou indo à cidade de Satúria. Vai ter uma…

- Reunião de menestréis. Eu sei. De certa forma, eu também sou um trovador… O meu povo expulsou-me de nossas terras, até que eu aprenda o real significado de ser aquele que canta nossas vidas. Por isso, eu também estou indo para lá.

Ficou implícito que iriam juntos. A tempestade passou em mais um dia, e puderam colocar-se a caminho. A viagem até a velha cidade foi tranqüila. A meio elfa aprendeu algo sobre seu companheiro e sua gente. Os licantropos haviam vivido entre as demais raças por muitos anos. Porém, quando o Mal surgiu no mundo, muitas gerações atrás, eles preferiram afastar-se e não entrar na Grande Guerra. Quando tudo finalmente acabou, todos os que cerraram fileiras contra o Senhor do Caos decidiram banir os lupinos de sua convivência. Desde então, passaram a viver escondidos, sem contato com os humanos. Quando por algum motivo precisavam entrar em contato com os demais, faziam disfarçados em sua forma humana. Como Mark estava fazendo até ter interferido no ataque que Drielle sofrera. Ela escutou atentamente enquanto ele descrevia a vida na aldeia de onde viera. Um lugar como outro qualquer nas imensas áreas rurais de Aldrã e cercanias, exceto por serem lobos que assumiam forma humana.

O companheirismo cresceu entre os dois. Planejaram continuar juntos, após o festival, até que Mark encontrasse a resposta que precisava. Olhavam as estrelas a noite, Drielle lhe dizia o nome de cada uma e a história por trás desse nome. Uma noite, ele pediu que ela cantasse uma história sobre suas aventuras. Drielle recusou.

- O bardo é o narrador dos outros. Nós não somos importantes, nossas canções que são.

- Mas você…

- Também sou mercenária, e é sobre isso que as canções foram feitas por outros. Eu, porém, não devo jamais contar a minha própria história.

Mark não aceitou.

- Se você viveu tantas coisas maravilhosas, deveria ter orgulho de contá-las por aí…

Sorrindo, ela simplesmente respondeu.

- Um dia você verá, lobinho. Agora, vamos dormir que amanhã chegaremos em Satúria.

Satúria fervilhava. Drielle conhecia a cidade, governada pelo pai de um grande amigo e ex-amante. Jaelle, sua filha com Diron, era criada no castelo, para que pudesse um dia suceder no trono saturiano. Contou por alto para Mark a história de sua amizade com o príncipe, e de algumas aventuras que tiveram juntos. O licantropo ouvia, fascinado com a vida da jovem mercenária.

O encontro dos trovadores seria no dia seguinte. Drielle tinha planejado chegar com alguma antecedência para poder visitar sua filha. Teria de deixar para depois. Hospedaram-se em uma taberna, onde encontraram mais alguns cantores já hospedados. Entre eles…

- Gilmour, seu cantor de quadrinhas infantis! Eu achei que este fosse uma reunião de menestréis sérios. Já vi que deixam qualquer um entrar…

- Olha quem fala, a rainha das rimas pobres e da falta de métrica. E com essa voz de pavão, ainda tem coragem de se intitular ‘Moonvoice’. Muita falta de autocrítica!

Mark olhava espantado de um para outro, tentando entender a troca de ofensas. Quando ele esperava que os dois começassem a brigar sério, ouviu risadas divertidas.

- Achei que você fosse ficar em Aldrã, seu farsante.

- E perder a festa? Nunca. Deixei Gilles cuidando de tudo, e vim para cá. Cheguei faz alguns dias. Inclusive visitei a sua menina, que está linda. Nem parece sua filha…

Drielle deu de ombros.

- Tentei chegar antes, mas a chuva não deixou. Este é Mark, um amigo que encontrei no caminho.

Gilmour esquadrinhou o rapaz, sorrindo.

- Huuuuuuum. Belo amigo, orelhuda. Será que ele quer ser meu amigo, também?

Drielle deu um empurrão no bardo.

- Sem gracinhas, Gilmour. Deixe-o em paz. Tenho que procurar quartos para nós…

Deixou Gilmour e Mark sentados a uma mesa, bebendo e comendo. Foi providenciar alojamentos e provisões, para que pudessem passar a semana tranqüilos. Demorou um pouco, negociando preços. Mas tudo foi finalmente resolvido. Quando voltou para a taberna, um anão estava sentado com os seus dois amigos. Parecia mostrar algo, embrulhado em um pano sujo.

A meio-elfa aproximou-se.

- O que está acontecendo aqui?

- Minha querida, deixe de ser tão nervosa. Este vendedor está apenas nos mostrando um produto inimaginável. Não é, Mark? Um instrumento musical encantado, que revela a verdadeira missão daquele que o tocar.

- Gilmour, o menino acreditar nisso, tudo bem. Porém, você sabe que esse cara é um charlatão. Não existe tal magia. Vamos, está tarde e amanhã começa.

O anão mostrou-se indignado com a acusação de Drielle.

- Senhora, eu não sou um enganador, minhas mercadorias são mágicas, construídas pelos arcanos superiores da Escola de Artes Arcanas e Línguas Místicas de Asgardiel.  Somente alguém de sangue ruim, de origem elfica, poderia acusar um anão de ser mentiroso.

Sem paciência para as lamentação do pequeno ser, Drielle sacou uma de suas adagas e encostou-a no pescoço do anão.

- Escuta aqui, infame, eu não tenho motivo para escutar seus resmungos. Tenho vários para cortar sua garganta fora. Portanto, não provoque.

Sem responder mais nada, o vendedor ultrajado recolheu tudo e afastou-se da mesa. Drielle imediatamente o esqueceu, passando a conversar com Gilmour sobre a programação do dia seguinte, quando um grande festival iria dar início à reunião. Não reparou que seu outro companheiro de mesa seguira com os olhos o mercador, tampouco percebeu quando o anão desonesto indicou ao licantropo onde estaria durante a noite.

Gilmour bateu desesperado na porta dela, gritando.

- Dri, abre isso, anda! Acorda! Ele sumiu.

Sonolenta, mesmo assim ela conseguiu levantar e abrir a porta. O bardo estava semi-despido e desgrenhado, parecendo estar assustado.

- O que houve? Quem sumiu? O que está acontecendo?

- O menino, seu amigo, ele sumiu! Fui ao quarto dele e…

- O que você foi fazer lá, a essa hora da madrugada?

Gilmour parou e pensou por alguns instantes.

- Fui ver se ele precisava de algo, pobrezinho, parecia tão perdido…

- Gilmour, seu pervertido, eu falei…

Mudando o rumo da conversa, ele interrompeu-a.

- Ei, o que importa agora é que ele não estava lá! Ele sumiu… Eu não faço…

- O anão!

Gilmour fez cara de desgosto.

- Ai, sério que ele é ligado nessas coisas interraciais? Quer dizer, com elfos tudo bem, mas…

- Pervertido! Você não consegue pensar em outra coisa? Ele quer o instrumento mágico que o anão mostrou. Ele acredita que com aquilo poderá voltar para o seu próprio povo.

- Povo? – o menestrel fez cara de quem não tinha entendido nada.

- Sim, ele não é humano, é licantropo.

A cara de desgosto de Gilmour virou uma careta de nojo. Drielle perguntou.

- O que foi agora?

- Que bom que você me avisou, ele deve ser cheio de pêlos, é horrível para…

- Gilmour, por favor, prive-me dos detalhes sórdidos, sim? Vamos, temos que encontrá-lo.

- Pensando bem, eu acho que vou dormir…

Sem responder, a meio-elfa jogou uma capa em cima dele.

- Não quero saber, vamos.

Do lado de fora da taberna, ouviram vozes sussurradas. Mark negociava o preço com o anão. Não pareciam estar chegando a um acordo, e a voz do vendedor começou a alterar-se.

- Pouco me importa se você precisa ou não. Não vou abaixar o preço para você.

- Não tenho como pagar…

- Podemos fazer um trato. Você me traz a mestiça, e eu te entrego o alaúde.

Na mesma hora, o pescoço do anão estava nas garras do lupino. Mark, enraivecido, estava deixando o disfarce de lado.

- Não toque em um fio de cabelo da moça… – a voz saia entremeada de pequenos grunhidos. Prevendo o pior, Drielle resolveu interferir. Se Mark matasse o anão, sua natureza seria descoberta. Não sabia como as pessoas reagiriam a ele, e preferia não conhecer da pior forma.

- Mark, pare com isso. Solte-o.

O anão bateu no chão com força. Olhou com raiva de Drielle para o lobisomem.

- Eu só estava negociando honestamente…

Foi interrompido por um gesto.

- Eu sei. Quanto é?

- Você… vai comprar? – recuperado da surpresa, voltou a ser o velho mercador. Deu um preço absurdamente mais alto do que havia dito a Mark. Para compensar o aborrecimento, segundo ele mesmo disse. Com algum tempo de negociação, ela trouxe o preço a um patamar aceitável. O alaúde passou às suas mãos.

Virou-se para Mark.

- Toque. Quem sabe, você irá descobrir a verdade.

Gilmour resmungou alguma coisa sobre estar frio, e ele querer entrar. Foi ignorado por todos. Drielle mantinha o anão na mira de sua adaga. Mark sentou-se com o alaúde no colo, e começou a tocar uma canção triste. Quando começou a cantar, não usou palavras. Uivou baixinho, e mesmo sem entender o sentido literal, sua pequena audiência sentiu a tristeza que emanava.  Terminou, olhando surpreso para a meio-elfa.

- Ele me enganou. Não aprendi nada…

Ela deu um sorriso, um pouco triste.

- Eu disse que não existia essa magia. Na verdade, o verdadeiro bardo conhece a sua missão ao tocar qualquer instrumento. Vamos, amanhã será um longo dia.

Os três retornaram aos seus quartos.

A balbúrdia do dia anterior não era nada comparada ao barulho e a animação daquela manhã límpida. Parecia que a cidade estava toda esperando pelo começo da reunião. Drielle, Gilmour e Mark dirigiram-se à grande praça da cidade. O velho rei de Satúrnia estava lá, acompanhado pelo filho e pela neta. Ao verem Drielle, os integrantes da família real convidaram-na para subir no grande palco armado no centro. Relutante, ela aceitou. Abraçou a filha e sentou-se ao lado dela. O rei sussurrou alguma coisa no ouvido de seu chefe de cerimônias, que concordou com um sorriso. Foi até o meio do palco e anunciou.

- Caros senhores trovadores, sua majestade, o rei de Satúria, agradece em nome de toda a cidade por sua presença. Para começar o festival dos trovadores, pediremos que a mais conhecida menestrel de todos os reinos dirija-se ao palco para nos apresentar uma canção. A trovadora oficial do reino de Aldrã, a menestrel mercenária, rainha das adagas gêmeas, Drielle Moonvoice.

Ela já estava esperando por isso. Afinal, o pai de Diron nunca a aceitara bem, exceto como música. Levantou, pegou seu alaúde e foi em direção dos outros músicos. Combinou o tom com eles.

- Agradeço as palavras gentis. Não estava preparada para essa responsabilidade, mas uma honra dessas não se recusa. Então, aí vai uma composição que fiz recentemente, falando sobre o que é ser um menestrel. – Olhou sorrindo para Mark. A mensagem era para ele.

Agora, vocês conhecerão
Os bardos e suas canções.
Quando as horas passarem
Fecharei meus olhos.
Em um tempo  distante
Nós iremos nos encontrar novamente.
Mas agora ouçam minha canção
Sobre a aurora da noite.
Vamos cantar a canção do bardo:
O amanhã nos levará
Longe do lar
Ninguém jamais lembrará nosso nome
Mas as canções do bardo conhecerão
O amanhã o levará
O medo de hoje
Desaparecerá
Em nossas cançõess
Há apenas um refrão
Que resta em minha alma
Contos de homens corajosos
Que viveram longe daqui
Agora as canções do bardo terminaram
E é hora de partir
Ninguém deve perguntar
Pelo nome daquele
Que conta a história.
O amanhã nos levará
Longe do lar
Ninguém jamais saberá o nosso nome
Mas as canções do bardo ficarão
Amanhã tudo terá terminado
E você não estará sozinho
Portanto não fique com medo no escuro e no frio
Porque as canções do bardo permanecerão

Mark sorria, do meio da multidão. Mais tarde, na noite que seguira, Drielle perguntou se agora ele conhecia o que era o dever de um trovador. A resposta foi um sorriso quente, um abraço apertado… Drielle perguntou se ele agora iria voltar para os seus. A resposta foi a boca dele encontrando a sua, e logo depois a voz sussurrando em seu ouvido “Só se não puder ficar com você.”

Meses depois, sentada na sua taberna preferida em Aldrã, Drielle terminou de contar toda a história para Gilles. Fitou o copo da cerveja amarga a sua frente, evitando o olhar preciso do elfo seu amigo, também trovador, e amante de Gilmour.

- E ele, Dri?

Tentando parecer indiferente, ela tirou uma mecha de cabelo dos olhos e sorriu.

- Mark andou comigo por um tempo. Por isso, não voltei direto para Aldrã. Mas ele não pertence ao mundo em que ando. Nossos caminhos encontraram-se por um momento. E foi só. Ele encontrou o que procurava e juntou-se ao seu povo novamente.

- Você parece lamentar…

Não houve resposta. Apenas o mesmo sorriso congelado de antes. Somente ela sabia o quanto custara seguir em frente. E de certa forma, assim como sabia que em suas músicas haveria a partir de então um pouco do uivo de um lobo, tinha certeza de que, em algum lugar, um lobo choraria para a lua no mesmo tom de suas canções.

Fim

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And when nobody is nigh, you cry,

You cry, you cry.” ( Sophisticated Lady )

 
 

 
 

Quando Billie ficava absurdamente triste se agarrava aos baseados.

Nós todos fumamos, em épocas diferentes, junto com os dry martinis  de Marina, ou  as cervejas de Mimi. Eu me embebedava de vinho barato e me via, a música soluçando de beleza.

Billie preferia o uísque paraguaio.  E quando estava absurdamente triste se apegava aos baseados e tocava Sophisticated Lady para Marina.

Ela não entendia a homenagem. Nunca considerou a hipótese de  dar a ele um pequeno pedaço de seu corpo alvo. Marina estava nos Cigarette Blues  até surgir o empresário que iria tira-la do anonimato das nossas estradas rotas.

Com seus cabelos dourados e olhos azuis, fazia uivar os rudes caminhoneiros, mas nunca percebeu sua presença. Era como uma estrela, distante, abstrata, intocada por toda aquela sordidez.

Billie percebia isto e às vezes ficava absurdamente triste e fumava mais baseados do que o normal.

Uma noite, em São Tomé da Serra, depois de um  espetáculo lancinante de guitarra -  Sophisticated Lady para Marina -  antes dos banheiros e do café, encontrei Billie no camarim, rosto vermelho, olhar brilhante, vago. Tive certeza

- Você anda cheirando?

Ele me olhou irritado, não respondeu.

- Vi o Mejicano com você, no intervalo…

-  Deixa de ser babaca, falou? Cuida da droga da sua vida!…

Eu fiquei calada. Porra, não era da minha conta, era? Que se danassem, ele, Marina, Mimi e toda a população desta merda de Terra redonda.

Nunca mais toquei no assunto.

Éramos cometas em cada uma daquelas cidades escondidas, retornando um pouco mais velhos, mais gastos, mais amargos, derramando nosso sangue blues pelos tristes bares das periferias decadentes. Como as cortinas gastas e os falsos cristais do lustre – um cenário ultrapassado.

A polícia pegou Billie numa batida idiota – Colette, o travesti velho, deu uma navalhada em Luigi,  seu amante jovem. O sangue e a gritaria histérica atraíram a atenção dos Homens. Eles deram uma vistoria nos camarins e acharam o pó.

Fui visitar Billie na cadeia.

Abatido, os cabelos despenteados, cheiro de urina e um sabor de coração sujo.

Tivemos que improvisar um show sem guitarra, num barzinho em frente á funerária.  Só com o piano de Marina que se acompanhava todas as noites cantando Sophisticated Lady. Sabe-se lá porque. Marina era estranha. Mas tinha uma voz linda, um  timbre aveludado ,às vezes rouco, uma alma de blueseira.

Os participantes dos velórios gostavam dos blues lancinantes, da beleza de Marina ou da bunda de Mimi. O fato é que tínhamos casa cheia todas as noites.

Enquanto Billie aguardava julgamento, cantamos para acompanhantes de defuntos, nós, mais mortos do que eles,  em nossos caixões de luzes azuis.

Um dia não agüentei, fui ao delegado e abri meu coração. Falei da estrada empoeirada, dos sanduíches frios, dos clientes sem paciência e sem educação, dos ouvidos duros, dos assentos  nos ônibus arrebentados, das noites mal-dormidas, de toda a humilhação… um blues interminável e dolorido. 

O Homem entendeu, talvez, não sei. Soltou Billie na sexta-feira, de surpresa.

Ele apareceu no meio da noite. Marina cantava Sophisticated Lady.

Ficou ali, parado, ouvindo – nós no backing vocal, meu coração na boca, morrendo. E a música quase doentia de Marina, linda, longínqua.

Billie apanhou a guitarra e acompanhou. O blues subia pelos seios dela ,tocava os cabelos, dava para sentir o cheiro da paixão. Um gemido de cão abandonado, dolorido, sinuoso. A voz dela acompanhava rouca, estranha, apartada, indecifrável.

Eu olhava para Billie ali, envelhecido, ouvia o lamento da guitarra, a voz dela ecoando e então eu soube que era amor o que sentia.

Esfrangalhado, encardido, esgarçado, roto, amarfanhado, mas amor.

Me suicidei nesta noite com dez tequilas, três dry martinis e cerveja.

Fui enterrada em mim sem choro ou velas. 

 
 

Em homenagem ao rei do pop, essa semana será dedicada a textos inspirados em seus clipes e músicas. Poemas, contos, crônicas e ensaios: qualquer um está valendo.

 

Mande o seu para letraevideo@gmail.com

As Canções de Papel Machê

Eu consegui minha primeira guitarra no verão de 1969. Para isso passei um ano inteiro guardando o dinheiro ganho ajudando meu pai na mercearia. Empacotei milhares de dúzias de ovos, ensaquei compras para todas as senhoras de perfume enjoativo da vizinhança, esfreguei o chão até ele ficar brilhando. E valeu a pena.

A primeira semana de férias, passei trancado no meu quarto. Eu e a guitarra. Toquei até meus dedos sangrarem e criarem calos. Quando achei que dava para enganar, dei o passo seguinte: criar uma banda. Eu na guitarra, João, meu melhor amigo, no baixo e a irmã dele na bateria. Judite era mais velha, mas apoiou o projeto desde o início.

Só faltava uma voz. Precisávamos de alguém para cantar, e Dite trouxe Clarice para minha vida. Desde a primeira vez que a vi, no primeiro ensaio sério de nossa banda, seu olhos doces no rosto calmo e o sorriso sereno ficaram marcados na minha memória.

Ali começara a carreira efêmera do “Papel Machê”, nome sugerido pela própria Clarice. Sabia que não duraríamos muito, mesmo assim foram os melhores dias de minha vida. Os bailinhos de sábado do quarteirão eram animados por nós com versões dos grandes sucessos da época. A voz de Clarice adoçava tudo, e viver valia a pena. Toda a tarde, tocávamos na sorveteria do bairro. Nosso pagamento era a banana split especial, que podia ser dividida com folga pelos quatro. E vez por outra, uma festa não renumerada de algum amigo.

Claro, algumas confusões aconteceram. Na festa de aniversário da minha prima, um amigo dela fez um convite para a nossa baterista. Ele não sabia que Mario, o namorado gigantesco da Dite, também estava presente. A briga generalizou-se, João quebrou o nariz e Judite três unhas, mas os instrumentos não sofreram nada.

No fim do verão, demos nosso último show. Dite iria casar-se e depois da confusão, Mario havia se tornado contrário à participação dela na banda. João e eu, ambos fazendo dezoito anos, iamos prestar serviço militar. Depois do final do baile, nos despedimos, prometendo uma reunião da banda em breve. Os dois irmãos foram para casa, enquanto eu acompanhei Clarice, que morava mais perto de mim. Os sentimentos entalados na garganta, por meses a fio, pareciam sentir o fim da estação. Queriam irromper, aproveitar os últimos dias de calor, antes que tudo terminasse.

Não consegui. Andávamos lado a lado, como fizéramos tantas vezes naquele verão. Discutimos sobre tudo o que não era importante. Lembramos os shows, as confusões, as brigas de João e Dite por qualquer bobagem…

Paramos em frente à casa dela e continuamos a conversa, encostados no Porshe da mãe de Clarice.

Ela fitava as estrelas, que pareciam reluzir no seu olhar Evitava virar o rosto para mim enquanto falava. De repente, após um súbito silêncio, ela suspirou e olhou para mim.

- Sabe porque eu sugeri o nome “Papel Maché”?

- Eu nem sei o que é…

- É uma forma de artesanato. Pedacinhos de papel amassados e colados… Sozinha, cada parte é lixo, mas juntas fazem lindos objetos. Como nós…

- A banda?

- Sim, eu queria que esse verão não acabasse nunca… A banda, cantar… A companhia de vocês. Principalmente a sua, Paulo. Você foi importante demais para mim.

O coração bateu, descompassado. Era agora.

- Clarice, eu…

- Meu pai foi transferido para outro estado. Mudamos-nos em uma semana. Passei o verão inteiro querendo não pensar nisso, em tudo o que vou perder. E vocês conseguiram, mesmo que agora eu vá perder ainda mais coisas do que antes…

Beijou-me de leve na boca e foi em direção à casa. Eu fiquei ali, parado, olhando ela se afastar, o coração apertado com tudo o que eu não disse e nunca ia dizer.

Assim terminou o verão de 1969. Cresci, casei, tive filhos e enviuvei. Em cima da mesa do meu escritório, as fotos da minha família. Em um canto especial, um porta-retrato de papel maché, com uma foto dos quatro integrantes do conjunto, tirada antes da última reunião pelo pai dos dois irmãos… Judite me enviara alguns anos depois. Ela atrás, abraçada com João, os dois fazendo careta. No primeiro plano, Clarice e eu, rindo. Nunca mais vi nenhum deles.

Penso que aquele verão poderia ter durado para sempre. Foram os melhores dias da minha vida, os do verão de 1969.

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O problema era seu sorriso. Tudo o mais em seu rosto era absolutamente normal, seus suaves olhos castanhos, o modo como suas sobrancelhas subiam e desciam alegremente quando ela fala com sua voz angelical, seu cabelo sedoso e perfumado, até mesmo o lindo narizinho arrebitado, tudo dentro do que se poderia chamar de normal, bela mas não arrebatadora, alguns até diriam comum. Mas quando ela sorri… Oh, Senhor! É magia pura! E em doses potencialmente fatais! Não há nada que você pode fazer, quando ela sorri você vira história, já era! Escravizado para sempre, de livre e espontânea vontade, até a hora em que ela quisesse brincar com você, usar você, acabar com você, ela teria. E sem uma única reclamação, nem uma mísera palavra contra. Apenas pedidos desesperados de mais, mais, mais… Seria todo o conjunto da boca, as pequenas rugas que se formam ao lado dos olhos, o jeito travesso como seus lábios se moviam? O que diabos ela tem naquele sorriso que faz isso comigo, que me deixa de pernas moles, quebra minha vontade, me hipnotiza? Seria isso o tão falado amor?

Mas quem se importa? Ela está aqui, não? E me quer, não quer? E sempre – SEMPRE! – com uma brincadeira nova, com algo novo para ensinar. E são tantas coisas que já aprendi… Já fui amarrado com quilômetros de grossas cordas, preso com fita adesiva ao chão (fiquei parecido com uma múmia, ela disse sorrindo, maldição!), enjaulado como um animal, acorrentado à parede, trancado em uma asfixiante sauna seca, jogado dentro de uma caixa… E ela diz que eu ainda não vi nada! Ah, essa mulher!

Ela está vindo, caminhando – não, flutuando como uma bailarina, suavemente, delicadamente.  Hoje vai ser diferente, vou mostrar para ela que não sou seu escravo, não sou seu cachorrinho. Um homem tem que honrar seu nome, sua dignidade! Hoje as regras do jogo vão mudar e ela é que vai aprender alguns truques e brincadeiras novas, com certeza! Agora, parada bem a minha frente, mãos na cintura, olhos faiscantes a me dominar. Essa ansiedade! Então ela sussurra, como uma brisa da primavera:

- Você já viu o mundo de cabeça para baixo, garoto? È tão divertido, você vai gostar, tenho certeza…

E sorri para mim… Ah, dane-se tudo! Estou aqui, querida! Por favor, faça tudo o que quiser, mas não pare, nunca, jamais! Estou pronto, meu amor, vamos brincar, por favor, vamos brincar!

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STREET OF DREAMS       

 Já fomos grandes, você se lembra? E ainda sempre podemos ser se você o quiser. Dormentes caminhos neurais se refazem num intervalo sem tempo quando o real sincronismo acontece.

 Quando te conheci não me deste tempo para respirar. Um respiro que era um sopro de vida desatando as presilhas da alma. Mal os abismos de nossos olhos se espelhavam nas nossas lentes percebêramos a impossibilidade de conflito entre nós.

 Passávamos fulgurando pela via radioativa, pilotando o trem da gravidade. Nossa mentora nos confiara tanto. O que fizemos pra merecer tanta consideração dela? Éramos apenas mais dois soldados da mídia para todo o resto. Percebia ela, mesmo que de soslaio, na tua arfante expectativa antes de cumprirmos o prometido, e com esse a promessa de sonhos cumpridos?

 Você se lembra? Poderia se lembrar ainda de mim? Do como passáramos juntos pelo vau acinzentado do ensimesmamento?

 Estávamos então no limiar de tanta coisa importante, não é mesmo? Fatos lançados no trançado do tempo que desembocavam num daqueles nós das eras. Já não tivéramos nossa cota de mergulhos no oceano das possibilidades que nos fizeram voltar gotejantes de fascínio? E, incônscios das consequências, mesmo os nossos mais talentosos colegas não conseguiam perceber aonde os entrechoques levavam ao bilhar dos eventos. Arqueavam os sobrolhos, quando vislumbravam algo das sutis influências disparadas, mas não de forma tão graciosa quanto os teus arcos capilares quando se costumavam emoldurar tua céptica expressão.

 Os momentos de transição. Sempre soube você aproveitá-los tão bem, tão melhor que eu. Só precisávamos galvanizar o interesse de todos estudantes ali reunidos, por acaso os melhores no que faziam. Foi mais fácil para você do que para mim. A moda que lançamos estava mais do que enraizada e agora era a oportunidade de criarmos os caminhos novos. As ondas em interferência construtiva das mentes conectadas mas não subordinadas. Só os mais intrépidos poderiam te acompanhar. Outros preparariam a logística e o envultamento das intenções perante o vulgo.

 Nossa tampinha-chefe não precisava nem ordenar o próximo passo. Sabíamos bem o que fazer. Quando liberamos a visão dos nossos olhos de arco-íris sobre a audiência, ao descerrarmos as pálpebras não mais ocultas pelas convexas e quase-opacas lentes que usávamos, já há muito eles estavam convencidos pelos harmônicos naturais de tua voz. Voz em ondas que lambiam as fronteiras dos cuidados de defesa do ego. As palavras certeiras para os que não viam sentido algum somente numa simples vida autoperpetuante. E ao mesmo tempo, a imortalidade da eterna expansão prometida aos que não viam graça alguma nas tentativas de auto-superação ou nas agridoces frustrações que as amarras coletivas nos proporcionavam desde a vida unicelular.

 Porque você não ficou aqui – conosco – na missão de reconstrução dos cacos dos vasos partidos, das vidas separadas e não unidas, do refazer dos caminhos traçados nos domínios dos sonhos que se sonham juntos? Porque teve você que se dar o luxo do último mergulho na incerteza?

 A dissolução da personalidade não deixaria nunca mais as curvas de teu corpo se enrijecerem atrás do vítreo esquife em que teu veículo corpóreo foi depositado. Mas quando você voltaria a afagar os nós de meus dedos de novo com a tepidez única de teu toque? Quando você nos comunicaria, com teu humor sempre borbulhante o que percebera no emaranhamento com as consciências ancoradas em mares não aquosos sob céus de matizes não figurados?

 Volte para a vida isolada, eu te peço. Volte para a vida das impossibilidades da separação. Volte para mim, e para “o mim mesmo”, mesmo que este seja agora tenha passado a ser para você só um hábito esquecido de auto-limitação…Eu sinto nas minhas circunvoluções que ainda podemos voltar a ser dois em um e não apenas o sonho de um em muitos.

 E, então, vamos explorar o que as nossas limitações têm a oferecer.

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